- A floresta
A Folha de S. Paulo realiza o concurso para o Prêmio Empreendedor Social. A Fundação Schwab, ligada ao Fórum Econômico Mundial, é a sua parceira. Gerdau, Coca Cola e outras grandes empresas apoiam, financiam e divulgam o prêmio. Segundo a própria Folha, os “famosos”, como Gabriela Prioli e Felipe Neto são “padrinhos” dos projetos. A tarefa deles é chamar pessoas comuns para fazerem doações para os finalistas. Eles próprios não doam, mas pedem. No ano de 2024, um dos finalistas anunciados é o geógrafo Walmir Ortega, sócio fundador da startup Belterra Agroflorestas.
A Folha de S. Paulo apresenta Ortega como alguém que se define como “progressista”, e que é “capaz de atuar em parceria com fazendeiros bolsonaristas”. O jornal põe o próprio Ortega para falar, e ele conta que seu projeto de reflorestamento é bem aceito, uma vez que é ‘independentemente de posição ideológica, o agricultor vai participar se entender que estamos oferecendo uma oportunidade econômica’. (O plantador de florestas que sonha restaurar a Amazônia. Folha de S. Paulo, 23/10/2024).
É claro que esse tipo de atuação do geógrafo é bem vinda. Quem falaria contra plantar árvores em lugares em que nenhum vegetal de grande porte se apresenta? Todavia, de semântica cinzenta o inferno está cheio. Ao falar em “reflorestamento” em “áreas degradadas” o que está implícito (ou melhor: explícito) é que existe reflorestamento, que se trata de algo possível. Ora, existe plantio de árvores, não existe reflorestamento. Uma floresta não pode ser reposta. É como beijo. As pessoas que se beijam podem beijar de novo. O beijo pode tentar ser igual, mas nunca o mesmo. Às vezes pode-se confundir o mesmo com o igual. Mas isso é um erro. O igual vai pelo lado do equivalente, o mesmo tem a ver com a inalterabilidade, ao menos em seu âmago.
Nada pode recriar uma floresta. Mas, quando se acredita que o homem, para tudo que destrói, pode fazer o trabalho de reposição colocando no lugar algo equivalente, abrem-se as portas para o descuido e, então, o desrespeito à lei, a falta de escrúpulos e a má saúde do nosso mundo. Quem não escova os dentes para que, mais tarde, possa recolocá-los artificialmente, pode até acreditar que ficará com a boca melhor. Mas, será que alguém realmente adota para sua vida uma tal prática? Alguém deixará de escovar dentes pensando no ato futuro de “restauração”? Ora, setores agrários e financeiros adoram ficar convencidos disso. E amam nos tentar seduzir para essa solução, e se isso nos pega, então podemos viver o aqui e agora mais despreocupados. Por isso, uma tal retórica nos convence. Adoramos ficar mais leves por meio da desresponsabilização com o presente. Dentro desse programa de, digamos, “saúde do futuro”, a preservação de florestas seria perda de tempo, preocupação inútil e, enfim, objeto de idolatrias de gente atrasada que gosta de santuários. A regra neoliberal é, enfim, a de flexibilizar e desonerar.
Para esses setores que adoram o pensamento desonerado, o cartum de Quino, em que o freguês do restaurante pede “o mesmo” prato daquele outro freguês que está sentado ao lado, não faz sentido. O garçom vai até a mesa ao lado, toma o prato do homem e o entrega ao freguês recém chegado. O garçom é um homem de rigor lógico, ele sabe que o correto seria o freguês pedir um “prato igual”, não “o mesmo” (figura 1). O homem do agronegócio sabe dessa distinção entre o mesmo e o igual? O geógrafo do “desenvolvimento sustentável” leva isso a sério? Parece que não. Eles acreditam nesse lema: árvore derrubada se cura com árvore plantada. Imaginam que essa é a regra que se pode propagandear. Preservar vai contra “o progresso”. E como podem as pessoas não serem “progressistas”, não é?

No caso, a semântica passa por cima da ideia de nichos ecológicos, ecosistemas, vida efetiva e outros conceitos que implicam que a cópia é a cópia, que não é o mesmo, e que o que vivemos hoje não é o império da cópia, mas do simulacro. Uma área “reflorestada” é um simulacro, não a cópia. Ela é um simulacro pois é uma invenção. Trata-se da ficção que se faz real enquanto hiper-real. Talvez porque cópia nunca foi efetivamente possível.
