Os anos de 1970 viveram uma grande ressaca. De alguma maneira, revolvia-se o eco estranhamente plurissemântico do movimento que teve seu clímax no Maio de 68. Esse movimento, todos nós sabemos, tinha em seu núcleo reivindicações libertárias: contra costumes morais fechados, contra os regimes capitalista do Ocidente e socialista do Leste, contra a Guerra do Vietnã, contra o trabalho fabril chamado, então, de “alienado”. Os muros do mundo receberam uma pichação semelhante ao final dos anos de 1960: “é proibido proibir.”
Esse tom libertário, não raro escondeu que, no interior da revolta geral, havia aqueles que não tinham nenhuma simpatia para com qualquer ideário de esquerda, fosse ele comunista ou social democrata. Muitos viam a burocracia soviética como semelhante à burocracia americana, caso essa quisesse colaborar com sindicatos, barrar monopólios e cobrar impostos dos mais ricos. O estado era o inimigo geral, e a democracia popular surgia como o resultado da atuação desse estado que, enfim, estaria nas mãos de criptocomunistas.
É sempre bom lembrar que o libertarismo, no interior dos Estados Unidos, abrigava em seu interior ao menos duas correntes de direita. Uma deu alimento para o neoliberalismo, outra ajudou a forjar o anarco-capitalismo. Em termos econômicos, a Escola de Chicago dava vazão para o pensamento neoliberal. Em termos filosóficos, a produção de Robert Nozick (1938-2002) deu esteio para o pensamento dos anarcocapitalistas. O seu livro Anarquia, estado e utopia, escrito contra o Teoria da Justiça, do igualitarismo liberal de John Rawls (1921-2002) saiu em 1974. Rawls pedia liberdade com igualitarismo. Nozick pedia o fim de todo e qualquer igualitarismo para que a liberdade pudesse vingar. Aos olhos de neoliberais e anarcocapitalistas, Rawls nem era um liberal, mas um simpatizante do socialismo!
O eco libertário também atingiu a pedagogia. Para muitos, não bastava mais falar em liberdade no interior da escola, era fundamental apontar para a liberdade da sociedade diante da escola. Com o seu Sociedade sem escolas, de 1971, Ivan Illich não agradou somente anarcocapitalistas, mas uma boa parcela da esquerda. Nunca devemos nos esquecer que em 1979 Pink Floyd estourou com a sua canção teatralizada: The Wall. Pedia-se para deixar as crianças “em paz”. A escola e os professores deveriam se afastar. No mesmo ano, Lyotard publicou o seu A Condição Pós-moderna, no qual mostrava o desprestígio das grandes metanarrativas: tanto a grande narrativa do iluminismo quanto a narrativa Marx-Keynes teriam perdido credibilidade, abria-se uma era do indivíduo e dos saberes pequenos. A sociedade que viria, no entanto – ele assim esperava – não seria, afinal, de todo ruim. Ela poderia alimentar, em saberes diversificados e veiculados por terminais de computadores bem distribuídos, todos que tivessem a sede de curiosidade. Os membros individuais da sociedade, então, poderiam se ligar uns aos outros, formando uma rede de conhecimentos. Não se tratava, portanto, de fazer da tecnologia uma colaboradora da escola, mas uma verdadeira máquina substituidora da instituição escolar. E isso não seria o fim do mundo.
Por todo canto, pedia-se menos estado, menos burocracia, menos formalidade, menos amarras. Até o dólar pedia liberdade! De fato, em 1971 Nixon havia libertado o dólar da sua referência no ouro. Daí então nasceu o mercado do dólar sob cambio livre. O dinheiro deu os passos de desregramento que a sociedade havia pedido para os homens. Poucas décadas depois, os computadores em rede realmente surgiram, mas não para gerar terminais de ensino, e sim para fazer com que o mercado de papéis ganhasse incentivo inaudito. Sem internet não há, hoje, mercador financeiro.
