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O NOVO BICHO VIRTUAL ESTÁ CHEGANDO

As autoridades brasileiras estão proibindo celulares nas escolas. Estão se dando conta que nós, filósofos que estudam o fenômeno da infosfera, e também médicos e pediatras, não estamos querendo parar a tecnologia na força do braço, mas que nosso alerta sobre a relação entre internet e crianças é caso sério.

Mas a nova investida da tecnologia midiática não vai deixar barato. Afinal, se um dos reis dela, Elon Musk, está se drogando cada vez mais, e se ele mesmo fuma maconha na rede social que ele comprou, então, por que só ele né? Que tal todas as crianças drogadas? Sendo assim, as corporações que lidam com brinquedos e internet estão preparando a volta do bichinho virtual.

O novo bicho virtual está longe de ser uma caixinha com telinha. Ele é de fato um boneco, um ursinho de pelúcia. Ele vai interagir com a criança como um amiguinho. Faz o que a rede já faz conosco: colhe informações e com isso, passa a ter como responder aos nossos gostos que, enfim, não somos nós mesmos, e sim setores de nós mesmos afeitos ao consumo. Esse animalzinho que será vendido às crianças saberá rapidamente tudo sobre o pequeno companheiro, e ficará cada dia mais esmerado em se tornar uma cópia sua.

Um pediatra que escreve para O Globo atirou no que viu e acertou no que não viu. Daniel Becker em coluna para o jornal (04/02/2024) pediu aos pais para não comprarem o novo bicho. Mas o fez por motivos alarmistas que, enfim, dominam as praças, talvez não sem razão. O velho temor. As grande corporações teriam acesso a dados de cada família em graus nunca antes colhidos. Tudo alimentaria ainda mais o Big Data. Isso daria margem para pessoas inescrupulosas atacarem as crianças ou as famílias. A classe média sempre se preocupa consigo mesma como quem se preocupa com patrimônio. Ela não tem outra fórmula.

A ideia do surgimento vigia do mundo pelas corporações, e que estas podem fazer da democracia uma falcatrua caminha no mesmo passo que a ideia de que colher dados e passar mensagens é o grande problema da internet. Problema maior, então, quando um urso indiscreto passaria a habitar os lares e as mentes das crianças dos lares.

Mas os problemas de fake news e o de roubo de dados está longe de serem os perigos principais do urso indiscreto. A questão toda é de como que se dá a interação entre criança e máquina.

Um urso movido pelos algoritmos das plataformas é uma máquina que, sendo máquina, não tem semântica, só semiótica. Ele colhe informações e devolve informações. Mas isso não é feito por meio de texto ou texto falado, mas sim um simulacro de texto. A fala (ou texto) de um urso movido por inteligência artificial se dá pela disposição probabilística de palavras, sem que a máquina possa levar em consideração o significado delas. O tamanho do Big Data permite a probabilidade das palavras chegar a um nível de acerto tal que um adulto pouco atento pode se deixar enganar. Mas o erro de conteúdo é sempre um perigo. Munido desse aparato, um urso com IA ensina a criança a responder a um amiguinho que é ela própria, mas não ela inteira, evoluindo, e sim ela setorizada, evoluindo por etapas, e caricaturizada. O urso é a caricatura dela própria, segundo congelamentos de um perfil setorizado. Uma criança com forte pendor narcísico será o resultado desse tipo de relacionamento.

Além disso, um urso-máquina que só “conversa” por semiótica, deverá produzir não uma linguagem, mas uma pseudolinguagem, como ocorre na infosfera. Todavia, ele estará ligado à criança por mecanismos de maior intimidade que os celulares. Deverá ter a capacidade de boicotar a evolução linguística da criança de modo muito mais efetivo e atroz que o celular. A semiotização das relações, ou seja, a produção de relações geradas por símbolos que nada mais significam, que apenas dão comandos, é exatamente o mecanismo pelo qual a criança não poderá aprender a linguagem. Para quem está dominando a linguagem, ou seja, a criança, a semiotização sem semântica é um claro boicote na capacidade de se tornar um humano. Uma linguagem é aprendida em seu conjunto, com semiótica e semântica, em ambos o casos, por intermédio de um humano que coloca a valor afetivo de cada palavra. O urso máquina não irá fazer isso. Ele só pode devolver uma linguagem que funciona da base de probabilidades de locais de palavra. É assim que a IA funciona, e desse modo é que a IA-Urso bisbilhoteirro e burraldo irá funcionar.

O urso é o produto não da tecnologia somente. Ele é o produto do capital financeiro. A IA nasceu e cresceu como instrumento do capital financeiro. O acúmulo do capital atualmente se faz no mercado financeiro, e só por meio de simbologia de comando e probabilidades é que se pode pegar a dianteira no mercado especulativo. Quem participa do mercado em condições humanas não leva vantagem. Só os ricos que possuem energia elétrica (ou parecida) e grandes computadores realmente ganham. Assim, pela ordem do capital é que chegamos aos algoritmos, ao Big Data e ao mundo semiotizado. O urso que irá estar junto de nossas crianças atuará na velocidade maquinal, e não pegará uma consciência psicológica formada, mas uma consciência psicológica em formação, ou em deformação. Em pouco tempo ele irá produzir não só crianças narcísicas em alto grau, mas também super ansiosas. Ele irá propor mais demandas do que a criança poderá atender.

A proibição do celulares nas escolas será um paliativo diante da entrada desse urso em casa. Nós finalmente entenderemos a expressão “amigo urso”.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista.


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1 comentário em “O NOVO BICHO VIRTUAL ESTÁ CHEGANDO”

  1. O urso amigo já vive com os adultos na grande maioria travestido de evangélico usando sua linguagem antiga, surrada pelo tempo mudada pela tecnologia na forma de emoji engraçadinhos, dizem muito em seu silêncio. O urso amigo para às crianças e quando crescerem qual o urso amigo que abraçaram? Mais tudo pode acabar, ou não?

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