Pular para o conteúdo

O TURCO MECÂNICO

Está na moda agora as empresas comprarem os serviços de IA das Big Techs condicionando-os a virem com o selo “curadoria humana”. Trata-se de um reconhecimento da definição de IA. Ou seja, deu-se um passo a mais. Os compradores de serviços se deram conta daquilo que já sabiam, que a IA não veio para competir com os humanos nem tirar o lugar deles (ainda que possa assim fazer). “As máquinas atuais têm a inteligência de uma torradeira e realmente não temos muita ideia de como sair disso”, diz Luciano Floridi, o filósofo italiano e estudioso da IA. E ele continua: “Hoje, a IA desconecta a resolução bem sucedida de problemas o desempenho de tarefas do comportamento inteligente”. Então, é devido a tal desconexão que ela pode “colonizar implacavelmente o espaço ilimitado de problemas e tarefas, sempre que puderem ser realizadas sem qualquer compreensão, consciência, perspicácia, sensibilidade, preocupações, intuições, semântica, experiência, bioincorporação, significado, sabedoria e quaisquer outros ingredientes que contribuam para criar inteligência humana”. (1) Sem essa concepção de desconexão, não se pode compreender o que é a IA.

Os humanos se mostraram a si mesmos que são verdadeiramente imprescindíveis. Só agora, que um bocado da imprensa desesperada (por ignorância e/ou por avidez de audiência) anuncia o fim do reino humano, totalmente substituído pela IA, é que podemos perceber que os humanos são imprescindíveis. Pede-se IA com “curadoria humana”. A cada passo dado pela IA, substituindo humanos, mais empregos de novas ordens aparecem para os humanos. Podem não ser no mesmo volume, mas isso não fica muito distante, e isso depende do período, do lugar etc. Para explicar o que ocorre, vale lembrar o exemplo do Mechanical Turk, que já está se tornando “clássico”. Vou repeti-lo.

O turco mecânico era um autômato que, de autômato real não tinha nada. Era uma máquina oca vestida como um turco que jogava xadrez. Criada no século XVIII ela derrotou um bocado de jogadores famosos. Seu truque era esconder no seu interior um homem, este sim um verdadeiro campeão de xadrez. Recentemente a Amazon resolveu anunciar que seus serviços de IA continham mão humana. Buscando manter o humor e a leveza que prometeram, mas não cumpriram, do espírito do Vale do Silício, elas anunciaram o nome desse serviço como Mechanical Turk. Mas o que ocorreu?

Várias tarefas requisitadas por usuários seriam feitas por trabalhadores, não raro, obviamente, também usuários. Obviamente pagando todos de modo miserável, milhares de trabalhadores no mundo todo foram postos no interior disso que a Amazon chamou de “Inteligência Artificial Artificial”. Não demorou muito para que esses humanos, pressionados pelo ganho irrisório e pela demanda (bem vindos ao mundo do biopoder) começassem a realocar seus serviços para o maquinário. Passaram a usar a IA. Com os empregados tentando sobreviver, o que se obteve foi a inteligência-artificial-meio-humana-mas-artificial. Claro que a Amazon sempre soube da ocorrência dessa situação. Ela jamais sentiu necessidade de alardear tal coisa, apenas diz que está aperfeiçoando os seus humanos em interface com suas máquinas. Ao mesmo tempo, promete também máquinas melhores. É o que todos prometem. Mas a “curadoria humana” posta em contrato tácito (e às vezes efetivo), é de difícil verificação de bom funcionamento. Todos se enganam um pouco, e o trabalhador que ganha pouco, que engana também, é no fundo o mais enganado. Pode-se imaginar o volume de erros e caminhos esquisitos que isso cria no cotidiano da vida das empresas, de pessoas e do estado. Com um pouco de ficção e todo esse relato pode dar um bom livro sobre o fim do mundo, por bomba ou vírus etc. A torcida é, sempre, para que não passe de livro. De modo breve, analisemos o que ocorre.

A Amazon está simulando uma IA que fuja de sua própria definição. Trata-se de ter uma IA que faça o serviço completo, sem humanos. Cria então a IA via Mechanical Turk. Os milhares de subempregados da Amazon dão um passo além, e ao enfiarem a IA no serviço simulam a IA com Mechanical Turk como algo veloz e com trabalho intensivo, como de fato uma IA deveria fazer, ao menos na ficção vendida pela imprensa. O solicitante do serviço do Mechanical Turk (transcrição de uma gravação oral, por exemplo) é quem vai avaliar o resultado final. Essa avaliação pesa no prestígio desse quase anônimo trabalhador da Amazon, que então é posto em um ranking. Ora, se o solicitante concordar que o serviço foi bem feito, esse trabalhador sobe no ranking dos procurados para pegar mais serviços, sendo a Amazon a intermediária. Se esse anônimo não fez o serviço por ele mesmo, mas usou máquina, tudo irá correr bem para ele se o resultado for considerado interessante para quem pediu o serviço. Em resumo, é o princípio da uberização, ou sistema do Ifood: se o trabalhador é uma bruxa e entrega o lanche pedido por conta dele ter uma vassoura voadora, fazendo tudo mais rápido do que os outros trabalhadores que vão de bicicleta e moto, então, a bruxa sobe no ranking e pega mais serviços que outros, e sua identidade de bruxa é completamente desimportante para o usuário e para a Amazon.

