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TERTULIANA E JESSÉ: A MESMA VIBE

Jesse de Souza e Tertuliana Lustosa estão pendurados em um mesmo varal. Seguram-se no fio. Rebolam pelos ventos. Estão unidos ao incorporarem a prática da narrativa que acreditam combater. Tertuliana pensa que pode, com as nádegas em riste, deter os fascistas. Mas os fascistas adoravam e adoram nádegas. Amavam e amam a pornografia. Desnudavam todos os que iriam, em seguida, levar para a câmara de gás. Por sua vez, Jessé pensa que pode, com o dedo em riste, por para fora da sociedade a direita. Ele parece, estranhamente, desconhecer que o fascismo funcionava e funciona apontando com o dedo para os que estão juntos deles. Discriminam. Jubilam-se ao chamar de “bastardos” os que devem ser ridicularizados, e que irão para a câmara de gás.

Tertuliana e Jessé estão imersos no espírito do fascismo justamente na medida em que pensam dar combate aos fascistas. Observo abaixo um de cada vez.

Tertuliana quer o “prazer” na escola, no ensino. A palavra é dela, em um artigo para uma revista da Universidade Federal da Bahia, de nome Periodicus:

“O que eu penso sobre educação e prazer: como estudamos na escola o pênis e a vagina como órgãos reprodutores, estamos estudando a binariedade. Não estamos estudando ali a intersexualidade, os livros podem falar sobre as noções fisiológicas do prazer, mas não se aprofundam nisso. Será que é ensinado na escola como realmente é o prazer? Imagina se fosse ensinado que além do pênis e da buceta, existe o cu que também é uma fonte de prazer, e o resto do corpo todo pode ser também fonte de prazer; a boca, o braço, o pescoço, o corpo inteiro é fonte de prazer” (n. 19, v. 2jul-dez.2023p. 180-192)

Duas observações sobre Tertuliana.

Primeira. Não vejo razão para colocar na escola qualquer prática que tenha que explicar para crianças ou jovens que o ânus é zona erógena, e não só a pepeka, o pipi e a orelha. Todos sabem disso, e o aprendem consigo mesmo e nas práticas socias próprias ao mundo não escolar. Pode-se aprender a beijar com a colega ou o colega na escola. Essa prática se aperfeiçoa fora da escola. A sociedade reserva inúmeros lugares para que essa prática ocorra, e não dispõe de vontade, com boas razões, para pagar um profissional que venha a acompanhar as crianças e jovens nessa atividade. Há o baile de clubes, há o cinema, há as sala das casas. Se isso sumiu, restou os encontros de igrejas (sim!). Se nessas práticas simples de namoricos o ânus e outras partes são acionadas para o prazer, irão responder. De alguma forma, até pela negativa, irão responder. Talvez a escola possa, em alguns momentos, recordar aos alunos que toda mídia fala de prazeres corporais e que a informação sobre isso é o que menos falta nessa mídia. Pode-se criticar a mídia na escola, se se acredita que ela mais desinforma que informa, ao fazer o volume de notícias serem ditadas pelo caráter do consumo. Agora, o que pais pagam, por impostos ou diretamente, para que um professor qualificado, venha a tratar disso para além desse lembrete crítico, é algo ilegítimo. Por que se vai gastar dinheiro e tempo na escola em algo que se aprende em todo lugar? Quando se imagina que prazer anal é algo para professor ensinar, é necessário imaginar uma sociedade que não possui nenhum espaço de socialização e uma sociedade que não sai do banheiro, em defecação contínua, uma vez que não aprendeu o controle dos esfíncteres, e o prazer envolvido nisso.

