Não cabe ao escritor somente fazer o livro. Ele deve saber criar o marketing do seu texto. Giovana Madalosso fez a tarefa de casa. Escreveu um romance e em seguida partiu para o “agitprop”. Anunciou que um dos capítulos do seu romance é de uma cena de masturbação feminina, a famigerada siririca.
Ela conta que teve muito prazer em escrever esse capítulo. Quem ainda não leu, e talvez nem vá ler, já pode imaginar a Giovana tentando digitar com uma só mão. Nesses casos, aconselha-se o escritor a fazer o texto com caneta ou lápis. Melhor caneta mesmo, assim não se fica com a tentação de apagar. Errou, então é só riscar com a mesma mão que escreve enquanto a outra permanece em fricção. E não venha dizer que não tem coordenação. Há cursos para isso dado por russas. Não! Não é curso de coordenação, é de masturbação mesmo: mulheres que atuam sobre homens e mulheres.
Creio que existe mulher ou homem que irá sentir prazer com esse marketing, imaginando a luxúria da Giovana ao correr os dedos pela zona do agrião, como a denominava Ronald Golias, ou exuberante floresta tropical, como esse pedaço de corpo se tornou conhecido após a Playboy da Claudia Ohana! Hoje em dia, resta apenas uma região árida, distopia dos que dizem que a COP30 não vai proporcionar a mata em pé!
Pelo que entendi, na conta da Giovana, se o prazer diante da vulva em perturbação ocorrer em homens, ela terá falhado. Pois a reclamação dela e que tais cenas são raras na literatura e, se ocorrem, são para o deleite masculino. Mulheres que siriricam são denunciadas por Giovana por não se dedicarem a outra coisa senão ao espetáculo para o público masculino. Não sei! Tenho lá minhas dúvidas sobre isso, nos tempos atuais. Aliás, realmente não sei se há mesmo diferença entre as provocações sentidas pelo homem e pela mulher diante de uma batalha entre falanges e o filósofo pré-socrático Clitóris.
Quando o homem olha é objetificação. Quando a mulher olha é amor. Ou já invertemos isso? Perguntas sobre o que sente a mulher e o homem, eis aí uma missão para Tirésias, o único que foi trans e destrans na Antiguidade, e que realmente foi encostado na parede por Zeus e Hera em torno da fatal pergunta sobre o prazer feminino e masculino. Tirésias sabia das coisas. Mas, especificamente, sobre a pós-arte da poetisa Safo, ele nunca se manifestou – que eu saiba!
Todavia, para além do marketing, o que há de importante no texto de Giovana? Bom, ela diz o que hoje, após tantos estudos sobre linguagem, já se tornou um quase senso comum na academia: não possuir uma palavra para descrever certas situações ou sentimentos pode revelar uma ausência dessas situações ou sentimentos em dado povo. Giovana disse que andou procurando conversar com estrangeiras sobre uma palavra que pudesse ser equivalente à siririca. Segundo ela, titubearam e não lhe trouxeram nada na ponta dos dedos. Nem na ponta da língua. A nossa palavra, de acordo com ela, pode ter vindo do mundo indígena, e isso revelaria uma certa tranquilidade da brasileira nativa sobre seu corpo. Diriam alguns: ainda não esmagada pelo patriarcado, pelo capitalismo, pelo tecnoturbomachofascismo etc. Ora, talvez não seja assim! Pode ser que a indígena apenas registrou uma prática para a qual se deslocou, diante do que depois se tornou um chiste do folclore: o indígena tinha membro pouco avantajado, raramente entumecido e de apetite escasso.
Não sei o que antropólogas dizem, ao estudarem as tribos, a respeito do membro corporal destinado ao coito. Sei apenas que Caramuru deve ter contado vantagem na volta às terras europeias, uma vez que não apenas uma, mas duas indígenas (naquela época, ainda índias) nadaram até se afogarem, para tentar acompanhar o seu navio. Paraguaçu e Moema poderiam ter voltado para a praia e simplesmente se dedicado à siririca (ou acariciado a periquita ou procurado Nemo – há mais expressões na linguagem para a siririca, não é?). Mas resolveram contrariar Giovana Madalosso. Morreram mesmo. De amor.
