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FERNANDINHA TORRES VENDENDO LIVROS! COMERCIAL DE TV RUIM!

A existência dos outros e, é claro, do Outro, é o modo pelo qual criamos e recriamos o eu. Olhamos e imitamos. Olhamos, imitamos e depois queremos saber a opinião sobre a nossa imitação. Quando assim agimos, perguntando sobre como nos saímos imitando, é porque já não mais nos referimos a nós mesmos na terceira pessoa. Falamos “eu” ao invés de “o bebê” ou nosso nome, para nos apresentar. Falamos conosco mesmo. Alguns de nós estranha a capacidade de falar consigo mesmo. Outros não estranham, mas não deixam de lado essa atividade. O homem é aquele que pensa o pensamento. No jargão atual, chamamos isso de reflexão. Na antiguidade, muitos, e hoje em dia alguns, quando fazem esse exercício, contam que estão diante de potências exteriores. Deuses, daimons, santos e todo tipo de entidade povoa o que hoje, por conta de nossa maneira iluminista e individualista de qualificar as coisas, toma como “a consciência”.

Tudo começa, portanto, com a nossa atividade que usa do outro como espelho. No mundo atual, o papel do outro é ocupado pela infosfera na condição de internet, a rede mundial de computadores. Não é mais uma rede livre. É uma rede de plataformas virtuais que acumula dados e, agora, pela inteligência artificial, simula o pensamento. Dessa maneira, temos um instrumento ego-técnico. Um instrumento de criar e recriar o eu que cada um deve ser. Trata-se de um instrumento poderoso e, de certo modo, tornado portátil, ao gosto do individualismo moderno. Somos levados à presença desse instrumento pela necessidade que temos de trabalhar e nos entreter. A maquinaria de algoritmos e inteligência artificial se acopla às nossas almas, ajuda na sua construção. Temos hoje no mundo não mais uma subjetividade que depende de homens e deuses, e sim uma subjetividade que integra homem e máquina. Essa subjetividade é fruto da exigência do homem de ser o portador de uma linguagem mais específica e mais simples, a linguagem que se faz na interface com a máquina que forma a maior parte da infosfera. Cria-se a interação homem-máquina e gera a subjetividade de nosso tempo. Trata-se da subjetividade maquínica. Somos agora, todos, ciborgues.

Esse eu que surge na infosfera é super dividido. Ele é aparentemente adepto da diversidade, pois ele próprio é um conjunto de múltiplos eus. Em princípio, isso poderia parecer uma benção democrática. Mas, na prática, funciona com cada eu se mostrando como uma caricatura de um eu. O eu que a internet nos devolve, como sendo o eu de cada um, são diversos eus consumidores, com bem menos propensão à cidadania do que pode parecer. São formados pelos rastro de nossa navegação na internet. São junções de dados que, por trabalho algoritmo e de IA, desenvolve modelos dos nossos eus. Existe quem acredita que esses dados que criam modelos de comportamento forma um conhecimento, e que as plataformas adquirem um conhecimento a respeito de cada um de nós. Mas não é assim. Uma máquina não nos conhece. Ela simula o conhecimento fornecendo dados que se associam a dados. Tais associações são postas no modelo por conta de nossa atividade mais costumeira na navegação.

Julian Assange disse certa vez que o Google sabe de nós mais do que nossas mães. Quando ele disse isso, ele não atentou para algo simples: reproduzir dados, associar dados segundo frequência, não é conhecer. O Google simula conhecimento sobre nós. Mas ele não nos conhece. Quando alguém pede nosso perfil, o Google, e outras plataformas, e inclusive as plataformas que ajudam a espionagem internacional, fornecem não um eu complexo, mas um eu gerado pelas caricaturas que são os nossos eus consumidores. Prever comportamento para encontrar compradores, o Google pode fazer. Pode-se prever também comportamentos para se tirar proveito político. Mas isso não revela algo que possa ser chamado de conhecimento. A maquinaria não tem conhecimento de cada um. Não somos a caricatura de nosso eu, que é o eu formado por eus bem previsíveis, gerados pela maquinaria da internet.

Toda plataforma do capitalismo de plataforma sempre apresenta a comunicação segundo o filtro da “linguagem” de máquina. A propaganda televisiva deu o passo inicial. A internet monopolizada por plataformas que visam a acumulação do capital, deu o segundo passo. Tudo que faz tem a ver com o objetivo de vender e comprar, submeter e guiar. Capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro vivem em simbiose, já disse algum acadêmico. Os produtos aparentemente mais sofisticados, nas plataformas, são vendidos às cegas como os computadores agem às cegas no mercado financeiro.

Fernandinha Torres é atriz. Não é intelectual. Mas, como foi casada com Pedro Bial durante um breve tempo, talvez tenha adquirido dele a capacidade de ser pseudo intelectual. Agora, por obra de uma companhia de marketing que assessora a plataforma Tik Tok, Fernandinha aparece vendendo livros. Ela precisa ser superficial como ela mesmo de fato é, para então falar de Machado de Assis de modo que quem a assiste fica sabendo que Machado de Assis é um grande escritor! Ele é tão grande que foi reconhecido, agora, por uma tiktoker americana, e que há quem escreveu teses sobre Machado. Fernandinha apresenta os livros como se fosse dica de leitura, mas é apenas venda. E venda mal feita, pois o comercial se parece com todos os outros dela mesma. Sorriso abobado, sem motivo, para vender o cartão do Itaú, salsicha da Sadia e absorvente feminino Sempre Livre. Estando sempre livre para a salsicha lhe dão um cartão vermelho!

Ainda não entendi a razão de garotas propagandas falarem e ao mesmo tempo sorrirem. O sorriso no meio da fala, dependendo do que se conta, é uma demonstração de debilidade mental. Fernandinha teima nessa técnica ensinada às garotas propagandas do tempo das “colegas de trabalho” de Sílvio Santos. Que coisa idiota!

Bill Gates disse que a internet tinha o objetivo de tornar a vida fácil. Sim, os fascistas queriam a vida dura. Nós, ao contrário dos fascistas, queremos a vida desonerada. O neoliberalismo é a desoneração, flexibilização e facilitação da vida para que você seja empresário de você mesmo. Então, você é tik toker e acha que Fernandinha Torres também é. Não é! Ela é garota propaganda da plataforma do Tik Tok, bem diferente de qualquer outro tik toker. Ela fala a linguagem simples, ou seja, a linguagem simplória, pois as plataformas só interagem como seus engenheiros-produtores e seus usuários se eles se tornam tão simples ou simplórios como a máquina. A maquinaria é especialista em ampliar símbolos e não fazer se desenvolver qualquer semântica. Daí sua inerente imbecilidade. Daí que o eu criado no interior da subjetividade maquínica é um eu simplório, caricaturesco, individualizado e pluralizado como consumidor. Por isso mesmo Fernandinha nada fala de Machado de Assis ao vender livros de Machado, ou melhor, de gente que falou de Machado. Machado não cabe no comercial de Tik Tok. Ele é realmente maior – maior que a máquina!

Mas, convenhamos, o Tik Tok não podia ter escolhido melhor. Só o tipo Bial ou tipo Pondé ou tipo Fernandinha poderia aparecer para indicar livros (Leandro Banal e Gabiru Piolho caíram em desgraça, não sabem usar óculos como Fernandinha teve de fazer, e são “colher de festa”). Não há o que, no capitalismo de plataforma, não se apresente como caricatura de um eu, para vender ou para comprar. A idiotia agora não é mais a da TV, ela agora é alguma coisa que devolve para nós o eu nosso totalmente reduzido, pronto para rolar a tela e tentar se identificar com a redução. Muitos vão comprar os livros indicados pela Fernandinha. Talvez ela mesma! Mas o Machado de Assis não apareceu no Tik Tok. Ele só aparece nos livros e estes dependem de algo que é a educação formal, a própria formação escolar, para poder ser apreciado. Mas, segundo Tarcísio, governador de São Paulo, o professor da escola deve ser trocado pelos algoritmos e inteligência artificial. Aí sim, todos falarão de Machado de Assis, sem lê-lo. Mas, para o consolo de Fernandinha, Seu Jorge vai dizer que o comercial dela é um “avanço”. Mas o Seu Jorge é suspeito.

Paulo Ghiraldelli, professor, filósofo, escritor e jornalista. Doutor em Filosofia pela USP. Doutor em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Fez seu pós doutorado em Medicina Social pela UERJ.


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