Segunda observação. Tertuliana perdeu a distinção entre o público e o privado. É uma perda bem atual, é uma vigência do “capitalismo de plataforma”. Várias pessoas, por razões que discuto em outros textos, não sabem mais nada sobre essa distinção, e inclusive deixam a vida íntima desaparecer. O prazer corporal está associada a uma intimidade, quando se trata de sexo. Uma prática de dança é sempre uma performance, e quando posta no ambiente público, na sala de aula, afasta de todo a possibilidade da vivência que lhe é requerida, e que clama pela intimidade. Uma dança que não é movimento não é dança. Uma dança tem em seus movimentos o prazer da não finalidade (Agambem tratou desse assunto). Se ela é posta como um “encontro de cus” ela se objetiva, perde o caráter de dança, mas também não é reduto do prazer, uma vez que está inserida no contexto da performance. Só alguém educado pela pornografia, pela ideia do movimento da filha do Temer, o “Agora você sabe”, pode acreditar que prazer sexual pode ganhar o espaço reservado ao prazer erótico que, enfim, só ocorre de maneira sutil. Que uma dança escolar possa dar tesão, na preparação da festa junina, é fácil saber. Que uma sala de aula de dança, ou até mesmo de história, que promova envolvimento corporal, com dança ou exercícios, possa gerar uma esfera erótica que é aprendizado e também propícia a todo tipo de aprendizado, não é algo desconhecido. É tão velho quanto Sócrates. É tão novo quanto Reich e a cultura dos Sixties. Mas, em ambos os casos, a sutileza é o império requerido. “Vá e encoste o cu com o cu do outro”. Ou “vá e seduza o outro”. Ora, isso, que Tertuliana faz, não dá prazer e não ensina o prazer. Nem mesmo é contra-ideologia. São práticas que, postas na escola, ganham a formalidade do local e se descaracterizam. Em lugar nenhum pode haver um start para o “faça amor”. A bunda em riste é tão fascista quanto o dedo em riste. (1)

O caso de Jessé de Souza é talvez mais problemático que o de Tertuliana. Também envolve a pornografização do mundo. Ser pornográfico é fazer a exposição do que só pode vingar pela discrição. Jessé não conhece a discrição e o respeito. Ele põe no centro da praça pública, para humilhação e culpa, o que ele chama de “pobre de direita”, e que ele completa com “bastardo”, em sentido de adjetivo. O “pobre de direita” é pobre, mais preto que branco, e evangélico. Assim ele diz. Ele não vê nenhuma possibilidade dessas pessoas poderem estar em um campo político legítimo. Do mesmo modo que em um de seus livros ele inventou de culpar “as elites”, dizendo – erradamente – que elas manipulam toda a sociedade (Ah! a Rede Globo né?!), ele agora, com os seus “bastardos”, encontrou mais culpados. Antes eram os ricos o infortúnio. Agora são os pobres. Bastou não votar no que ele quer e, então, aparece a culpa, o dedo em riste de Jessé. É a prática do coronel de suástica no peito: apontar, discriminar e humilhar. Mas, como Jessé se acha de esquerda, ele não tem câmara da gás. Tem algo talvez pior: a explicação para o coitadinho. É ele mesmo quem fala, vejam só:

“Você tem que explicar. Essas pessoas não sabem. Ninguém jamais explicou para ela por que ela é pobre. Então você precisa explicar, senão vai vir a explicação evangélica de que foi o Diabo que se apossou de você, porque é o comunismo, porque tem Cuba, China. (Folha de S. Paulo, 20/10/2024)

Escolhi citar a entrevista e não os livros, mas os livros dele estão todos imbuídos dessa ideia. O problema é que ele quer explicar, pois ele acha que as pessoas pobres, que vivem a pobreza, estão todas com raiva e com desconhecimento do que é a vida delas, a vida de trabalho duro. Paulo Freire gastou meio século combatendo essa visão da esquerda que deslegitima a vida, o saber popular, e que quer “explicar” para o pobre que ele é pobre. As pessoas pobres sem a boa escolarização podem não sabe dizer o que é mais-valia (bom, nesse caso, não diferem do próprio Jessé), mas elas sabem muito bem que não ficam com a melhor parte do dinheiro das empresas para as quais trabalham. Sabem também que o trabalho delas é subvalorizado por essas empresas na hora do pagamento de salário e benefícios. Mas, por que diabos elas deveriam ser, por exemplo, socialistas, e eleger Jessé o novo Lênin (ou Boulos, ah!) que as comandariam em ódio contra a tal da “elites”?

