Não existe o “pobre de direita”. A expressão tem sentido em tom de brincadeira. Mas não deve ser usada seriamente, em teoria social. Quem a utiliza desse modo não sabe o que faz ou, então, está atuando ideologicamente: quer ridicularizar, humilhar e dominar aquele que ele chama de “pobre de direita”.
Existem pessoas de direita e de esquerda. O pobre não é obrigado, por lógica alguma, a ser socialista, nem mesmo tem de adotar qualquer postura de esquerda. O pobre que não é de esquerda não se torna menos inteligente que qualquer outra pessoa. Nem está em situação menos legítima que qualquer outro indivíduo.
Quando se diz “pobre de direita” e, ato contínuo, aponta para alguém que estaria colaborando com algo que é visto como o seu próprio infortúnio, como se tal pessoa estivesse em um regime de auto-engano, o que se faz é desconsiderar o sistema de valores que estão postos no horizonte de cada indivíduo. Um pobre pode estar completamente ciente de que a esquerda quer uma política social que facilite a entrada de mais pobres em uma boa escola pública, e ao mesmo tempo ele pode não achar bom para a sociedade a implantação desse tipo de medida. E isso por uma razão simples, que ele pode responder da seguinte maneira: eu não quero que tirem do meu horizonte social e ideal a possibilidade de eu, por meu esforço pessoal e individual, conseguir uma melhor situação social que a do meu vizinho. Claro que alguém de esquerda pode argumentar: mas, com a boa escola pública para todos, você vai progredir mais fácil, vai ter condições de ficar melhor de vida, ou seus filhos assim farão. A resposta dele poderia ser: mas quem disse que quero prosperar para ficar bem de vida igual ao meu vizinho? Eu quero prosperar guiado pela ideia de que vou ficar melhor que meu vizinho. Se eu e meu vizinho tivermos as mesmas oportunidades, aí não vai valer a pena. E se esse “não valer a pena” se generalizar, eis que a sociedade ficará estagnada
A ideia básica, levada para um campo moral e jocoso, é a seguinte, ilustrada por uma velha anedota. Um gênio aparece para um homem e lhe diz que pode pedir o que quiser que lhe será dado. Mas explicita uma condição: tudo que você pedir, você vai receber, todavia imediatamente seu vizinho receberá em dobro. O homem pensa um pouco e diz ao gênio: “quero que me arranque um olho”.
Caso o homem da anedota seja um pobre, é difícil achar que ele deva ser denominado o “pobre de direita”. Ele é apenas alguém que não é feliz se todos estiverem em uma suposta condição de dizer “somos felizes”. Para uma pessoa assim, a felicidade seria impossível numa ilha deserta em que não lhe faltasse nada. Isso seria uma espécie de paraíso. Mas, no paraíso, sabemos bem, havia contemplação. A ideia de felicidade, ou ao menos de satisfação, na conta dessa pessoa, estaria em poder olhar para outros e vê-los em dívida, em situações difíceis, enquanto que ele parece estar escapando da dificuldade. Não que deseje que cada um tenha infortúnios. Não é isso. Não se trata de desejar o mal. É a ideia de que do horizonte social não se pode retirar a diferença entre ricos e pobres, pois isso seria um completo banho de água fria sobre todos que vivem agora. Seria um completo desestímulo para quem vive agora, na dificuldade da vida. Mais igualdade até seria bom, pode dizer este homem que é acusado de “pobre de direita”, mas retirar do horizonte social a diferença, seria péssimo. O questionamento dele é válido: quer dizer que vou me esforçar e que meu vizinho vai se esforçar também e chegaremos ambos ao mesmo lugar? E ele continuaria assim: ora, bolas, como me garantem que o esforço do meu vizinho será igual ao meu? Eu quero que exista uma escola para ele, mas quero que, no horizonte, possamos permanecer com a ideia de que o filho do rico possa ter uma escola melhor. Eu pretendo por o meu filho nessa escola do filho do rico. Posso não conseguir, mas quero que ela exista para eu tentar!
Pode-se achar esse pensamento estranho, mas a estranheza ocorre para quem valoriza a igualdade e para quem acredita que a concorrência – seja lá como for – não são elementos interessantes. Igualdade não é um deus que se possa adorar assim, de imediato. Fim da competição generalizada, a partir de pontos de partidas quaisquer, também não é uma regra que se possa amar sem questionamento. A equação posta por este homem, o que é chamado de “pobre de direita”, é completamente legítima. Ele é pobre agora. Neste momento. Mas ele pode ganhar na loteria. Pode simplesmente receber um emprego melhor. Pode ter a sorte num casamento com uma mulher rica. Pode receber uma herança. Pode ser apadrinhado por um patrão ou um político. Pode acreditar que há negócios que outros não fizeram e que são lucrativos demais, basta procurá-los, inventá-los. Todos esses elementos são “naturais”, ele diz. São perfeitamente legítimos. Dependem de sorte, esperteza, e até mesmo de trabalho. E são eles que contam na decisão de não querer o igualitarismo como uma grade de ferro no horizonte social.
