A GERAÇÃO Z NÃO CONHECEU ALGO QUE A MINHA GERAÇÃO até viu, mas talvez não tenha dado atenção: bichinho virtual. Era um pet virtual, próprio da geração nascida em meados dos anos oitenta. Uma peça de chaveiro, com uma telinha rudimentar em que a imagem era a de pontos esparsos, nada parecido com o que vemos nas telas de hoje. O bichinho tinha hora para tudo. E com isso, ocupava o dia das crianças. Hora comer, hora de dormir, hora de passear etc. Não creio que o bichinho tivesse hora de acasalar. Enfim, um belo dia, como que torrado por um raio em céu azul, o bichinho virtual desapareceu. Foi efetivamente rápido. Acordamos um dia e o bichinho virtual não foi levado para a escola. Ficou na gaveta. Nunca mais saiu de lá. As próprias gavetas foram esvaziadas pelas mães, e sabe-se lá onde foi para o cadáver.
Em 1995 a internet entrou para valer no mundo. Todos nós tornamos “internautas”. Em 2005 veio o Youtube, já não éramos mais internautas, mas “usuários”. Começava o fim da suposta internet livre para o triunfo da internet dos monopólios. O capitalismo de plataforma tomou conta da nossa vida. Vieram os canais para cada usuário em tempo real individualizando ao extremo a comunicação. O bichinho virtual, se tivesse continuado a existir, por meio de algum museu, teria realmente se tornado obsoleto. Perdeu o sentido, pois todos se transformaram em bichinhos virtuais de todos. Os celulares passaram a dar condições de policiamento de todos por todos. Por um breve momento, surgiu a expressão “coleira eletrônica”, para denominá-los. Depois de um tempo, nem isso foi mais preciso. Perdeu a graça tratar o namorado ou namorada como um bichinho virtual que precisamos localizar para saber se está no motel com outro. Cada qual que vai para o motel com outro não consegue não postar o seu vídeo, ou faz transmissão direta, se exibindo. On line, pinto in!
Filhas mostram aos pais que estão fazendo sexo enquanto seus pais jantam, e os pais recebem isso em tempo real na própria janta. Uma janta solitária, aliás. Mas o pai não dá bola, pois ele precisa ver mais mil cenas idiotas do Tik Tok que passam diante dele. Além disso, o próprio trabalho dele se passa ali, no celular. Seu celular é seu escritório. Às vezes ele nem reconhece a filha. Agora, somos todos evangélicos e, desse modo, não acreditamos que o que foi mostrado é relativo a nós. Só quando o pastor disser que é, então é.
A ideia de marcar hora, de seguir relógio, implícita na ideia de bichinho virtual, se tornou não só obsoleta, mas sem sentido. A ideia de que o tempo é espacializado e contado deixou de ter importância. Não há mais tempo em uma sociedade que trabalha dia e noite sem se desligar do celular que, enfim, põe trabalho quando finge por o lazer. O bichinho virtual foi o canto do cisne do relógio.
Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, jornalista, escritor.
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Eu lembro agora que vi a foto mais achava uma besteira, na época fazia medicina.
Veio rápido, sem graça e sumiu.
Pra quem tinha pet verdadeiro, graça nenhuma.
Mas, sinal do vazio nas mentes. Vazio mais que fundo. Abissal
Eu lembro do Tamagoshi, mas acho que era coisa de pessoas nascidas em 90, não em 85.
Uau! Impressionante professor! Será que tem gente que não se choca ao ler? Não sente? Fico com vontade de chorar muitas vezes..
Professor, segue se a isso no nosso desejo de comentar um comentário, e ou um artigo com este. Eu que sou nascido na década de 70, mais precisamente em 73. Nesta época o contato que tínhamos com o mundo exterior, ou era pela TV, em sua maioria em preto e branco, a cores era só para ricos, ou pelos jornais, que eu lia quando vinham embrulhado carne, isso mesmo, naquela época era comum, não sei porque não morremos todos! E outros produtos de varejo. Ao ler ficava indignado, como ainda fico, com os editoriais, e pra respondê-los? Tínhamos que escrever para o referido jornal e esperar que nosso comentário passasse pelo crivo que quem os liam. Fiquei orgulhoso de ter um comentário, não lembro a respeito de quê, publicado em um jornal. Hoje, estou agora comentando aqui, e o crivo é dos que o lê, e muitas das vezes pegam pesado. Finalizando, nunca tive um bichinho destes, sempre achei ser muito idiotas estas “inovações”.
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