Pular para o conteúdo

MAIS NESCAU MENOS “TODES”?

PERGUNTA SOBRE LINGUAGEM NEUTRA.

Renato Andreão, via e-mail: “Bom dia! É possível se autodenominar marxista e utilizar o vocabulário identitário oriundo de forças capitalistas? Ontem uma pedagoga numa assembleia local já pegou no microfone falando TODES e, na sequência, se autodeclarou marxista. Renato. Serra/ES”

Renato Andreão Bom dia! É possível se autodenominar marxista e utilizar o vocabulário identitário oriundo de forças capitalistas? Ontem uma pedagoga numa assembleia local já pegou no microfone falando TODES e, na sequência, se autodeclarou marxista. Renato Serra/ES

Renato, não há antagonismo em ser marxista e querer usar linguagem neutra, como também não há obrigatoriedade de, sendo marxista, usar linguagem neutra. Nem é prerrogativa de quem usa linguagem neutra ser marxista. OK? Entendido isso, vamos ao problema. Não são “forças capitalistas” que mudam a linguagem. Somos todos nós. Falávamos “vós mercê”, falamos agora “você”. Mudamos. A sociedade de mercado empurrou a mudança? Sim. Fez a informalidade ganhar espaço. O capitalismo nos fez mudar? Sim, afinal, ele trouxe a sociedade de mercado e fez com que a gente se comunicasse mais. Mas, daí dizer que as mudanças de uma língua são fruto do capitalismo, é dar um salto que força a barra.

Veja! Nada impede que possamos ir mudando nosso vocabulário para integrar minorias sociológicas que, afinal, podem virar maiorias numérica logo. Pode haver uma maior diversidade de gêneros no futuro. Podemos até, inclusive, sair do binarismo atual e um dia esqueceremos identidades de gênero e sexuais. Agora, atenção: isso tudo é como a história vai se fazendo. A mudança gramatical, a mudança da língua (que é parte da linguagem), é mais complexa que a simples utilização e se desdobramento diário. Tem uma parte formal da língua (a língua como a nossa, ora e escrita, com gramática etc.) que precisa ser respeitada na escola, na documentação oficial, nos concursos, na vida pública mais oficial etc. Sem esse cuidado, a sociedade perde suas regras e atropela sua própria cultura.

A própria sociedade, no entanto, ensina nas escolas as habilidades dos poetas: eles podem e até devem criar palavras e expressões inexistentes. Mas, para chegar a mudar a língua oficial, tudo é mais complicado. Claro que podemos experimentar algumas ousadias subversivas. Pode-se falar a linguagem neutra em alguns lugares. Podemos querer promover a subversão. Mas, é necessário ver se isso é subversão ou apenas um modo de se tornar antipático e novidadeiro demais, atraindo antes ódio que adesão. Tudo depende do bom senso.

Começar a falar “todes” pode ser algo estranho, pois, afinal, e depois que se inicia um discurso com “todes”, como ficam as concordâncias na sequência do discurso? Por exemplo: posso começar a dizer num discurso: “senhoras, senhores”. Depois, no resto do discurso, uso a concordância para a primeira pessoa do plural, “nós”. Tudo bem. Deu certo.  Falamos “nós todos”, e não usamos “nós todas”. Usamos “nós todas” em um grupo só de mulheres. Se uso “nós todes”, pode soar não como subversão, não como alerta, não como militância em favor de mudanças linguísticas que impliquem atos de respeito, mas pode soar apenas como idiossincrasia, como uma forma de forçar a barra. Caso pareça que se está forçando a barra, ao invés de integrar minorias, o efeito será deixar a maior parte das pessoas ali com raiva do pedantismo de quem falou “nós todes”. Não raro, a linguagem neutra tem sido usada de maneira descuidada, com militantes rançosos.

Da minha parte, uso “todes” sempre para brincadeira. Creio que a brincadeira permite experimentar, permite ver no futuro com qual opção ficaremos, sem criar antipatias desnecessárias. Ser antipático é uma arte. Nem todos sabem ser antipáticos com inteligência para, sendo antipáticos, se tornarem simpáticos.

Paulo Ghiraldelli


Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

2 comentários em “MAIS NESCAU MENOS “TODES”?”

Não é possível comentar.

Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading