Pular para o conteúdo

O QUE É O SEXO?

“Sexo”: do que estamos falando quando pronunciamos essa palavra? Não raro, o assunto é o “ato sexual”. Pois bem, o que é o ato sexual?

O primeiro volume da trilogia das Esferas, de Peter Sloterdijk, é uma espécie de fenomenologia da intimidade. Assim dizendo, pode-se pensar que se trata de um livro que fala do ato sexual. Ao final do livro, Sloterdijk explica por qual razão o sexo não se apresenta como uma figura importante do texto. O encontro sexual humano depende da produção da intimidade. Trata-se de um subproduto da intimidade, e não o herói principal da trama antropológica. Sem a intimidade enquanto um campo efetivo e simbólico gerado pelos humanos, o encontro para o ato sexual poderia ser descrito como um encontro a mais, como o choque de dois corpos no pugilismo.

Radicalizando a ideia de Sloterdijk, eu poderia dizer que o ato sexual não existe. Sim, eu sei que alguém já disse isso. Mas o que digo aqui é diferente do que já foi dito.

Quando falamos do ato sexual, deveríamos nos lembrar que estamos falando de tudo, menos no que acreditamos estar falando. Quando mencionamos “sexo”, não é o sexo que está efetivamente presente, mas sim a imaginação. A fantasia produz o sexo. O desejo de poder produz o sexo. O campo da intimidade em ligação com o poder e a fantasia, regados ambos pela capacidade energética dos corpos e pela nossa condição de seres endorfinados, é que produz o sexo. O sexo pelo sexo não existe. O ato sexual só é possível por tudo aquilo que, em geral, não ligamos ao sexo.

O dito amor erótico, em diferenciação ao amor fraternal e ao amor de amizade, é o amor que se realiza em sexo. Mas falamos dessa maneira apenas para exercer a nossa capacidade semântica de síntese. “Sexo” é síntese. É síntese na fala e também na atividade corporal. Por isso mesmo o amor de casamento, dizemos, é “consumado” no ato sexual. Fora do campo sintético, quando temos de tomar o sexo na tarefa de entendê-lo, e também realizá-lo, saímos dele e vagamos por uma série de noções que, em princípio, estão distantes. Só aí começamos a perceber o que é sexo. Ele é ponto de chegada, mesmo tendo se tornado, em vários encontros atuais do namoro na sociedade ocidental, ponto de partida.

O prazer sexual é uma forma bastante estranha de prazer. É um prazer que se faz pelo poder. O exercício de poder é amplo, se realiza de mil e uma maneiras, mas em sua configuração talvez máxima, ele se faz pelo prazer sexual. Pois no sexo perdemos todo o controle sobre aquilo que achamos que é o nosso maior controlador, o eu, e ainda assim, na perda de controle e de poder, exercemos o máximo poder. Ou melhor dizendo: é exatamente pela perda de poder que o poder se realiza. Gozamos quando o autocontrole se esvai, sendo que o autocontrole é uma expressão máxima de poder. Temos poder quando podemos perdê-lo. No gozo, acreditamos que a parceira ou o parceiro é nosso, está plenamente sobre o nosso domínio, e daí surgem as variações do sexo, ou seja, os serviços do sexo para cada um de nós.

Caso o gozo seja intensificado pelo gozo do outro, ambos exercem poder e, então, sabem que fizeram sexo. A pergunta “foi bom para você?” pode até ser feita, mas sabemos a resposta antes. Ou deveríamos saber, a partir de certa idade. Há o amor. É o descontrole do autocontrole de ambos os parceiros. Por isso mesmo, o sexo se presta a ser o amor e dar vazão ao contrário do amor; ele se mostra como ódio e, não raro, se agrupa ao seu companheiro de viagem, a violência.

A violência se faz na imobilização do parceiro contra a sua deliberação, e então se exerce uma parcela de gozo. Como? Há o descontrole necessário ao gozo (que é o gozo) sem que o parceiro, no caso a vítima, possa se aproveitar desse momento de descontrole e reagir. O estupro é exatamente isso: o estuprador exerce o poder máximo que ocorre quando ele perde o controle de si mesmo, então exerce o poder de ficar à mercê da vítima, sendo que a vítima não tem como se aproveitar desse momento para matá-lo. Elementos exteriores: força física, arma, terceiros envolvidos etc. dão conta da vítima enquanto o estuprador goza. Nesse sentido, o poder de humilhar tem função nas guerras: estuprar a mulher (e na ausência dela o homem, o inimigo) para colocar a vítima em inércia mesmo diante do algoz que, no momento do gozo, estaria à mercê da vítima. O estupro não é um crime sexual, ele é um crime de violência exercida pelo poder. O terror que ele causa, a repugnância, é porque ele se tornou um ato simbólico que exprime quem é de fato o vencedor. O vencedor é aquele que pode se descontrolar, baixar a guarda, diante do inimigo. Mostrar-se capaz de estupro é dizer para a vítima: veja que eu posso ter prazer na minha total despreocupação. Ou mais corretamente: eu tenho prazer exatamente por despreocupação. Não estou mais em guerra o luta: você me dá prazer sem eu ter que me ater a você.

O gozo amoroso também tem essa faceta, o do domínio e do poder, mas não da violência. Como que a violência pode ficar separada do exercício do domínio e do poder? As fantasias estão aí para isso. Aí estão elas: as fantasias de que a mulher ou o homem podem reagir no ato sexual, podem não se deixar dominar, podem estar pensando em outro, podem cornear, ou tramar um assassinato etc. Em um plano nada patológico, homens e mulheres podem gostar de imaginar que, no ato do controle, não terão controle! Há a imaginação de situações de perda de controle ao mesmo momento em que se vê podendo ter o controle que seria máximo: o gozo é justamente o desfrutar de sensação de morte sem morrer ou ser ameaçado pela morte. Em alguma situações, a morte real ocorre. Nessas horas, todo tipo de psicólogo aparece para tentar explicar se havia amor ou ódio ocorrendo.

O próprio ato sexual é fonte de fantasia máxima por conta das diferenciações das parcerias. Como sei que o outro goza por poder, como eu gozo? Nunca estarei no corpo dele! Estamos então diante da pergunta clássica que criou uma celeuma entre Zeus e sua esposa-irmã Hera: quem goza de maneira mais plena, o homem ou a mulher? Sabe-se bem que Zeus dizia que era a mulher, justificando assim suas escapadelas para pegar jovens mortais: ele precisava gozar mais vezes, enquanto que Hera não, uma vez que seu gozo seria mais pleno. Boa desculpa, né? Na mitologia, a resposta ficou com Tirésias, que confirmou a hipótese de Zeus. Certamente ele mentiu. Pois quando foi homem gozou como homem e quando foi mulher gozou como mulher. Só os neurocientistas acham que é o cérebro que goza. Talvez neurocientista não goze.

Tudo que falei até aqui, mesmo que tenha tocado nos deuses, é sobre os humanos. Os pinguins – só para lembrar a morte de Sphen (*) – podem ser homossexuais, podem ter uma vida homossexual e fazer sexo homossexual. Podem exercer poder um sobre o outro na hora do sexo. Em tudo isso podem parecer humanos. O que não podem é fazer sexo diariamente, como nós podemos. Eles ainda estão presos ao destino da procriação, mesmo em um gozo que também pode ser visto como poder.

Professor Paulo Ghiraldelli

(*) Pinguim que morreu este mês de agosto, e que era símbolo da comunidade LGBT, uma vez que vivia com um parceiro, e em família, dado que adotaram filhos.


Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário em “O QUE É O SEXO?”

Não é possível comentar.

Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading