QUASE tudo por dinheiro, a maior parte, por poder!
MEU PAI conheceu o camelô. Vendia bugigangas estragadas na Praça da República. Maior parte dos camelôs são honestos. Mas aquele, meu Deus! Era o fim da picada. Enganava a população mesmo, 24 horas por dia! Tinha uma predileção mórbida por enganar. Quando passava poucas horas sem ludibriar alguém, começava a rir alto, de nervoso. Seu sorriso era um sorriso nervoso, um tique. Uma espécie de cicatriz da alma.
Meu pai era estudante na USP. Tinha um dinheirinho bem contado. Viu a chance de comprar uma peça de tecido inteira, pois o preço estava bom. Era o camelô de sorriso nervoso quem vendia. Comprou. Chegou em casa, abriu a peça e viu que o tecido, a partir de certo ponto, estava inteiro cheio de pequenos furinhos. Estava podre.
O camelô tinha um sorriso largo e grande, e quem sabia um pouco de psicologia podia notar que aquilo denotava sede de poder e dinheiro inauditos. Pegou de um amigo uma empresa que ele próprio dizia que não valia nada, o Baú da Felicidade. Veja só o nome! Com isso na mão, sua sede de enganação triplicou, e fez fortuna a partir daí. Como era o esquema? As pessoas pagavam um carnê para prêmios que raramente recebiam. Quando terminavam o carnê, trocavam tudo por mercadorias em uma “Loja do Baú”, só que esta loja só tinha material de quinta categoria. Não se fazia uma poupança, como era prometido pelo camelô, o que se fazia era uma troca injusta e de forma bandida.
Naquela época a população mais ingênua ainda não conhecia os pastores de igrejas caça-níquel. O camelô tinha a grande igreja! Ele era o deus do domingo. Suas “colegas de trabalho” eram as preparadoras das oferendas. O camelô-sorriso acoplou o Baú a uma tal de Telesena, e tudo isso era propagandeado para os mais ingênuos, como uma forma simples e fácil de fazer poupança. Ora, era apenas um incentivo ao jogo de azar, que sempre conquista as pessoas mais sugestionáveis.
Baú e Telesena foram os verdadeiros atores de um programa-lixo na TV, que durava o dia todo, segundo um monopólio de programação odioso, arrancado dos governos por meio da pior espécie de lambe-cu. Ali, nesse programa, a destilação de todo tipo de preconceito preenchia o domingo.
Aconteceu na Globo e, depois, o camelô fez sua própria TV. Nada se fazia nesse seu programa de TV que não fosse alguma espécie de jogo de apostas. Era uma educação contínua para a jogatina.
Como não podia deixar de acontecer, o camelô se tornou dono de banco. Seu banco cresceu e, claro, uma vez grande, deu o tombo nos clientes. Mais uma vez, então, o gaiato-sorriso enganou todos. Soltou na imprensa que havia ficado pobre. Botou o governo para salvar o banco. O governo (de esquerda!) se colocou ao seu dispor para salvar a coisa toda, e o camelô deu a volta por cima. Total jogo de cena.
Por fim, entre tantas porcarias que fez na vida, o camelô conseguiu vender para a cidade de São Paulo, por milhões, um terreno e um teatro que já eram da cidade. Vendeu à cidade um patrimônio que já era da cidade! Quando vi isso, lembrei da história do meu pai, do tecido furadinho.
Só para se ter uma ideia de quem era o sujeito: ele divorciou e, então, proporcionou via TV uma das cenas mais emblemáticas de mesquinhez que já ocorreu no planeta. À noite ele entrou na ex-casa para pegar quadros que haviam ficado com a ex-esposa. Sim, entrou para roubar, já que tinha a chave da casa!
Essa figura era tão nefasta que até mesmo a política de direita o rejeitou. Tentou ser governador, prefeito e presidente. Mas era fominha demais, e não conseguiu pessoas que o apoiassem nos partidos. Disso, o Brasil se livrou. Pois é! Nem sempre a política é o pior lugar do mundo!
Agora, o camelô vai marcar as horas da cidade de S. Paulo, a cidade que ele explorou. Interessante né? Vai ficar ali, com o seu sorriso-tique, marcando as horas. Talvez seja um tipo de maldição. Em vida, marcou as horas em que enganava, agora, na morte, é o ícone que mais se aproxima do dinheiro: o tempo. Quem sabe isso não é coisa do Demônio, o preço da alma.
Muitos querem elogiar o camelô, pois interessa a uma ideologia tacanha a imagem de que há o homem que “vem de baixo”, e “com trabalho e dedicação”, vence na vida! É importante trazer sob o rótulo de “trabalho e dedicação” a tarefa da enganação. Pois o capitalismo só foi o campo de empresas que eram empreendimentos em seu início. Em menos de dois séculos, se tornou um modo de produção completamente sem verdade. Vencer nada vida – eis aí algo que muita gente pensa que sabe o que é. Será que se sabe mesmo?
O refrão da música do camelô sempre disse tudo: “da vida não se leva nada, vamos sorrir e cantar”. Era uma sugestão para todos: o pouco que possuem, não guardem, “apliquem”, paguem o Baú! Se continuarem pobres, não fiquem tristes, os ricos também não levarão nada dessa vida. Os ricos realmente não levam nada, eles aproveitam tudo aqui mesmo. Aproveitam o que é público, o que não é deles.
Paulo Ghiraldelli
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Muito bom professor! A real faceta do personagem!
Em casa era chamado de Silvio Saco…
ninguém engolia… estou conhecendo agora muitas de suas facetas… me revoltou a infeliz ideia de vestir o Cristo Redentor, no Rio, com seu personagem
… affff!!!!
Perfeita análise
Parabéns, estava sentindo a falta de alguém que se preocupasse com a verdade.
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