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APESAR DE TUDO, PREFERIMOS ESTAR JUNTOS

A filosofia política antiga pergunta sobre como que, estando juntos, ainda assim nos separamos internamente promovendo desavenças catastróficas. A filosofia política moderna pergunta qual o melhor modo de vivermos juntos, se insistimos em ser cada vez mais separados. A filosofia política contemporânea pergunta como que ainda estamos juntos.

A primeira pergunta poder ser invocada por meio de Platão, a segunda através de Durkheim e a terceira inquieta Peter Sloterdijk.

Platão compartilhava com seus conterrâneos o apreço pelo seu mundo, o mundo grego, como sendo o campo da civilização em oposição ao que era não grego, os bárbaros. Platão admitia as guerras. Mas não conseguia compreender como que, entre os próprios gregos, em especial em uma única cidade, podia haver desavença fatal, capaz de fazer compatriotas matarem compatriotas. Por que havia a catástrofe interna da luta fratricida? Sua obra República tornou-se a grande tentativa de resolver esse dilema, criando a cidade justa, a cidade da paz. A ideia básica da cidade da paz era a de gerar um sistema justo, ajustado, isto é, sem fendas ou gaps entre grupos. Um sistema tripartite de classes bastante rígido colocaria todos os habitantes sob a condição de suas vocações: a de sábios, a de soldados e a de trabalhadores manuais. A justiça viria pela harmonia da complementariedade de tarefas entre esses três setores.

A idade moderna trouxe as grandes navegações, o comércio capitalista regrado pelo mercantilismo e a doutrina que, depois, se estruturou como a do liberalismo político e econômico. Nasceu daí o cultivo da ideia de indivíduo, o homem livre que se aventura, empreende e pensa pela própria razão. Ele é o indivíduo que deve ser respeitado em seu direito de propriedade, tanto física quanto espiritual. Mais tarde, o individualismo da doutrina liberal passou a ser visto como uma força desagregadora, capaz de comprometer a própria existência da sociedade. Durkheim leu Platão e tirou dele a ideia de complementariedade das atividades da cidade. Ele viu na complexidade da divisão moderna do trabalho não uma causa inexorável da guerra interna e, a partir daí, a anomia social. Isso é o que diziam os socialistas. Ao contrário dos socialistas, Durkheim defendia que a complexidade não era uma força centrífuga, mas, sim, uma força centrípeta, uma condição que proporcionava a união social. O que seria do médico sem o pedreiro e estes dois sem o cozinheiro? Os laços sociais iriam naturalmente se fortalecer à medida que cada sociedade viesse a adquirir as características modernas de complexidade profissional.

Ao final do século XX e agora, nos últimos vinte anos, Peter Sloterdijk tem redescrito a pergunta um tanto durkheimiana, o que faz com que exista a solidariedade? O que faz com que após duas guerras mundiais, e principalmente agora, após cinquenta anos de neoliberalismo, com o seu incentivo máximo ao individualismo, ainda assim estejamos juntos? O que nos dá essa sociedade que perdura? Poderíamos dar a mesma resposta de Durkheim? Claro que não! De maneira alguma, hoje, aceitaríamos com tranquilidade que a solidariedade mais forte é resultado da divisão social do trabalho. Sociedades altamente complexas entraram em luta fratricida. E o trabalho já não conta com a sua aura, agregadora ou desagregadora. Então, o que se pode falar para uma pista a respeito da investigação sobre a nossa vida de pessoas que ainda querem estar antes juntas que separadas?

A resposta de Sloterdijk vem, entre outros lugares, de uma passagem de Martin Buber que, observando crianças, fala em “instinto de relações”. Nessa observação, está implícito o pensamento de que as crianças não se socializam pela linguagem, elas desenvolvem a linguagem uma vez que surgem no mundo bastante envolvidas com a tarefa do companheirismo.

A resposta de Sloterdijk é profundamente antifreudiana. Na base da civilização não há Édipo ou o Totem. Muito menos Narciso. Em parte, Freud teria sido ludibriado pelo liberalismo e pela doutrina do individualismo como fato natural. O fato de aprendemos a nos referir a nós mesmos em primeira pessoa só tardiamente, talvez tenha confundido Freud e outros. Desde sempre, para Sloterdijk, baseado no antropólogo alemão Thomas Macho, somos frutos de um ‘lá’ e um ‘cá’, ou, digamos, de uma placenta e um feto enquanto uma unidade da duplicidade. E esse relacionamento físico, que também é um relacionamento com o corpo da mãe, segue um destino de espiritualização, criando uma psiquê antes mesmo do nascimento. Há um sujeito antes do sujeito. Quando nascemos, já estamos predispostos a trocar a sinestesia interior por complementos que expõem o nosso “instinto de relações”, muito antes da linguagem. A criança tem sua calmaria diante da voz da mãe, depois, uma facilidade de apreço pelo amigo imaginário. Olhando pela perspectiva da cultura, para além do desenvolvimento de cada pessoa, temos de notar o tempo dos daimons, do gênio, do anjo da guarda, dos guias que falam dentro das cabeças, e tudo isso aparece na literatura, nas artes e na filosofia. Isso sem contar todo o aparato de louvor ao duplo, em especial antes dos tempos modernos. Nascemos já duplos. E toda a cultura pré moderna regista os duplos. A modernidade, com vários gestos e, em especial, com a despedida da placenta, tomada pela medicina moderna como uma pedaço de carne que nada tem a ver com o bebê, criou a separação que nos impede de ir a uma “hermenêutica do umbigo”, para uma psicologia mais voltada para a ligação bebê-placenta-mãe.

Freud viu o homem como o animal que tem pai. Sloterdijk vê o homem como o animal que tem mãe. Ele não se cansa de repetir uma observação de Hegel, de que a mãe é o gênio da criança. Por mais dificuldade que tenha uma mãe, na maior parte das vezes ela funciona com o seu útero criando todas as sinestesias que geram alguém que desde muito cedo, antes do nascimento, vê formar o seu “instinto de relações”.

Muitos podem achar essa filosofia de Sloterdijk um tanto adocicada e demais otimista para os nossos tempos. Mas não se trata disso. A grandeza da filosofia política derivada de Sloterdijk é que ela enfrenta uma questão difícil, que outros descartam ou dão respostas rápidas segundo a teoria da catástrofe da moda. Ora, nós continuamos juntos, querendo nos casar, constituir família, dar continuidade às nossas sociedades. É difícil desconsiderar isso e dizer que não, pois cada um de nós sabe com que forças repomos a cada dia as pedras que derrubamos.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista. É doutor em filosofia pela USP. Doutor em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Tem pós-doutorado em Medicina Social pela UERJ.


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