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Ninguém de esquerda pede “capitalismo ético”

Em entrevista posta em vídeo, a professora Marilena Chauí diz que “não há capitalismo ético”. A razão para tal é que “o capital explora o trabalho, se apropria do trabalho não pago, ou seja, a mais valia”. Assim, “por definição”, diz ela, “o capital não pode ser transformado em espaço ético”. E acrescenta: “o capitalismo reduz os trabalhadores ao mínimo de sua existência”. Então, “não se pode esperar que o capital possa ser o portador da ética”. (1)

Entrevista é sempre um problema. Sobressai a retórica, o desejo do impacto e, enfim, diante de um entrevistador pouco afeito ao exercício crítico, as coisas podem realmente ir por um rumo não desejável. Todavia, ainda que isso pese, há de se considerar que se trata da professora Marilena Chauí, que é sempre uma referência para estudantes.  Temo que essa referência, nesse específico trecho a que aludi, possa mais confundir que esclarecer os mais jovens.

Ninguém de boa cabeça, talvez nem mesmo o mais conservador dos proprietários dos meios de produção, diz que o capital é o espaço da ética. Quem diz, sinceramente, que o capitalismo é ético? Alguém pode ter associado ética corporativa ao capitalismo, o que é normal. Mas ética corporativa não é algo que se leve em consideração para se falar em ética, quando se está no âmbito da filosofia.

Colocamos uma disposição ética nas costas da sociedade, não do capitalismo. Isso faz sentido. Não faz muito sentido chamar a atenção das pessoas para dizer que é o capitalismo que é conclamado a ser ético e, então, não pode cumprir essa requisição.

A ética pergunta sobre o como viver. Os antigos respondiam essa questão atentando para a eudaimoia. Eu em grego é “feliz”, e daimon é “gênio”. A palavra eudaimonia remete ao bom gênio, à disposição feliz. Os medievais cristãos conduziram essa disposição para a beatitude, uma forma de se livrar de ansiedades e se sentir pleno. A vida com Deus remete a essa plenitude. Diferentemente, os modernos se dividiram entre uma filosofia do dever e uma filosofia do útil. Os filósofos do dever apelaram para a consciência: tenho de agir segundo uma consciência que sabe das coisas, mesmo que isso não me ponha em situação objetivamente de bem estar. Os filósofos do útil deram o contraponto: devo ser um hedonista, querer o prazer, mas só é correto assim pensar se o prazer é para o maior número de pessoas. Esse utilitarismo logo se disseminou como uma disposição moral que trabalha com a dor menor, o prejuízo menor, o dano menos danoso. Essa ética se fez exatamente na percepção de que o bom gênio e Deus haviam se retirado, deixando espaço para o império de um novo elemento: o dinheiro.

Todos querem o dinheiro, mas poucos o tem. Aliás,  quem o tem, na verdade é tido por ele. O dinheiro moderno quebrou hierarquias, mas estabeleceu novas que, sabemos, provoca danos. Nesse sentido, a ética que regra os modernos é negativa: ela vai contra o dinheiro. Faz-se necessário solicitar comportamentos que ponham a sociedade contra o capital, no sentido de levar a sério a busca do dano menor, pois quando deixamos de atuar, o fato é que o dinheiro atua, e ele não tem olhos senão para seu próprio crescimento. O dinheiro moderno não tem olhar ético porque faz parte de uma maquinaria, ele agencia um sujeito maquinal, e pode causar males terríveis. A ética utilitarista é o reconhecimento de que a sociedade moderna pode ser ética, ter uma ética, precisa de uma ética. É necessário ter ética justamente por conta da sociedade moderna ser uma sociedade capitalista. Temos aqui uma ética negativa. A ética se faz para cercear o dinheiro, desviá-lo, colocá-lo em um rumo que, pelo próprio capital, não favoreceria a dor menor. Faz-se isso na vida cotidiana, pessoal, faz-se isso no âmbito da atuação do estado, na vida social em geral – ao menos esse é o desejo dos que se colocam à esquerda no espectro político.

Exatamente por isso, não foi difícil para os utilitaristas britânicos se associarem ao socialismo. Nem foi difícil para os americanos criarem a filosofia do pragmatismo. Na América, os pragmatistas do começo do século XX namoraram com o comunismo. Com Stalin à frente da URSS, então se afastaram do comunismo, mas não se tornaram antimarxistas, e geraram um tipo de socialismo que fez história dentro do movimento dos trabalhadores americanos.

Marx caçoou dos utilitaristas, mas isso ocorreu em termos da interpretação da economia. Não em ética. O esforço de Marx era o de afastar suas análises do que ele considerava como sendo o âmbito ético-moral. Ele escreveu  O capital de modo que as pessoas se livrassem de narrativas carregadas de pressuposições morais. A narrativa da mais valia era exatamente isso: uma exposição sobre a máquina de exploração do trabalho como algo próprio do capital. Ao gosto do século XIX, ele buscou falar desse movimento histórico como quem falaria da natureza. No jargão atual, com menos positivismo, diríamos: ele quis uma narrativa que convencesse por conta de incluir poucas arestas, diminutas idiossincrasias, razoável objetividade.

Os utilitaristas que se voltaram para a ética, que se fizeram socialistas, não viam nenhum problema nisso. Eles queriam que a vida pudesse ser boa para o maior número de pessoas a despeito do dinheiro, a despeito do capitalismo.