Claro que há um buraco nisso tudo: a confiança de quem pediu o serviço com “curadoria humana” está na palavra “humana”. Delego para alguém um serviço, mas começo a me acostumar a tratar esse trabalhador, que não sei quem é, como tendo mais habilidades do que ele realmente tem. Não é difícil que esse hábito se instaure, pois há a distância entre solicitador e executor, há a mediação da plataforma da Amazon que fornece status ao serviço, e tudo se faz do modo que se faz porque a própria intensividade do trabalho é a que temos hoje, é o imperativo do capital. É o capitalismo regrado pelo biopoder.

A infosfera é ela própria uma maquinaria de fluxos de dinheiro, linguagem e trabalho que tem sido colocada no regime de 24/7. A infosfera é o campo no qual o Mechanical Turk não é mais um fake, mas um fake do fake com poderes maiores que o do primeiro fake (o do século XVIII), pois ele ultrapassa qualquer alusão à noção de falsidade. Caso alguém diga que o usuário está sendo enganado, ele, usuário, poderá até estranhar, não vendo sentido na denúncia. O serviço pelo qual ele contratou o trabalhador oferecido pela plataforma da Amazon, afinal, lhe entregou um resultado que ele julgou bom, ou ruim. As regras de mercado se colocam imperiosas. Não há qualquer problema legal nisso. Ninguém é inocente nessa operação, nem a plataforma, nem o usuário e nem o trabalhador. Não se trata de nomear o engodo final como sendo um simulacro ruim do engodo inicial. O turco enxadrista enganava quem o via jogar. O Mechanical Turk da Amazon engana a todos, mas não por repetir uma semelhança, ou seja, a enganação. O que ele faz é romper com a ideia de enganação pois realiza uma nova façanha. Ele põe na jogada o critério trazido do próprio capital: confia-se no resultado até que não se possa confiar mais, sendo que ninguém sabe quando será esse momento ou mesmo se ele existirá. Trata-se de um simulacro que não é cópia degradada, e sim um produtor de realidade, algo com um diferencial fundador. Lembramos aqui, para falar de simulacro, antes Deleuze que Baudrillard. (2) Todavia, ao mesmo tempo, é também algo conhecido, pois a confiança que instaura é da lógica da confiança do capitalismo na sua instituição do dinheiro de nosso tempo, cuja irreferencialidade permite aos bancos a moeda fiduciária, em princípio criada do nada, quando da necessidade de mais moeda.

O poder do engano tácito produtivo que permeia a situação vivida pela Amazon, por usuários e por trabalhadores é algo que é semelhante ao poder do dinheiro. Nesse caso, vale a noção de fetiche de Marx. Há uma mágica, um poder de mágica no serviço da Amazon como há no dinheiro do mundo capitalista financeirizado. A busca pela apropriação do excedente é da Amazon, mas não de modo a colocar todos os seus trabalhadores em uma fábrica e todos os seus consumidores em um shopping. Trata-se de uma situação completamente pós-fordista. Trabalhadores e consumidores se organizam por si mesmos. A infosfera substitui todo o espaço possível de organização entre usuários, intermediário e trabalhador. Ela garante o fluxo de trabalho, linguagem e dinheiro. O engano tácito, que é o diferencial dessa operação, nem pode ser chamado de engano. O capitalismo de plataforma consagra aqui a filosofia de Deleuze que considera o mundo atual como de fluxos e modulações, e tendo o simulacro em sua positividade. A modernidade é a era do simulacro, mas, apenas como explosão mais notável, pois, desde sempre a realidade se faz como simulacro. Deleuze concedeu estatuto ontológico ao simulacro. O capital apenas fez desse poder algo mais detectável, possível de ser visto por qualquer um. O Turco Mecânico atual não é uma cópia, ele é co-criador, com o capital, de uma realidade nova.

Paulo Ghiraldelli

(1) Luciano Floridi. A ética da inteligência artificial. Curitiba: PucPress, 2024, pp. 67-68.

(2) Sobre a comparação entre Baudrillard e Deleuze, a respeito do simulacro, ver: Simulacro e hiper-real: Baudrillard e Deleuze. https://ghiraldelli.org/2024/10/29/si…]


Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário em “O TURCO MECÂNICO”

Não é possível comentar.

Descubra mais sobre Paulo Ghiraldelli

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading