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O FIM DA LINGUAGEM E O SEMIOCAPITALISMO

Para Olgária, que nos alerta para o fim dos repertórios linguísticos

Nos anos sessenta os franceses Deleuze e Guattari fizeram uma crítica à noção de desejo em Freud. Eles se insurgiram contra Platão, e viram Freud como um continuador do ateniense. O desejo como falta foi assumido como algo que deveria ser posto de lado. O desejo deveria ser notado como como produção. Do modo como eu os leio, a impressão que tenho é que Deleuze e Guatarri, no Anti-Édipo e outros escritos, pensaram o mundo segundo uma cosmologia, com uma força interna como a nomeada por Nietzsche, a vontade de potência. O desejo seria essa força criadora. Tudo está permeado de desejo, que não visa suprir faltas, mas criar o novo, o inédito.

No final dos anos sessenta, do outro lado do Atlântico, e segundo uma narrativa filosófica que aparentemente nada teria a ver com a de Deleuze e Guattari, Richard Rorty passou a pensar a linguagem como um fator de criação, e não como um elemento de representação do mundo. Ele se aproveitou do chamado segundo Wittgenstein, e também de Donald Davidson, para falar de uma filosofia que poderia deixar de lado a verdade como correspondência, evocando a verdade como algo antes inventado, e não descoberto. Nessa linha, a linguagem foi vista como uma capacidade pragmática de gerar contextos. Rorty acrescentou à “virada linguística” a “virada pragmática”. O pragmatismo seria uma filosofia de construção de versões melhores de nós mesmos, e não mais uma teoria para dizer quem somos. Nisso, o pragmatismo estaria comprometido, a partir da linguagem, com as forças de criação.

Leitores de Deleuze e da filosofia francesa não se familiarizaram com Rorty. E este, por sua vez, leu Derrida, mas não Deleuze e Guatarri. Se há algo difícil, ainda em nossos dias, é encontrar quem leia tanto o que vem da tradição da filosofia analítica quanto o é próprio da filosofia continental. Mas, quem transitou por ambos os lados, não pode deixar de notar que a ideia de criação permeou uma boa parte da filosofia no último quarto do século XX.

No começo do século XXI, o economista Christian Marazzi, influenciado por Deleuze & Guattari (por via do operaísmo italiano de Toni Negri e outros), buscou analisar o que ele chamou de “virada linguística no mundo do trabalho”. Ele estudou as modificações do trabalho dos anos setenta até nossos dias. Notou que, a partir dos anos setenta, a produção havia sido crescentemente linguistificada. Ou seja, não se tratava mais de obedecer as regras do interior da fábrica, segundo as linhas produtivas do mundo fordista, mas de criar uma demanda capaz de seguir a linguagem, aquilo que as pessoas diziam, o que elas comunicavam aos produtores. Assim, a produção se sujeitou à linguagem. Tudo se fez no sentido de seguir a linguagem, e esta, então, colocou as demandas dos consumidores acima das determinações da produção em massa. A linguagem se corporificou como efetivamente criadora, em um sentido talvez não pensado por Deleuze, Guatarri e Rorty. Veio o método do Kan Ban junto com o código de barras, e esses procedimentos, no início do século XXI, ganharam a infosfera já sob o comando da internet. Ninguém mais se importou com o fato dos carros não serem mais os “de linha”. O importante era ouvir o consumidor de modo a produzir cada vez mais coisas novas “sem qualquer linha”. Quando os publicitários perceberam esse salto, então eles realmente se tornaram publicitários, e vieram a fomentar e induzir gostos, desejos e tendências. Não se tratava mais de fazer alguém querer alguma coisa, mas de fazer cada vez mais se querer mais e mais. A era da obsolescência programada ganhou novo alento. Os produtos deixaram de ter a função de gerar inveja, e se tornaram fomentadores da intimidade e do investimento na vida particular. Por sua vez, os serviços passaram a ser oferecidos segundo o rótulo de “personalizados”. A sociedade do consumo de massa abriu as portas para a sociedade do consumo de indivíduos, tribos urbanas, grupos regrados por identidades variadas, como gênero, inclinações sexuais etc. Todas essas mudanças denotaram a passagem do mundo keynesiano-fordista para o mundo neoliberal.

Hoje vivemos e era dos algoritmos e da IA, que funcionam no regime do mais-do-mesmo. Mas a repetição atual não é mais a repetição da linha de produção de Henry Ford. Trata-se da repetição da linguagem, agora incorporada pela maquinaria, ou seja, pelos robôs associados à IA e à Internet. A linguagem saiu dos homens e veio parar nas máquinas. Esse transporte a deixou mais pobre. Por sua vez, os homens abriram mão da linguagem, e ficaram menos autônomos que os autômatos. O tempo em que esse movimento é vigente eu tenho chamado, junto com o italiano Franco Berardi, de semiocapitalismo (1). Para não citar eu mesmo e, então, ser deselegante, cito Berardi: “se considerarmos a linguagem não apenas como uma ferramenta usada na realidade institucional para descrever os fatos, mas também para criá-los, então entramos num mundo no qual as instituições, como o dinheiro, a propriedade, as tecnologias e o próprio trabalho, são todas instituições linguísticas”. E ele continua: “tudo isso molda nossa autoconsciência, e a linguagem se torna uma ferramenta de produção dos próprios fatos reais”. Ele diz algo que julgo muito importante: “a linguagem aspirava a se tornar potência real, e, graças à inserção tecnológica da linguagem nas máquinas, essa aspiração foi concretizada”. (2)

Se considerarmos que a linguagem, na linha de Wittengenstein, Deleuze, Guattari e Rorty (e outros – que tal Derrida? Davidson?), é um motor de produção criativa, e se então a vemos subsumida às máquinas, ao passo que os mortais abrem mão dela, podemos ainda conferir a ela esse tal poder de gerar o inusitado? Não estaríamos, nesse caso, deixando de ser criativos, perdendo o que podemos chamar de nosso repertório? Sem isso, nós, os mortais, não ficamos muito mais simples mortais?

Quando abrimos mão de nossos vocabulários, repertórios, instrumentos de criação, não estamos gerando um completo marasmo. Há uma ebulição na infosfera. Mas há efetivamente algo novo?

O semiocapitalismo é o regime em que o capital se torna um operador semiótico e o operador semiótico se torna elemento do capital. Trata-se de uma situação de inflação semiótica em concomitância a uma deflação semântica. A infosfera é um campo em que aumentam os símbolos que são “lidos” por máquinas, ou notados por humanos que estão no interior de uma subjetividade maquínica. Esses símbolos não pedem leitura, não requisitam interpretação. Nessa condição, aposenta-se a hermenêutica. Os símbolos são imagens acústicas e visuais que detonam comandos, comportamentos, fluxos de modulação de novos comandos e novos comportamentos. Isso é completamente diferente do movimento de robotização das fábricas, trata-se da automação de comportamentos, de empobrecimento do próprio pensamento. Se considerarmos que tudo isso é feito na indistinção entre “estar off” e “estar on”, então temos de levar em conta a descorporalização envolvida nesse processo. Menos linguagem e menos corpo nas atividades humanas. Menos intelecção afetiva. Ou seja, menos participação de homens e mulheres em seus processos de aquisição de experiências, trocas de experiências, geração de sentidos que, até bem pouco tempo, caracterizavam o que entendíamos como sendo o “conteúdo humano” nas instituições e práticas.

Creio que um exemplo pode ser útil.

Alguém que, de fora, olha para as bandeiras de Israel em uma Marcha para Jesus, quer entender o que elas fazem ali. Quer interpretar o que aquilo diz. É o olhar do escolarizado querendo exercer a compreensão. Essa busca se revela inútil. Não há o que encontrar nessas ligações entre pessoas, bandeiras e crenças. Trata-se de símbolos que detonam o comportamento de adesão, sem que qualquer uma das pessoas ali presentes, que funcionam dentro de uma imensa rede algorítmica, precise fazer uma pergunta do tipo “o que me diz essa bandeira?” A bandeira é uma imagem que é para ser vista pela tela do celular, sendo que este reproduz a própria imagem de quem a carrega, de modo a confirmar a existência daquela pessoa que a vê. Uma ontologia fundada na inflação semiótica junto da deflação semântica. Isso foi teorizado por Guy Debord, quando ele disse que a sociedade do espetáculo iria abandonar a dicotomia ser versus ter, e que ocorreria a hegemonia do aparecer. Todavia, esse aparecer é o aparecer enquanto o que faz um fluxo assignificante continuar sendo um fluxo. Um fluxo de adesões ao que ninguém sabe o que é. A adesão à massa que ali se forma, e que dá a sensação de existência a todos que vão se agrupando à massa.

O interessante é notar que a adesão independe dos líderes. Pode-se trocar o pastor. Mas a Marcha continua, o importante é que símbolos detonadores de comportamentos gregários esteja presente. É ridículo querer achar uma junção teológica entre o Velho Testamento, preferido pelos evangélicos, e a direita política no Brasil que se diz cristã. Isso é querer encontrar significados que, enfim, não existem. Não há mobilização por meio de símbolos significantes, mas sim por meio de sinais assignificantes. Nesse caso, estamos no semiocapitalismo.

A linguagem veio para o mundo do trabalho, da produção, e de início iria cumprir, ainda que de um modo especial, o seu desiderato de estar em função da criação. Mas o modo como a vida econômica e política se desenvolveu, trouxe a própria linguagem para o interior da crescente maquinização da vida. Ora, a linguagem que a máquina precisa não é propriamente uma linguagem, mas um simulacro de linguagem. Máquina se relaciona com máquina segundo um fluxo de símbolos, e na medida em que os humanos são pontos de uma rede como é a infosfera, eles devem funcionar maquinicamente. A subjetividade da época do semiocapitalismo é o que denominamos de subjetividade maquínica. (3) Cada pessoa que vive nesse regime já diminuiu seu repertório linguístico. Por isso, se torna reativa, uma vez que, sem o repertório, se torna incapaz de funcionar como sujeito, de suportar agressões e respondê-las na base argumentativa. Assim, o tempo do semiocapitalismo é também um tempo propenso às guerras jurídicas e guerras de fato.

  1. Paulo Ghiraldelli. Semiocapitalismo. São Paulo-Ibitinga. CEFA Editorial, 2022. E também, do mesmo autor: Capitalismo 4.0 São Paulo-Ibitinga. CEFA Editorial, 2025.

2. Franco Berardi. Pensar após Gaza. Ensaio sobre a ferocidade e o fim do humano. São PauloN-1 Edições, 2025, p. 158.

3. Paulo Ghiraldelli. Subjetividade Maquínica. São Paulo-Ibitinga. CEFA Editorial, 2023.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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