Mas se o indivíduo de esquerda quer retrucar, aquele que é acusado de ser o “pobre de direita” poderia, ainda, fornecer mais um argumento. Convidaria o seu interlocutor para entrar na “máquina de Nozick”. Como funciona? Ora, é uma máquina pensada pelo filósofo Robert Nozick, autor do célebre Anarquia, estado e utopia (1974). Uma vez no interior da máquina, você é transportado para um lugar de plena abundância, sem qualquer precariedade na vida individual. Todavia, há uma condição: nunca mais voltar. Quem entraria? Muitos de nós, de esquerda ou direita, diríamos: mas tenho de entrar só eu? Não posso levar mais alguém junto? Mas a pergunta central não seria esta. As perguntas decisivas seriam estas: nunca mais posso voltar? Não haveria uma comunicação com este mundo? Não poderia ser somente nas férias?
A ideia da felicidade plena ligada ao fator abundância, ou mesmo paz de espírito, nos assusta. E a ideia de que o igualitarismo é a felicidade, sendo uma ideia exclusivamente moderna, nos assusta mais ainda. Faz pouco tempo que a inventamos para ser uma possibilidade neste mundo em que vivemos. Mesmo as pessoas de esquerda, quando olham para a máquina de Nozick, sabem que se apavorariam se arrastados para ela.
Como uma pessoa de esquerda, como eu, posso encarar essas questões? Ora, ser de esquerda é pedir justiça social. É acreditar que todos devem ter chances bem próximas para melhorar de vida. Os argumentos para isso, todos eles, possuem pressupostos. Esses pressupostos não implicam em tornar aqueles que não partilham deles, pessoas burras. Assim, ser de esquerda é atrelar um projeto político a um gosto por determinado tipo de mundo, que é qualificado por nós como o de justiça social. Um filósofo como eu talvez fique mais sossegado espiritualmente ao colocar no horizonte uma sociedade igualitária, e mesmo gostando muito de Platão, não desejar viver na cidade de Calípolis. Não tenho nenhum argumento “lógico” que derrube de quatro alguém que se opõe a mim. Dizer ao pobre que esse meu paraíso é melhor que o dele não diz nada!
Volto ao inicio: chamar alguém de “pobre de direita” pode ser algo mais que burrice, pode ser uma forma de ridicularizar e dominar. Pode ser as duas coisas, pois um burro, não raro, também quer dominar. Os burros podem encontrar a culpa de tudo em “elites” ou em “bastardos” ou em “pobres” e por aí vai. Distribuir culpas é uma forma de comichão anal.
Paulo Ghiraldelli 24/10/2024. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor.
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Mas todo pobre que vota na direita tem satisfação em se sentir mais rico ou melhor posicionado socialmente e não quer oportunidades iguais para todos?Não existem pobres que simplesmente votam nas propostas da direita por pensar que são elas que levaram à justiça social?
Vai se ferrar seu ultra direitista arrombado sempre perto de eleição se revela o grande pilantra quer é defensor de extrema direita disfarçado arrombado pobre de direita que mora no quintal da mãe invejoso
Ultra-diteitista? Se liga, anônimo.
O problema que eu vejo e que muitos pobres estão sendo seduzidos pelas igreja evanjegue e os pastores manipulam Boa parte do povo inclusive na época de eleição
Professor, peço desculpas a você e a todos que talvez, eu tenha ofendido com meus pensamentos. De fato em algum momento da minha vida pensei dessa forma, agradeço muito ter conhecido o canal que abriu meus olhos e hoje posso dizer estou procurando melhorar cada dia mais. Agradeço muito por essa reflexão e quero dizer que concordo com tudo que foi dito. Dificilmente comento o que o senhor fala, mas esse assunto mexeu com meus sentimentos, portanto, quero mostrar minha gratidão por tudo que venho acompanhando nesse canal. Muito obrigado é pouco, mas é de coração.
Edilson Lima.
Obrigado Professor por mais um artigo para se refletir .
Malabarismo intelectual pra justificar a inveja que tem do Jessé.
Que bosta de texto. Falou nada com nada.
Melhore, Ghiraldelli.
Pelos comentários, e a forma como comentaram, percebo como a esquerda manipula bem as mentes pela fome. Não conseguiram entender a essência do texto! Marcelo
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