A dra. Mariangela Cabelo-Ghiraldelli escreveu: “quando somos treinados por uma IA, válido é o signo do acerto. Mas a máquina não pode significar o que é 100% .” Ela marcou um gol aqui: o que é o “ótimo” da máquina não é o melhor que se pode querer de um estudante. Ela fala do local do médico que se prepara para exames de residência. E continua: “A IA retira o prazer no caminho, coloca a métrica e o ‘seu acerto’ como único destino para aproximar o aluno do conhecimento. Não há mérito algum no praticar sem acertar!”. Sim, ou se acerta ou se erra, segundo um critério de acerto e erro que se impõe segundo uma velocidade estonteante e segundo um número de horas de atenção pouco útil. De fato, um exame de residência, com os ingredientes do momento histórico: “consultas devem ser feitas em no máximo 15 minutos”. Nesse sentido, os que desejariam falar contra a Dra. Mariangela argumentariam: o exame prepara para a realidade. Mas a Dra. Mariangela tem a dizer mais: “É descartado o raciocínio, a discussão, a experiência; tudo isso só irá piorar ‘suas métricas’.” Trata-se, segundo ela, de “uma metodologia que desanima, nos faz descartar nossa personalidade, ver perda de tempo na conversa, no pensar, no aprofundamento, no humor. Ela treina o indivíduo a esquecer de si mesmo, descartando o melhor que o ser humano pode fazer”. (1) Nesse caso, penso que os objetores teriam que ir mais devagar. Não dá para não perceber que a Dra. Mariangela está apontando para um problema efetivo: o que é chamada de realidade, nesse tipo de ensino, é a realidade do mercado. Para muitas pessoas a realidade do mercado é a Realidade. Para o médico, assumir isso, é antes de tudo uma quebra implícita ao Juramente de Hipócrates.
Aqui, penso que cabe um adendo. Vou botar minha colher na história.
A crítica a esse tipo de ensino se iniciou nos anos setenta. Tratava-se de mostrar que uma série de postulados do behaviorismo estavam embutidos em novas tendências pedagógicas que cobravam dos estudantes performances que não lhes garantia aprendizagem. Como se deu isso?
A performance sempre foi um elemento central em boa parte da pedagogia americana. Quando disseram que ela estava sendo posta abaixo, isso não era verdade. Ela nunca saiu de cena. O que ocorreu foi uma mudança no conceito de performance.
A filosofia do pragmatismo americano teve papel importante na pedagogia. Ela alimentou boa parte da chamada Pedagogia Nova ou teoria da Escola Nova. Trouxe para esta uma forte preocupação social. A sociedade democrática que se queria construir na América era seu modelo de sociedade em geral. A performance do aluno era mensurada, portanto, em termos de adoção da democracia. Esta seria mais importante que a sua performance em termos intelectuais. Havia mais ênfase no “aprender a aprender” do que propriamente no “aprender conteúdos”. Jogos, participação na vida social da escola, capacidade de discutir para resolver problemas etc., sempre foram atividades incentivadas nesse tipo de pedagogia. Ser um liberal ou ser uma pessoa de esquerda nos Estados Unidos afinava-se com essa postura em pedagogia. Nem todas as escolas adotavam tal postura, mas em termos de ideário pedagógico, era algo forte, e que se espalhou pelo mundo ocidental durante o século XX.
Mas, a partir de 1957, com a URSS lançando-se na Corrida Espacial na frente dos Estados Unidos, o panorama da discussão em filosofia da educação e pedagogia se alterou. Os americanos pegaram um eixo conservador para criticar a pedagogia pragmatista e enaltecer uma pedagogia capaz de formar “pessoas mais capazes”. O projeto armamentista das grandes potências jogaram um banho de água fria na Escola Nova enquanto escola da liberdade e da democracia. Veio em seu lugar a cobrança da performance intelectual. E esta, em muitos lugares, foi interpretada como capacidade de se sair bem em testes. O pacote pedagógico vendido, desde então, passou a ser: “menos Dewey, mais técnicos”. Esse pacote veio ao Brasil com um rótulo peculiar: “menos Paulo Freire, mais vestibulares”. Vestibulares de “múltipla escolha”. O Brasil oficial comprou esse pacote.
O ensino apostilado dos cursinhos ganharam a cena. A “prova só de colocar X” virou febre. Os cursos de Humanidades foram desprestigiados. Os estudantes se transformavam em verdadeiros seres humanos dentro de suas famílias se, e somente se, fossem engenheiros ou médicos. Junto dessa demanda, abriu-se todo tipo de escola particular. As meninas que não iriam fazer pedagogia, comunicações ou psicologia, podiam até aparecer como pessoas, quase homens, fazendo o curs de direito. Mas tudo segundo a regra de ficar bom no preenchimento rápido de provas de alternativas.
Esse modelo foi criticado. O ensino médico americano mudou. O nosso também, mas piorou. E quando voltou a ser parecido com o do passado, já não era mais nada. Eis que no meio disso, entre os anos 1990 e agora, todo o aparato da época do fim do fordismo se adaptou ao pós-fordismo. Em termos pedagógicos nem temos mais Escola Nova ou crítica da Escola Nova. Nem mesmo crítica do ensino performático. A filosofia da educação entrou em baixa, e a crítica ao ensino vigente mais ainda. O ensino baseado em provas de testes adentraram a base da maquinaria que treina estudantes de todo tipo no ensino superior. Modulados pela IA, agora chegam ao núcleo dos cursinhos que preparam não mais o estudante, mas o profissional. Os cursinhos que preparam médicos adotaram o behaviorismo embutido na IA. O desastre dos anos 1970 agora pode se reproduzir ampliado e requalificado, no âmbito de um mercado disputadíssimo: o de ser médico. Fazer residência em uma universidade pública, em bom hospital, eis aí um lugar que os cursinhos, agora na moda IA, adentraram para valer.
A base da IA é a conversa por meio de comandos. A IA precisa falar a linguagem humana. Mas ela não tem corpo, não tem sensibilidade, não pode acumular experiência, e então simula – e dissimula – comportamentos. O resultado não é ela se adaptando aos humanos, mas os humanos se adaptando à semântica matemática, ou seja, temos o que venho chamando de semiocapitalismo: o mundo da inflação semiótica e deflação semântica. Mais símbolos sem significado ou com pseudo significados são postos em ação na tela, e o humano que acompanha a tela imagina estar de fato aprendendo. Ele já não distingue mais o que é aprender a partir do livro e junto do médico-professor e o tal aprendizado junto da máquina, que cobra dele uma performance nunca alcançável, aparentemente esmagadora, mas, no fundo, complacente. Sim, complacente, pois diante de qualquer crítica, e eis que a IA se torna toda cheia de dedos, fingida, se humilha para não perder o humano do lado de lá da tela. Vira uma máquina prostituta.
A prostituição maquinal é um caminho agora na estrada do ensino da medicina. Dizem alguns: é o futuro, e esse é o caminho da própria medicina. Não se acreditava que essa parte da vida poderia ser dominado pelo capitalismo. Marx não acreditava! Ele dizia que quando queria o médico, queria de fato o médico, não o seu “moleque de recados”. Ora, a IA é um moleque de recados. E vai acelerar bem a entrada da forma mercadoria e do capitalismo na medicina. Muita gente confia que um moleque de recados do médico já existe, já são os aparelhos. Eu mesmo digo isso. Bem, essa é uma outra discussão.
Paulo Ghiraldelli
- Essas observações estão na descrição de vídeo postado pela médica.
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