Vera Iaconelli diz que Tirésias foi cegado por Hera por revelar o segredo do prazer feminino. Nem de longe os mitos que envolvem Tirésias autorizam essa interpretação. Tirésias aparece em várias passagens da mitologia grega. Naquela em que ele é cegado, ele não revelou segredo sobre a sexualidade, ele apenas contrariou Hera, afirmando o que Zeus queria ouvir, que era a sua própria opinião.
Zeus vivia saindo com mortais. Sabemos da (má) fama dele. Garotos belos e garotas belas não ficavam impunes diante da voracidade sexual de Zeus, quando ele resolvia descer do Olimpo para averiguar de perto os mortais. Hera falou disso com Zeus, pondo objeções. Zeus justificou por meio do que ainda, entre nós, é senso comum: para se satisfazer o homem necessitaria de copular mais que a mulher, pois o orgasmo masculino é pontual, menos forte, enquanto a mulher teria um orgasmo menos pontual, mais intenso, mais duradouro. Assim, a mulher não precisaria voltar a procurar parceria tão rapidamente quanto o homem. Hera achou uma tal justificativa conveniente demais para o próprio Zeus. Não engoliu. Como Tirésias havia vivido sete anos como mulher, por conta de uma transformação vinda de um encanto, resolveram consultá-lo sobre o prazer do homem e da mulher. Tirésias confirmou a interpretação de Zeus. Claro que Hera achou que Tirésias estava de comum acordo com Zeus, e então o cegou. Com efeito, o acordo secreto ou simplesmente tácito entre Zeus e Tirésias não é algo que o leitor da mitologia pode descartar, pois ao final Zeus acabou transformando o cego em um tipo de profeta. Pagou o acordo!
Acreditar que essa passagem mitológica revela algo da sexualidade da mulher é estranho. As feministas tenderiam a dizer o contrário. Zeus deu uma desculpa esfarrapada e Tirésias participou da soberania do mundo masculino para confirmar o chefe do Olimpo. Creio que feministas lendo essa parte da mitologia tenderiam a dizer: Mansplaining. Se não foi de fato, ao menos permaneceu em tentativa. A reação de Hera acabou com a festa: que fique cego o macho que, já não sendo mais mulher, veio com esse papo de autorizar Zeus a fazer uma lambança orgiástica com a meninada no sopé do Olimpo.
Mas, por qual razão Iaconelli preferiu ler esse mito de modo, digamos, inusual? Creio que ela assumiu uma premissa apressadamente. Qual? Cito a Vera Iaconelli: “A sexualidade humana é enigmática para todo e qualquer sujeito que lida com seu corpo e com seu desejo.” (Folha, 28/07/2025). O que significa “insondável”? O insondável é o que não se pode sondar, não se pode perscrutar, não se pode investigar. Ora, a sexualidade não pode ser investigada? É algo de tal ordem enigmática que não cabe entendimento, nem mesmo tentativa de sondagem e entendimento? Nenhum mistério é tão misterioso que não possa ser investigado. Nada é tão enigmático que não ganhe narrativas explicativas válidas. Talvez não tenhamos capacidade de chegar a uma narrativa única e válida para várias audiências durante muito tempo. Todavia, cada um de nós vive sua sexualidade e acaba encontrando narrativas que a descrevem. A frase de Iaconelli que fala das razões pelas quais a sexualidade é insondável é de difícil aceitação. Eis aqui a frase: “Sejamos homens, mulheres ou outros, ela [a sexualidade] é insondável porque as experiências e fantasias que nos moldam funcionam como uma digital, oferecendo a cada um seu próprio cine privé.” Iaconelli se desmente na própria frase. Se as experiências e fantasias nos moldam no caso da sexualidade, então pronto: eis aí o caminho da investigação. Sondamos a sexualidade na medida em que sondamos nossa imaginação. E se nossa imaginação cabe em um tipo de cine privé, mesmo que ele seja próprio de cada indivíduo, ele é perfeitamente objeto de investigação.
De fenômenos gerais, tiramos leis. De fenômenos não gerais, podemos não ter leis, mas temos narrativas que nos contam sobre eles. Sabemos muito bem fazer romance, filmes, contos, poesias que nos dão mapas da sexualidade. Essas narrativas podem não ser consideradas científicas por pessoas como Freud, que era médico e exigia um certo lastro empírico vindo de metodologia específica para cada narrativa que publicava. Todavia, quando Freud disse que ele não havia chegado a encontrar algo a ser dito de melhor elaborado sobre a sexualidade feminina, ele jamais quis dizer que sabia tudo sobre a sexualidade masculina. Ele deixou ambos os campos em aberto. Freud não teve a sorte de Tirésias de poder apresentar um documento que lhe garantisse, após sete anos como mulher, falar de como é tal sexualidade feminina em comparação com a masculina. Ele se sentia mais confortável ao falar de uma sexualidade que era a masculina, que é aquela que ele acreditava ter vivido. O Freud adepto de um machismo capaz de manchar sua reputação intelectual não é uma boa tese. Nunca foi. Continua funcionando como desculpa para não levá-lo a sério em sua genialidade.
Em dezenas de textos, Freud deixou claro que ele vinha caminhando, linha por linha, como um homem de relatórios. Fazia relatórios. Tentava hipóteses. Testava hipóteses. Tomava novos caminhos heurísticos e os explicitava. Em termos textuais, Freud foi um gigante da honestidade intelectual. Quando ele se viu sabendo tão pouco sobre a mulher, após tantos anos investigando, ele não titubeou em confessar. Mas várias vezes ele deixou indicado que a literatura poderia dizer mais que ele, poderia sondar com maior sorte.
Freud foi o homem que conferiu ao corpo, ao menos em algumas passagens, a condição de ser o próprio Eu. Essa sua pista poderia ser seguida por aqueles que querem tomar a sexualidade, seja ela ligada a que gênero for, como um caminho heurístico fantástico. Nesse caso, teríamos de partir da ideia de que o corpo é algo relativamente diferente do soma.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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A sexualidade só é um enigma para as minorias como os grupos lgbt! Aos demais comuns mortais a sexualidade é uma prazerosa descoberta do próprio corpo…
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