O que homem sabe da mulher? O que a mulher sabe do homem? Creio que tudo. Talvez nada. Pois se há uma diferença que faz diferença é o prazer sexual. E este, o prazer sexual, parece que provoca um saber que pode ser compartilhado entre homens com homens, e entre mulheres com mulheres. No limite, o gozo do masculino pertence ao masculino e o feminino ao feminino.
Posso trocar de gênero e de sexo, mas, uma vez trocado, estarei gozando na condição de meu ex-oposto, e terei depois, voltando à condição inicial, talvez apenas uma vaga ideia do que ocorreu. Talvez apenas uma ficção. Admitir o contrário seria admitir uma falsa transformação.
Essa pergunta remete ao mito de Tirésias. Conta-se que Zeus e Hera discutiam sobre o prazer do homem e da mulher. Zeus falava que era mais intenso nas mulheres, menos intenso nos homens. Com isso, queria convencer Hera, sua esposa-irmã, que ele tinha lá alguma justificativa para dar escapadelas do Olimpo e ir namorar mortais, de preferência bem jovens. Ele precisava compensar em quantidade aquilo que lhe faltava em qualidade. Hera não gostou muito dessa conversa. Chamaram Tirésias, um homem que, por uma maldição quando matou uma cobra fêmea que estava acasalando, havia vivido sete anos como mulher. Não se sabe se por medo de Zeus ou se realmente acreditou saber algo sobre o assunto, Tirésias confirmou o que Zeus afirmava. Hera ficou enraivecida e o fez cego. Ele se tornou um vidente cego.
O mito não resolve o problema do prazer, se o do homem e o da mulher se assemelham. Os gregos preferiram manter o enigma como enigma. Os gregos eram sábios.
Nós modernos não cultivamos essa sabedoria, e inventamos uma série de narrativas, da fisiologia e da psicanálise ao estudos de sexualidade e neurobiologia, para tentar resolver o enigma. Pusemos o ato sexual em questão, e queremos de toda maneira dizer o que é o prazer. Mas o que podemos falar do prazer? O gozo é transmissível em palavras por um discurso comparativo? Apagamos diferenças individuais por meio da classificação de masculino e feminino segundo a função de órgãos sexuais desenvolvidos. Mantemos o binarismo. É nossa redução máxima. Mas, não temos como ultrapassar o enigma mais do que os gregos fizeram.
Em O prazer censurado – clitóris e pensamento (UBU, 2024), a filósofa francesa Catherine Malabou encontra no clitóris o local par excellence de prazer feminino. A penetração seria mais própria do sexo a dois. O clitóris traria o conceito de sexo independente e, portanto, algo como uma espécie de órgão feminino do prazer. Assim, ela avança em textos filosóficos, psicanalíticos e literários para concluir o que já diz de início: o esquecimento do clitóris é a regra. Quer se saber pouco dele, pois o que se desejou sempre foi escapar de fazer emergir de público o saber sobre o prazer feminino, o local do prazer feminino.
O livro não é ruim de ler. Mas ele parece envolver-se em paradoxo: quanto mais ele fala do clitóris, mais a narrativa parece pressupor aquilo que, em princípio, Malabou estaria negando, que o prazer da mulher não é um prazer qualquer, mas aquela próprio da mulher. Não do homem. No entanto, ao localizar o prazer feminino no clitóris, e denunciar muitos autores – em especial Freud – pela popularização da tese do pênis atrofiado, mais o órgão feminino se torna um pequeno pênis. A narrativa de Malabou parece não perceber que essa localização do prazer da mulher é como que uma cópia do que a narrativa masculina popular fala de seu prazer. A narrativa masculina do prazer masculino tem como herói o pênis, e não raro chega até a dizer que há um local de maior prazer, que seria abaixo da glande. A narrativa feminina popular (pelo menos até pouco tempo) dispensa a genitalização estreita, prefere colocar o prazer distribuído pelo corpo e com grande participação psicológica. A francesa traz o prazer para o clitóris, localiza em excesso, e às vezes o texto parece estar tratando do prazer feminino como um equivalente bem semelhante ao que a narrativa masculina diz do prazer masculino. Nisso, o livro perde um pouco seu charme, cria-se um tédio, mesmo em um livro curto.
Podemos aceitar que as mulheres tenham um órgão de prazer tão independente quanto o que os homens acreditam que possuem. Isso pode ser um ganho para a mulher. É algo que vem no contexto do “meu corpo minhas regras”, ou seja, em um domínio maior da mulher sobre si mesma. Todavia, não seria isso dar com uma mão e tirar com a outra? Se as mulheres possuem uma narrativa que lhes diz que elas possuem um órgão de prazer, que ele é responsável pelo gozo maior ou pelo gozo tout court, podemos estar caminhando no sentido da liberdade individual, na esteira do que se pediu no Maio de 68. Mas, efetivamente, quanto ao saber a respeito do gozo, há alguma acréscimo? Homens continuaram gozando, de um lado, mulheres, de outro, e as trocas sobre esse gozos estarão tão limitadas quanto antes. Poderá haver mais informação. Haverá talvez conversas menos fantasiosas em relação aos gêneros. Mas, haverá mais saber? E se há mais saber, isso melhora o gozo? Não é o desconhecido que caracteriza o erótico, em oposição ao abertamente exposto que governa o pornográfico? E não é o erótico o proprietário do maior prazer? Não é o prazer, afinal, um elemento retirado da labuta da imaginação?
Creio que Tirésias enganou Zeus e Hera. Ele não sabia nada de nada. Quando gozou no corpo do homem, era homem, quando gozou no corpo de mulher, era mulher. Isso, supondo que gozou! Nas trocas, tudo foi trocado. Não podia ser de outra maneira. O clitóris não tem fala própria. Nossa linguagem fala o que elem clitóris, pensa querer ou poder falar.
Paulo Ghiraldelli
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