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Capitalismo 4.0, a partir de fala do Cortella

Recentemente em uma entrevista a Chico Pinheiro, Mario Sérgio Cortella trouxe para o âmbito da convesa sobre a informação falsa ou precária das redes sociais dois exemplos, o do caixote e o da faca. Ele disse que antes, havia quem aparecesse nas praças das grandes cidades com seu caixote, subia nele e fazia pregações bíblicas ou vendia alguma coisa. Hoje em dia, cada um tem um caixote em baixo do braço. Um celular e, se quiser, um canal para a infosfera. Depois, ele deu o exemplo da faca: ele poderia cortar uma maça para o Chico Pinheiro com uma faca que porventura tivesse no bolso, mas também poderia tirar a maçã do entrevistador, roubá-la, ameaçando-o com a faca. Então concluiu: a tecnologia depende da intenção.

Alguns bolsonaristas já disseram coisas como: não é a arma que mata, é o homem que a segura, por isso, bobagem restringir armas. Sabemos que não vale pensar assim.

Cortella fez do problema da rede social ou mesmo da infosfera apenas uma questão de excesso de democracia. Com o exemplo do caixote, ele fez da infosfera mais uma mídia, então avolumada. Tivemos sinais de fumaça, telégrafo, telefone e, agora, internet portátil. Com o exemplo da faca, ele fez dos modelos avançados de IA um similar de um intrumento. Os dois exemplos não ajudam.

Ora, podemos lembrar que a infosfera gerada na Internet não é uma mídia a mais, exatamente por ela reformular a noção de tempo e espaço. A infosfera coloca muitos em vários lugares ao mesmo tempo, e em trocas em “tempo real”. Quem grita “fogo” no cinema pode causar um pisoteamento. Quem grita “fogo” na internet pode provocar uma guerra. E isso por uma razão de que toda a IA pode sustentar a ideia de que realmente há fogo, ou seja, uma guerra acontecendo. Já não distinguimos mais, no mundo imagético, o que efetivamente está ocorrendo. Isso mostra que, diferente da faca, que era instrumento, e diferente da Internet sem IA, que era ainda programável, estamos diante de algo que não é mais instrumento ou máquina, mas um tipo de aparato que cria uma espécie de grande autonomia em sua maneira de autotreinamento. Não estamos mais diante da automação, mas da automação da automação. Tanto é que a chamada “internet das coisas” já está funcionando. Inclusive funciona conosco dentro dela, pois nós somos peças, nós somos partes do algoritmo.

Essa automação da automação nos mostra que o modelo de sua criação não é o cérebro humano individual, mas aquilo que Marx chamou de General Intellect. O que criamos com a IA acoplada à Internet é a fábrica ampliada, o grande autômato que tinha como modelos o “olho do administrador” como algo a ser copiado, e não a função de cada cérebro e mãos de operários.

Mas, diante de tudo isso, Cortella ainda poderia querer falar em “intenção”. Tudo depende da intenção humana! Nesse caso, nossa pergunta é seguinte: intenção de quem? Quem opera esse novo aparato. Há algo como uma intenção? Bill Gates, o Pentágono ou engenheiros de programação com suas intenções podem ser mudados ou substituídos, em a intenção mudada? Ora, o problema todo é que talvez não exista intenção nesse mundo do capitalismo 4.0.

Uma intenção está ligada ao homem. Ela não era importante, mas se tornou uma base na cultura cristã. Afinal, no cristianismo peca-se por “atos, omissões e intenções”. Quem respira a cultura cristã dá muito valor para a intenção. Às vezes, naturaliza a intenção, ou a toma como elemento central de uma metafísica do Eu. Talvez o Cortella, em seu vínculo com o Paulo Freire, que foi fenomenólogo, tenha acabado por engolir acriticamente a intenção. Afinal, ela é o elemento chave da fenomenologia. Paulo Freire adorava dar peso para a intenção.

Mas a automação da automação não está ligada diretamente ao homem, e sim bem indiretamente. Quem determina as coisas da Internet = IA são as relações sociais chamada capital. O operador semiótico da infosfera é o capital. Ele quer só crescer, pois é valor em movimento, isto é, capital crescendo é capital, gera capitalismo. Capital parado é tesouro, não está mais no âmbito do capitalismo. Esse destino do capital de sempre crescer, ou seja, de fazer a “acumulação capitalista”, o faz operador semiótico que torna a infosfera ser o que ela é. O que é a infosfera?

A infosfera está em função de devolver aos usuários o que eles, caricaturizados como consumidores de produtos materiais, ideologia, gostos e modelos de hierarquias sociais, mostram para ela. Ela é um Espelho Mágico, similar ao da Rainha Má, a algoz de Branca de Neve: mostra para cada usuário aquilo que ele colocou lá com seu rastro. Devolve para cada usuário de uma plataforma apenas o que ele fez por meio de um caminho, que certamente é apenas algo parcial dele. O espelho mágico responde a cada um com a caricatura de cada um. Ele devolve a cada um sua cara de consumidor. Se o usuário buscou arma, pode ter seu rosto devolvido, logo em seguida, não como quem que comprar armas, mas como quem gosta de armas, quer ver mais armas, e também guerras e discursos de quem quer armas ou armar o mundo. O consumidor de armas desaparece diante de amante de armas, talvez violência. Se o jovem se convence de que ele é a caricatura, está feito o estrago. E não raro, todos nós nos convencemos, em alguma medida que somos a caricatura devolvida.

 A infosfera cresce por meio da proliferação do que a faz crescer. Quanto mais se pede para ver algo, mais ele aparece, mas como uma resposta que do âmbito do simulacro. Como o senso comum pede sempre muitas coisa parecidas, o mundo da internet devolvivo ao usuário é a parte dele do senso comum. Senso assim, a fofoca, a informação miraculosa, o preconceito, o sensacionalismo, as disposições maniqueístas tendem a dominar o que a infosfera cultiva. É a garantia de que algo vai gerar mais procura por já ser procurado, gerando assim o que é o preço da informação, a monetização de dados. Há mais renda de dinheiro se há mais do mesmo, que pode ser vendido para quem quer as informações para produzir mais do mesmo. Nesse sentido, não há intenção humana, mas diretrizes de quem escolhe o que é viral ou não, e a entidade que assim faz é o capital. Daí que o capitalismo 4.0 seja também a época do semiocapitalismo.

Particularmente, esse mais do mesmo povoa a vida da criança. Torna-a mais propícia ao comportamento narcísico. Mas um narcisismo sem Narciso, pois impede que se forme um eu estruturado para que se possa usar de fato o espelho da Internet como alguém capaz de dar respostas plurais para a pergunta “existe alguém mais bela do que eu?” Não à toa, diagnósticos de autismo estão proliferando, e ninguém sabe se são diagnósticos corretos.

Minha neta teve sintomas que pareciam autismo. Pedi para a minha filha tirar o celular. Logo após um tempo, desapareceram os tais sintomas. Não fiz milagre, apenas segui a intuição de que a mãe é insubstituível, o rosto da mãe, não o rosto do Espelho Mágico da Rainha Má.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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1 comentário em “Capitalismo 4.0, a partir de fala do Cortella”

  1. Conectado diariamente com os comentários do Professor. Todo dia várias lições do cotidiano através da análise filosófica da política nacional e internacional. Sou leitor dos livros do autor.

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