O horizonte liberal é dado por uma prática do capitalismo e também por uma série de discursos justificativos. Podem conter contradições, tais discursos. Marx alinhavou as contradições que saltavam aos seus olhos no século XIX. De modo mais suave, fez Piketti, e sem invocar a produção e sim a circulação. Todavia, em nenhum dos dois casos, há de se imaginar que alguém deve ganhar um “explicador”. Marx deixou isso claro quando colocou a pergunta: “quem educa o educador?” Se o iluminismo educa, quem faz o iluminismo? Se os filósofos e professores educam, quem os cria? O liberalismo é um sistema justificador que possui furos. Mas quem disse que eu não posso desejá-lo e ser uma pessoa comum, normal, boa, sincera e inteligente?

O liberalismo não se faz de rogado. Vejamos. O presidente, que é um homem de esquerda, disse que estudando as pessoas irão chegar bem mais longe, e se ele, sem nada, chegou à presidência da República, os com estudo irão mais longe. Lula disse isso. Ora, aí está o horizonte liberal. Pode-se argumentar sobre a vantagem da escola pública de boa qualidade, sobre a opção de deixar a educação privatizada. Mas é pouco interessante achar que esse argumento vá tornar alguém propenso a votar só na esquerda. Caso a esquerda prometa que o horizonte da competição por mérito deverá desaparecer, que uma sociedade não deva ter ricos e pobres e que, então, ele, o pobre, não poderá almejar ser rico, dificilmente haverá aí alguma legitimidade e talvez poucos irão achar isso bom. O pobre não tem ódio contido, que é manipulado pela direita, e que o faz canalizar esse ódio conta a esquerda. Algumas pessoas são frustradas, e assim agem. Mas isso não caracteriza os pobres. O que vale é o horizonte: por que votar em gente que vai tirar do horizonte a promessa liberal (e de direita, nos dias atuais) de que é possível ficar melhor de vida, e até rico? O horizonte liberal é forte, e não cai por explicação. Conforme a explicação, inclusive, até é reforçado pelo discurso de esquerda.

O pior ainda ocorre com Jessé quando ele diz que o “pobre de direita”, pronto para a odiar a esquerda, o faz na condição de evangélico. Ora, os evangélicos já votaram em Lula. Hoje não votam. Mas, quando votaram, o fizeram acreditando em melhorias, e hoje, se não votam mais, é porque confiam na palavra do pastor. E também por questões de toda uma conjuntura que os fez se socializarem pela igrejas, e não nos sindicatos, escolas etc. Querer acreditar que evangélicos deverão ser educador pelo grande Jessé para não achar que o diabo faz coisas na Terra é bem estranho. Ora, todos nós sabemos que o diabo faz coisas que nem Deus acredita. O desejo de Jessé de “explicar”, já é coisa do diabo! Lendo Machado de Assis, em “A igreja do Diabo”, ele conseguiria dar crédito para a complexidade de crentes e descrentes, e talvez parasse de apontar dedos encontrando bastardos, coitadinhos, que precisam dele para uma “explicação” sobre a razão de acordarem cedo para o trabalho. Aliás, será que Jessé acorda cedo para bater ponto?

Resta agora é torcer, e pedir a Deus, para que Jessé não invente de usar o método pedagógico da Tertuliana para atingir seus “bastardos”. Isso daria náuseas, coisas que Tertuliana não provocou. Deus há de ter piedade de nós.

Paulo Ghiraldelli.

(1) No artigo de Tertuliana, citado, há um desenho de práticas, e ela põe no título o nome de Deleuze. Ora, creio que ela ouviu o galo cantar e não sabe onde. Se ela acha que suas práticas liberam “o desejo”, e por isso escolheu invocar Deleuze, ela dá mostras de que ou não leu ou não entendeu nada de Deleuze. Não se reduz “o desejo” de Deleuze a situações pessoais, relações sujeito-objeto. O desejo em Deleuze não é algo de uma pessoa para outra, ele tem o caráter de forças cósmicas, numa similaridade ao que são forças e “vontade de potência” em Nietzsche.

VEJA O VÍDEO SOBRE O ASSUNTO AQUI:


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