2. O simulacro
Como eu o apresento aqui, o simulacro está conceituado em dois específicos textos. O primeiro é de Jean Baudrillard (1981) e o segundo é de Gilles Deleuze (1969) (respectivamente: Simulacro e simulação, Lisboa: Relógio D’Água, 1991); “Platão e o simulacro”. In: Lógica do sentido. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1974.).
Baudrillard diz que “dissimular é fingir não ter o que se tem” e que “simular é fingir ter o que não se tem”. Mas, em seguida, pegando o dicionário, ele se corrige: Simular não é propriamente fingir, ‘aquele que finge uma doença pode simplesmente meter-se na cama e fazer crer que está doente’. A conclusão que ele tira é que fingir ou dissimular não alteram o “princípio da realidade”, ao passo que “a simulação põe em causa a diferença do ‘verdadeiro’ e do ‘falso’, do ‘real’ e do ‘imaginário'”. “O simulador está ou não doente, se produz ‘verdadeiros’ sintomas?” Então, “objetivamente não se pode tratá-lo nem como doente nem como não-doente”. Diante disso, a medicina perde o sentido. Ela trata de doenças ‘verdadeiras’, que assim são chamadas por terem causas objetivas. (Jean Baudrillard, pp. 10-11).
A simulação, segundo Baudrillard, faz uma batalha contra a representação. Esta tenta absorver a simulação interpretando-a como simples falsidade, e a simulação, no troco, “envolve todo o próprio edifício da representação como simulacro”. Esse processo percorre etapas. Elas são etapas da imagem no âmbito da história da cultura. A imagem começa como sendo o “reflexo de uma realidade profunda”, depois passa a ser o que “mascara e deforma uma realidade profunda”, em seguida “mascara a ausência de uma realidade profunda” e, por fim, “não tem qualquer relação com qualquer realidade: ela é seu próprio simulacro”. (Jean Baudrillard, p. 13). Essa sequência se assemelha ao texto de Nietzsche que busca, em uma página, sintetizar toda a história da filosofia como “história de um erro”. É um escrito interno do Crepúsculo dos ídolos. Ao final, em Nietzsche, todo critério de verdadeiro e falso se esvai. Trazendo para o plano social, Baudrillard chega à fase sócio-histórica, que é a que vivemos, como a era de império do simulacro.
Por sua vez, Deleuze diz que, com o simulacro, “o problema não concerne mais à distinção essência-aparência, ou modelo-cópia”. Para ele, “essa distinção opera no mundo da representação”. O “simulacro não é uma cópia degradada, ele “encerra uma potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução”. “Não há mais ponto de vista privilegiado do que objeto comum a todos os pontos de vista”. Então, a hierarquia desaparece. Se a semelhança subsiste, ela é “produzida como o efeito exterior ao simulacro, na medida em que se constrói sobre as série divergentes e faz com que ressoem”. O mesmo e o semelhante são simulados, mas isso não implica que sejam aparências e ilusões. Pois “a simulação designa a potência de produzir um efeito”. (Gilles Deleuze, pp. 267-268).
A referência de Deleuze também é Nietzsche, mas em um tópico especial, o do eterno retorno. O eterno retorno “não faz retornar tudo“. O que não retorna é a pressuposição do mesmo e do semelhante, o que tem por função corrigir a divergência e ordenar o caos. Assim, o eterno retorno “subverte a representação” e “destrói os ícones”. “Não pressupõe o mesmo e o semelhante, mas, ao contrário, constitui o único mesmo daquilo que difere, a única semelhança do desemparelhado”. Trata-se da potência para afirmar a divergência e o descentramento” (Deleuze, p. 270).
Tanto Baudrillard quanto Deleuze enxergam a Arte Pop como o momento significativo em que o simulacro se explicita exemplarmenteno campo artístico, e assim realiza de modo paradigmático o que faz em todo o campo social. Tento exemplificar abaixo.
Tomemos a atriz Marylin Monroe. Considerado o pouco tempo que viveu, talvez possamos dizer que foi a figura mais fotografada de nossa história. Andy Warhol apresentou Monroe nesse movimento de reprodução, trazendo para a arte o que seria a mensagem publicitária. (figura 2) O que ele faz senão dar vazão ao simulacro, a produção do que teria como origem a cópia? Mas efetivamente não se tem cópia alguma. Nem na publicidade e nem na arte que tematiza como arte a publicidade. Cada imagem é a introdução de uma outra Monroe. Até aí, o exemplo pode estar em Baudrillard e Deleuze, aliás, ambos remetem a Warhol. Mas posso continuar com Monroe, em uma situação que Baudrillard, Deleuze e Warhol não viveram.