Durante mais de 40 anos, portanto, cultivamos o individualismo e a ideia de que iriamos nos livrar de várias instituições, em especial a escola. Batalhamos por esse ideal. Até pouco tempo boa parte de nós, inclusive na esquerda, não titubeava em dizer que a escola precisava de receber tecnologia. A escola estava, dizíamos, estava obsoleta diante do “mercado” (para a direita) ou da “cidadania” (para a esquerda). Investir em educação, para muitos, nunca foi investir no professor, e sim em tecnologia. Para a esquerda, cabia investir no professor, mas não sem também criar na escola o “polo computacional”. Aprenderíamos por dispositivos móveis acoplados às nossas cabeças. Aprenderíamos por celulares, então veiculadores da internet. A futurologia não dava chance de crítica. Qualquer fala crítica em relação a ela era vista como pensamento retrógrado. É como hoje, quando falamos sobre manter a Amazônia como santuário. Os “realistas” logo ensinam: ora, o desenvolvimento virá de qualquer modo, então, é necessário que seja o “desenvolvimento sustentável”. Mas, o realismo não é inteligente. E hoje, diante dos celulares em sala de aula, com o tal futuro destruindo o próprio futuro, podemos perceber isso. Podemos?
Vinte anos depois do sistema da internet ser instaurado, o mundo todo discute proibir o celular em sala de aula. O celular descorporifica, cria ansiedade, gera desatenção em níveis patológicos e prejudica o desenvolvimento cognitivo e emocional. Em poucos meses, agora depois da Covid, ampliamos a consciência diante do problema, e tudo indica que vamos extirpar o celular do ambiente jovem. Mas a revolução individualista ainda caminha. Ela tem fôlego. Somente quanto ao tópico da questão tecnológica envolvendo crianças é que o perigo está se mostrando efetivo para muitos pais e governantes. “É proibido proibir” não conquista as pessoas à esquerda e direita com tanta facilidade. Todos estão de certo modo percebendo o perigo. Talvez só aqueles que acham que Musk é arauto da liberdade ainda estejam sem saber do problema. Mas a percepção do problema, volto a dizer, é uma percepção que envolve apenas a questão do celular na sala de aula. É necessário ampliar a conversa.
A tela do celular é restrita. Mas ela é restrita não só do ponto de vista técnico. Ele restringe conteúdo. Quem está na rede recebe conteúdo patrocinado. A internet livre desapareceu. E mesmo que estivesse viva, a questão toda é que a interface homem-máquina, no caso da internet, obriga o homem a diminuir seu vocabulário e sua capacidade para poder passar ordens para a máquina e receber ordens da máquina. Estamos no mundo de uma nova subjetividade, a subjetividade maquínica, atravessada pela inflação de semiótica e a deflação semântica (como escrevemos nos livros Subjetividade Maquínica e Semiocapitalismo). Adultos ficam emburrecidas com isso. Crianças não chegam a ficar emburrecidas, elas são pegas por patologias terríveis antes disso. A língua, o pensamento, a libido, tudo isso funciona a contento quando as palavras são aprendidas com a mãe. Se as palavras são aprendidas com a máquina, elas não são aprendidas. Uma linguagem só com símbolos não é uma linguagem. Não à toa os casos diagnosticados como “autismo” crescem. Parece haver uma epidemia de autismo. Mas basta se tirar o celular da criança e ela volta ao médico e, então, o diagnóstico, milagrosamente, é revertido. Quem já não viu isso?
Mas há um outro problema nisso tudo: no Brasil demos cobertura para o avanço dos cursos a distância. Há muitos professores que vão para a sala de aula sem nunca, eles próprios, terem frequentado a sala de aula em um nível mais alto que o de seus alunos. Tirar o celular da criança talvez seja fácil. Tirar a sala de aula do celular, fazendo os grandes conglomerados do ensino fajuto perder dinheiro, será bem mais difícil. Sem essa segunda parte da tarefa, a primeira torna-se um tanto estranha, meio que inócua.
Os grandes conglomerados de ensino, todos eles já no interior do capitalismo financeiro, vão gritar. Eles estão quietos sobre a questão do celular. Mas, não vão ficar assim bonzinhos. Logo começarão uma campanha dizendo que a história do celular em sala de aula “não é bem assim”. Eles sabem que a minha pergunta aparecerá na cabeça de muitas pessoas: se o celular não pode, então por que pode o professor que foi formado por celular? Ora, assim o celular é apenas uma questão de toxidade para a criança? Se é assim, vamos só regrar o uso. Em nome da liberdade, cada escola irá controlar um pouco o celular, liberá-lo para a “pesquisa” e, enfim, com o tempo, ele estará de volta, talvez implantado no ânus ou cérebro de cada um. Nessa hora, já não haverá diferença.
Paulo Ghiraldelli
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Tirar o celular da escola é comprar briga com o pessoal da jogatina e do lixo das redes sociais.
Excelente matéria professor. É peixe grande, mas é necessário.
Realidade assustadora pois o “monstro” ( financeiro)é grande demais……
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