Caramuru foi o nome dado pelos indígenas ao Diogo Álvares Correia, um náufrago que fez filho em toda uma tribo e nunca pagou pensão, fugiu para Portugal. O nome tem a ver com fogo. Talvez por ter sido achado nas águas das moreias, que costumam queimar. Outros interpretaram que era por conta de ter uma espingarda, daí a ideia do fogo que poderia sair pelo cano da arma. Tive uma professora que preferiu contar para nós, simples crianças, que Caramuru era na verdade a espingarda mesmo, que os índios chamavam de “pau de fogo”. Ela contava a história e insistia em dizer que Moema e Paraguaçu morreram em busca do pau de fogo. Fazer escola primária no passado não era para amadores!
Mas, voltando à teoria da Madalosso, é mesmo muito significativo que tenhamos a palavra siririca. Dizem que os povos anglófonos não sentem saudades como nós, uma vez que “I miss you” não se refere ao nosso sentimento de querer alguém que foi embora. Por mais poesias que se faça e por mais literatura e filmes que se produza jamais saberemos sobre isso verdadeiramente. O filósofo norte-americano Quine nos ensinou as teses da “inescrutabilidade da referência” e a “indeterminabilidade da tradução”. Heim? Não se espante com os nomes, coloquei assim de propósito. Ou seja: não é possível investigar qual é mesmo uma referência de uma palavra, nem é possível traduzir uma língua para outra com a precisão que acreditamos existir quando vemos nossos dicionários. O também estadunidense Donald Davidson completou que o que chamamos de tradução é apenas o uso do “princípio de caridade”. Somos caridosos e atribuímos ao outro, de uma cultura diferente, de língua diferente, uma vida em uma mesma disposição das coisas no mundo e uma mesma racionalidade básica, e então vamos aproximando os enunciados de uma língua com a outra, tendo como pano de fundo os comportamentos dos falantes. Sendo assim, acabamos por acreditar que há práticas comuns, que os significados são os mesmos, que sentimos as mesmas coisas e mudamos apenas as palavras, os rótulos. Trata-se de fé em nosso procedimento de construir pontes entre línguas diferentes. Mas, sempre podemos desconfiar dessa nossa arte. De vez em quando podemos pensar que algumas mulheres de alguns lugares determinados são mais sortudas que outras ao se relacionarem com seus corpos, e que a presença de uma palavra de difícil equivalência entre línguas diferentes seria o índice de tal sorte.
É mais fácil dizer que somos nós os sortudos, não os outros povos. Por que as brasileiras podem se orgulhar de possuírem a palavra siririca? Por que fomos escolhidos para termos mais chances de prazer? Economistas com noções eróticas diriam que isso explica nossos juros altos, os maiores do mundo. Seria um castigo por ficarmos devotos de Onã, um personagem bíblico que ficava jogando porra no chão ao invés de usá-la na vagina da cunhada, como seria o desejo do Senhor! Bom, a Turquia tem juros mais altos e por lá as mulheres apenas se masturbam, não batem siririca! Devem gozar, mas não gozam com siririca, um gozo verdadeiramente nativo, indígena, brasileiro! E afinal, para completar, na Turquia o tal de Onã nem aparece, eles lá não prestigiam muito a Bíblia. Essa é a pior explicação que poderíamos dar, mas, enfim, esse assunto não favorece boas explicações!
Dizem alguns que o princípio de caridade, quando se trata de notar práticas sexuais e palavras, é mais fácil de ser aplicado. Fala-se por aí: a linguagem do sexo é universal. Não é. Nenhuma linguagem é. A do sexo, menos ainda.
Paulo Ghiraldeli.
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Vim direto do Tik Tok para ler esse artigo.
Adorei o texto! Bem humorado, mas, ao mesmo tempo, trata de uma questão séria, que é a caracterização da linguagem e produção das línguas. A linguagem talvez seja uma capacidade pré-existente, biologicamente e em um tipo de semiótica elementar, em todo organismo vivo, na medida em que ela auxilia na relação de um organismo com seu mundo e sua sociedade a partir de uma rede de significados. Porém, somente o ser humano é capaz de usar de símbolos para criar línguas e se comunicar (ao menos por enquanto); línguas que carregam em si uma cultura e uma historicidade próprias, por serem produtos de determinadas sociedades em determinado período. Por isso é importante aprender conhecendo também as histórias relacionadas à produção de uma determinada língua, bem como a origem de suas expressões idiomáticas. Mesmo entre Brasil e Portugal, “sexo” e “sexo” não são a mesma coisa, e devo pensar que isso tem menos a ver com gramática e mais com abertura bucal, ritmo respiratório e o modo de mexer a língua (trocadilho inevitável).
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