Pessoas como Lênin, de início, jamais deram chance para o utilitarismo. Isso até o movimento revolucionário chegar ao poder. Após isso, Lênin não conseguiu simplesmente assumir que a filosofia  – a ética – havia se realizado na prática e que, então, toda decisão governamental estava acima do bem e do mal. Lênin fez opções utilitaristas o tempo todo, sempre pesando o mal menor. Mas, é claro, tinha de se autojustificar. Às vezes tapeava a si mesmo dizendo que estava legitimado pela História, que havia encontrado a verdade da filosofia em termos de realização política confirmada pelo vitória revolucionária. Mas, enfim, ninguém é de ferro. Alguns precisam de uma metanarrativa. Nós, atualmente, precisamos menos, ao menos era isso que nos dizia Lyotard, nos anos 1970.

Os utilitaristas e os pragmatistas notaram bem isso. Deixaram de ser comunistas só quando Stalin foi revelado ao mundo como aquele que promoveu julgamentos criminosos. Viraram trotskistas e, depois, “socialistas democráticos” – algo que perpassa o fio que vai de Eugene Debbs até Mamdani passando por Bernie Sanders e Ocasio-Cortez.

Assim, nos quadros contemporâneos, a observação da professora Marilena Chauí parece ficar no vácuo, não se descobre seu interlocutor. Volto a dizer: ninguém tem, seriamente, a ideia de fazer do capitalismo algum campo ético e muito menos imputar ao capital uma missão ética. Se pensássemos assim, entraríamos por um atavismo atroz.

Um exemplo pode clarear meu argumento. Pense na COP 30. O que foi proposto por Lula? A criação de um fundo para redirecionar o capital de modo que se possa arrumar dinheiro para a manutenção da floresta. Ora, isso não é a criação de um capitalismo ético. É uma invenção de engenharia econômico-financeira que visa colocar a mão humana como um desvio do caminho natural do capital. Deixando o capital por sua própria conta, ele jamais vai se voltar para querer acumular por meio da floresta em pé, ele vai pela floresta derrubada. Assim, a proposta de Lula é ética enquanto política, e não pede ou insinua um capitalismo ético. Lula disse bem ao discursar na abertura: banqueiro não dá nada para ninguém. Pode-se lidar com filantropia para um bocado de coisas, mas com algo do tamanho do problema climático, é necessário uma ética maior, mais aguerrida, com disposição macro, e isso é a política, se não toda, ao menos a política de esquerda.

Os críticos dessa atitude de Lula podem ser da direita emburrecida. Pondé escreveu que “a COP 30 do Lula é a imagem de um país a (sic!) deriva institucional: muita bravata, nenhuma infraestrutura, muita propaganda petista, quilos de leviandade. (…)” E continuou: “E pensar que toda essa patifaria conta com a anuência da maior parte da imprensa que lambe as botas do Lula, descaradamente. Fosse um presidente que não pertencesse a gangue, a imprensa teria descascado essa coisa ridícula que foi essa balada em Belém, com direito a incêndio (…). O Brasil nunca foi um país sério.” (Folha de S. Paulo, 30/11/2025). Ora, quem termina qualquer observação dizendo que nosso país não é sério não fez nenhuma crítica, apenas tentou se colocar de camisa amarela na rua gritando “fora Dilma”. Não pertence ao campo intelectual. É gritaria ressentida de classe média que pensa ter se escolarizado. Esse tipo é aquele que repete que temos que atentar para “a vida como ela é”, única frase de algum escritor que ele finge que leu.  

Mas pode haver crítica de esquerda. Alguns insistiriam, e poderiam então até se dizer inspirados em Chauí, que Lula se esqueceu da revolução socialista e se transformou em um reformista social democrata, ou apenas um mitigador do neoliberalismo. Mas, nesse caso,  a resposta  a essa crítica não é difícil de fazer. Basta lembrar que a dicotomia “revolução versus reforma” perdeu sua condição de narrativa capaz de entreter alguém. As pessoas todas se envolveram com o capitalismo na medida em que ele se tornou financeiro e entrou em simbiose com a algoritmização da infosfera. Tornamo-nos todos tão integrados nesse mundo que nossa luta política para sair dele se tornou muito difícil. É uma luta que sabe de seu horizonte talvez menos fantástico que o horizonte das lutas do passado. Não estamos do modo que estamos, ao contrário do que Fernando Haddad fala, por falta de imaginação, muito menos por carência de adrenalina revolucionária, mas simplesmente porque as teias desse capitalismo atual são de fato pegajosas. Capitalismo financeiro em simbiose com a infosfera, gerando o chamado capitalismo de plataforma, não é coisa para amadores!

Uma boa parte das pessoas que seguem Lula se dizem “de esquerda”. Mas não mais procuram se definir como “socialistas”, “comunistas”, “social democratas” etc. Quando usam o termo socialista, o fazem em um sentido amplo, sem dizer que buscam um caminho delimitado, já sabido, instruído por uma filosofia da história ou uma teoria da história. Isso ficou na obra de heróis da esquerda do passado. Essas subdivisões dentro da esquerda, antes tão importantes, ficaram secundárias, deixaram de ser necessárias. A ética dessas pessoas se tornou uma ética do útil, que dá espaço para, em economia, se pensar à esquerda. Todo mundo trabalha politicamente como o médico trabalha: fazemos o possível para a diminuição da dor de um número maior de pessoas, sempre pesando prós e contras. Ninguém está falando que o capitalismo pode ser ético ou não pode ser ético. E ninguém deve se achar menor por estar vivendo agora, nesses tempos, e não estar marchando de braços dados com Tchê na entrada de Havana.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro

(1) Ver: https://www.instagram.com/reel/DQ_1AMrkdIl/


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