Vera Iaconelli dedicou seu último artigo (Folha, 17/12/2024) à revelação de um segredo de Polichinelo: quem ama diz muito de si, e pode ser um momento de autoconhecimento. Quem diria o contrário? Ninguém. Amar implica em escolher. E em cada escolha, seja do que for, vamos desenhando preferências grandes, médias e pequenas, e eis que reconstruímos o que somos nos gestos que fazemos. Nem é preciso espelho para que notemos a silhueta que se forma. Não é necessário biógrafo para traçar o caminho deixado na grama. Esse é o mote do artigo, e se fosse por tal coisa o texto seria inócuo. Todavia, o texto, felizmente, diz mais que isso.
No interior do texto há o comentário sobre um filme “Limonov: the Ballad“, que ela conta que foi lançado na Europa. Não é interessante. Apenas um conjunto de peças de um mosaico que já foi produzido mil vezes, e melhor. Mas parece que Vera, sempre psicanalista, gostou. Os psicanalistas adoram tudo aquilo que é bizarro. Daí a dificuldade deles entenderem o trabalho diário, rotineiro, sem grandes peripécias, porém árduo. Ou o humano é paciente ou não é nada. A medicalização a todo custo se impõe. No meio desse prazer pessoal e profissional, Vera lança mão de Lacan. Segundo ela: “como já nos alertava Lacan, o desejo é algo que só se conhece a posteriori, e é entre o proferido e o realizado que descobrimos as escolhas reais que desenharam uma história.”. Se Lacan tivesse a concepção de Deleuze de desejo, eu até concordaria. O filósofo trata o desejo como uma espécie de força cósmica, extrahumana, mas que também perpassa os humanos. O desejo é força impulsiva e criativa, um parente próximo da positividade da “vontade de potência” de Nietzsche. Todavia, a concepção de desejo da psicanálise é a tradicional, que está lá, felizmente não psicologizado, no Eros platônico: deseja-se o que não se tem, ou seja, desejo é falta. Para Vera, o desejo tem a ver com fantasias, que ela diz que são formadas na infância. Assim, fica implícito no texto que o desejo visa, em grande medida, realizar fantasias. É nesse ponto que a psicanálise parece perder fôlego.
Por que realizar desejos que são norteados por fantasias? Ou seja, por que realizar fantasias?
A última coisa que alguém de bom senso, e talvez até o louco de pedra, pensa seriamente em fazer é realizar fantasias. Toda e qualquer fantasia pertence ao campo do que Platão chamou de sonho, de “pensamento bastardo”, ou seja, sem filiação paterna ou materna clara, e sua utilidade é fazer da vida um campo propício da imaginação. Com a imaginação, ficamos mais leves e, com partes dela, criamos o melhor na sociedade (infelizmente, às vezes, também o pior). Mas para que a fantasia não vá embora e possa ser uma verdadeira fonte de nutrição da imaginação, ela nunca deve se tornar um plano que visa se realizar. Muito menos deve se realizar. Fantasia posta na vida não chega a ser experiência, vira experimento. E este é próprio do laboratório, não da história. Uma vez posta para acontecer, a fantasia, que é da ordem da utopia, se perde na deterioração do pastiche. O resultado não é só a frustração, mas o fim da vida como o que vale a pena. Ninguém que conheço que tentou realizar fantasias gerou alguma coisa interessante para si mesmo. A vida vale a pena quando a alma não se apequena na realização de fantasias.
O personagem do filme da Vera é o “O russo Limonov é bandidinho vulgar, guerrilheiro impiedoso, fascista, escritor aclamado, amante que tenta o suicídio quando leva toco da mulher, corno convicto da esposa ninfomaníaca e drogadita, mendigo gay, prisioneiro realizado, aprendiz de iogue”. O conselho que se deveria dar ao diretor: não tente acreditar que você é o Almodóvar e pode lidar com isso, você não pode. O resultado disso, quase ao contrário do que Vera disse, não é “o prato cheio para psicanalistas”. É o prato vazio do tédio. A bizarrice de seres humanos, uma vez na ficção do cinema, precisam de Almodóvar ou de Tarantino. E tais diretores não estão no mundo para servirem a psicanalistas. Até pelo fato de que os psicanalistas, ao realmente quererem entender e explicar os personagens, os transformariam em casos prototípicos que já estão em manuais. Quando Freud estava nos seus últimos dias, ele escreveu Moisés e o monoteísmo. Em Derrida, um egípcio, uma homenagem do filósofo alemão ao filósofo francês, Peter Sloterdijk tem um capítulo sobre este texto de Freud. Ele comenta o quanto Freud não usou nesse texto o conceito principal da psicanálise, o de inconsciente. Seria uma correção de última hora de uma obra toda? Pode ser, sim, não por conta do conceito estar errado, mas por ter se tornado supérfluo diante de ‘deslocamentos’ que a narrativa expõe. Ao final da vida, em sua obra derradeira, Freud não quis psicanalisar ninguém. Talvez ele tenha percebido que o melhor dele eram suas histórias, as narrativas, e não as explicações.
A parafernália da psicanálise, as noções pré-conceituais às vezes boas para descrições mas péssimas para o conhecimento, são realmente úteis quando não apresentam histórias de Tarantino ou Almodóvar. Assim fazendo, também evitam de procurar mostrar as tentativas de personagens pastiches como o apresentado no filme que Vera parece que gostou. Ler Freud é um deleite, especialmente quando se tira dele aquela ansiedade de Marx, e talvez de todo homem de letras do século XIX, a que gerou a obsessão em chamar o que importa de “ciência” (o que gerou um bando de idiotas dizendo “não é ciência”). Ora, boas histórias não precisam se passar por ciência, muito menos conter em um só homem a síntese das fantasias reiteradas em tantas outras histórias.
E por fim, a palavra sobre o objetivo do texto: precisamos mesmo nos conhecer pelo amor? Não é suficiente só amar? Dizem que Lacan quis realizar todo tipo de fantasia sexual, e acabou só ferindo outros.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Agradeço pelo seu texto e seus ensinamentos. Para entender melhor, quais livros posso estar lendo para aprender e entender melhor? Não tenho nível universitário. Tenho nível técnico em Educador Social pelo Senac. Tenho muito em aprender, todavia peço essa orientação de leituras para melhor saber e colocar em prática no cotidiano. Acompanho o canal desde 2018. Obrigado pela atenção.
Anônimo, mande um e-mail para o professor ghiraldelli.filosofia@gmail.com.
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