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Para além da sociedade narcísico-depressiva. Para além de Marilena Chauí

Parece-me estranho essa ideia de que vivemos em uma “sociedade depressiva”. Muitas pessoas cometem suicídio. A classe média invade as clínicas de psicoterapia. Há uma venda grande de antidepressivos. Tudo isso revela patologias em um crescendo, mas não creio que fazemos boa filosofia social quando, por meio de aumentos ou diminuições de registro de doenças, caracterizamos uma sociedade e uma época. Talvez, para a caracterização de uma época e uma sociedade, seja até mais interessante notar o desaparecimento de certas patologias psicológicas.

O procedimento de desenhar uma sociedade por conta de suas patologias fez escola, e não creio que seria errado dizer que Freud teve grande responsabilidade nisso. A tese é bem conhecida, e diz respeito ao seu escrito Mal estar na civilização. Para o homem ser o que ele é, um criador de cultura, ele teve que negar sua natureza, reprimir inclinações e desejos, barrar seu prazer sexual, a descarga da satisfação de pulsões. Assim, por uma sublimação, ou seja, uma transformação no sentido e na direção do vetor que carrega suas energias psíquicas, o homem erigiu a civilização às custas de seu prazer instintual. O resultado foi uma perda sem que ele, homem, tenha se dado conta de tal processo. Uma perda sem consciência elaboradora. Ora, a falta de algo que nos é importante e amado, sem um luto, tem como resultado a melancolia. Criamos a civilização e recebemos em troca a melancolia. Ela é uma parente próxima da depressão.

Tenho a impressão que, mesmo após Foucault, Deleuze e outros, que desafiaram a chamada “hipótese repressiva” do freudomarxismo dos anos sessenta, uma boa parte da esquerda (e agora até da direita), acredita que pode descrever nossos tempos segundo uma caracterização que leva em conta o sufocamento, o por para baixo, o fazer calar, a inação, a depressão. Essa é uma tese que tem contra ela um elemento simples: a civilização, em seu desembocar no capitalismo, é algo por demais esfuziante, produtivo, de rompimento com a gravidade, portanto é difícil ver como que seres reprimidos, melancólicos e depressivos poderiam gerar algo tão dinâmico como o capitalismo.

Recentemente, a professora Marilena Chauí esteve em um canal da TV Brasil, a tv estatal, para dizer que a vida digital, o encontro com o aparelho de celular, retira de nós o tempo e o espaço, nos descorporaliza. Entramos em uma situação de engodo de liberdade, de verdadeira servidão. Apertamos a tela do celular e achamos que somos livres, mas isso só amplia nosso narcisismo. Pois olhamos a nós mesmos. Só existimos se estamos na tela. Mas, para nos vermos na tela, precisamos do olhar do outro. Não tendo o olhar do outro, recorremos a coaches, a influencers etc. Pelo que entendi, parece que ele imagina, então, que ao recorrer a tais profissionais, o que cada um quer é que ele aprenda a como se mostrar para o outro, para que o outro o note, uma vez que a tela do celular não é um processo de autêntico reconhecimento. Estranhamente, a professora Marilena Chauí liga esse fenômeno à depressão. Ora, mas a depressão é um processo aparentado com a melancolia, é originada da perda, da falta sem luto, do resultado de forças repressivas. E a situação que ela, Marilena, descreve, não parece ser uma situação que nos traz o binômio repressão/depressão. Ocorre justamente o contrário. Como Deleuze disse nos anos 90: as pessoas hoje são instadas não a se calarem, mas a falar e se manifestar sobre tudo. Não é repressão propriamente dita, mas cobrança de participação, interferência, tagarelice. Show time! Desse modo, dá para notar que a busca das pessoas é por reconhecimento. Elas se mostram no espelho, olham para si mesmas, mas querem que outros a vejam. Se não encontram o outro, se a tela do celular não dá o outro, então, há alguma pantomima a ser aprendida para que algum outro venha notar aquele que quer reconhecimento. Gera-se aí o comportamento que busca o influencer, ou mesmo o desejo de ser influencer, busca o coach, ou ser coach. Em outras palavras, nossa sociedade é aquela na qual amplia-se a necessidade de autoteatralização. É preciso mostrar-se. Cada vez mais. Competição por atenção.

O mostrar-se, a autoteatralização, o estar querendo literalizar metáforas, faz parte de um comportamento que, no passado, caracterizava uma patologia: a histeria. Parece que o encurtamento do tempo e do espaço, que é uma característica do capitalismo, levou à criação da internet, uma infosfera que dominou a psicoesfera. E gerou com isso nosso trabalho digitalizado, nossa vida online, e com isso temos esse comportamento que aparentemente é narcísico, mas que, na verdade, é histérico. Viver em tempos em que a mídia comanda é viver o tempo que a histeria não mais existe em clínicas, desapareceu, e assim ocorreu porque se naturalizou, se integrou ao comportamento dito normal. Ponho essa tese na mesa já faz algum tempo, inspirado em certos insights rápidos de Peter Sloterdijk.

Assim, a professora Marilena Chauí parece que se perde um pouco em sua própria análise. Ela quer ver as patologias registradas como dando a semântica com a qual ela pode descrever nossa sociedade. No entanto, ela teria de procurar essa semântica nas patologias que sumiram, não nas que estão em voga. Depressão e suicídio são comportamentos individuais. Dão uma ideia de problemas psicológicos que passamos. Mas não dizem quais são esses problemas a ponto de podermos ter uma indicação de denominação para uma época. Achar que tais problemas podem receber o nome de depressão em uma sociedade eufórica, não me parece muito interessante. O homem moderno está mais para o histérico que para o depressivo. Muitos dos comportamentos depressivos são, na verdade, apenas modulações do fluxo contínuo de histerismo. A arte de ficcionar-se sem produzir uma ficção que valha a pena ser lida é a prática do frenesi que notamos nas redes sociais.

Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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5 comentários em “Para além da sociedade narcísico-depressiva. Para além de Marilena Chauí”

  1. Aliás, sua leitura do Sloterdijk é bem preguiçosa! Leitura de insights rápidos!? Pq não dizer leitura preguiçosa e mal feita…

  2. Texto lindíssimo!
    Gosto mais desta narrativa, mas ambas as narrativas possuem um ponto comum que é a questão como nos relacionamos com o mundo “descorporificado”, como se fosse um ato de sentir-se de forma andrógena simultaneamente homem e máquina e sem distintção destas instâncias. É como se rompêssemos os vínculos humanos, substituindo-os pelas conexões entre máquinas, para não sentirmos a dor ou o prazer do encontro real com o outro.

  3. Professor Paulo, se a alegria e a melancolia, sentimentos antagônicos, são o resultado da percepção de nossa interação nas relações sociais, drenado pelo filtro da formação intelectual e moral (nos campos filosófico e religioso).

    Podemos entender que patologias, como a histeria, em grande parte produto da dinâmica da sociedade financeirizada, tem a sua ancora no baixo nível cultural, ou melhor, no baixo nível de conhecimento intelectual e formação moral predominante numa época em uma dada sociedade?

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