O simulacro não perdoa. Então, Madona faz diversas aparições públicas como Marylin Monroe, e culmina em um ensaio que mostra o que seria a imagem da atriz no leito de morte.(figura 3) Mas nem a imagem divulgada pode ser tomada como original para a inspiração de Madona, nem, aliás, a própria Madona pode inspirar os que procuram Madona, uma vez que sua foto tem uma modelo profissional que a substitui em ensaios de corpo. Cabe falar em império da cópia? Cabe falar em representação? Não mais. Pois estamos diante do simulacro em seu regime de produção de algo inusitado, instaurando todo tipo de objeto que cria reação e desejo inexistentes até então (figura 4). Pode-se ainda acrescentar aí, para se entender o que Deleuze chamou de “a vertigem do Simulacro” (p. 268), mais uma imagem, aquela que ficou como a oficial da cena da morte, gerada pelas mãos da polícia (figura 5).
3. Considerações sobre Baudrillard e Deleuze e conclusão
Baudrillard tem uma narrativa menos entusiasmada que a de Deleuze a respeito do simulacro. A distância no tempo entre ambos pode explicar, em parte, essa diferença. Mas, a diferença de fundo, que vale a pena ser notada, diz respeito à abordagem, sociológica no primeiro e essencialmente filosófica no segundo. Assim, se ambos afirmam o impasse no regime da “representação”, para Baudrillard isso tem a ver com uma situação histórica, enquanto que Deleuze trata o simulacro como transhistórico. Baudrillard entende que está descrevendo uma era do simulacro. Deleuze está em uma narrativa cosmológica e ontológica. Baudrillard se vê desenvolvendo uma crítica da modernidade como quem observa a hegemonia crescente do simulacro no regime das imagens. Deleuze visa colocar o simulacro como um elemento que “reverte” o platonismo enquanto uma filosofia que não pode continuar sendo nossa melhor metafísica, isso se é para nos mantermos na metafísica.
A sociologia de Baudrillard diz do aparecimento do simulacro. A filosofia de Deleuze diz que o simulacro sempre esteve presente, foi tematizado por Platão e outros, mas o modo como falaram dele não é o melhor.
Podemos voltar, então, ao problema da floresta. O reflorestamento não é reflorestamento. Como simulacro, ele é algo novo, que repõe a floresta sem que a floresta, como entendemos que é uma floresta, se instale. O que é chamado de “reflorestamento” é o plantio de algo que tenta se redefinir como floresta, mas não repete a floresta. Apostar nisso que recebe o nome de “reflorestamento” sem apostar na preservação da floresta é diminuir as chances que se tem de ampliar o que é o inerente ao devir: a produção do diferente. Quando buscamos diminuir experiências, estamos nadando contra o caoticidade da produção do diferente, ou seja, estamos tentando segurar o que não pode ser segurado, que é a nossa repetição pela diferença. Em certo sentido, é diminuir a vida. O ensaio de Madona – que é da ordem não da cópia, mas do simulacro – é um elemento que lança mais riqueza à vida, mas ele não é a única via de produção. Marilyn Monroe continua sendo fonte de produção de riquezas da vida. A própria floresta que recebe o nome de “original”, se cuidarmos dela, continuará nos ciclos de seu desenvolvimento, também produzindo o novo. O novo, o diferente, o que põe novas riquezas e amplia a vida, não é necessariamente o “reflorestamento”, mas a própria floresta já existente.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor.
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A MESMA COISA É UM PAU MELADO NO MEIO E CAGADO NAS DUAS PONTAS.
Professor Paulo, gostei do texto, seguem meus comentários…
Quando se restaura a pintura de uma tela de um quadro antigo, temos um simulacro, visto que o original não existe mais?
Se sim, significa dizer que tudo se torna um simulacro ao longo do tempo?
Se sim, será que eu sou um simulacro de mim mesmo?
Me pareceu que segundo Baudrillard, sim. Mas segundo Deleuze, não.
Entendi a importância de circunscrever o problema do “reflorestamento”, a distinção entre o “igual” e o “mesmo”, e suas implicações no aspecto do extrativismo e da preservação do ecossistema da natureza.
Tem uma música do Oswaldo Montenegro, chamada “Rasura”, que na parte final diz assim: […] rasurar valeu a pena, como esteve rasurado, o primeiro original, do mais lindo poema.
Então, talvez a distinção entre ser ou não um simulacro, devesse ser vinculado à essência, por que mudar, faz parte da vida. Assim, a tela do quadro restaurando, continua sendo um original.
Obrigado, Klauss
Oi prof. Paulo, agradeço à atenção.
Bola fora minha, coisa de gafanhoto..
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