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PETER SLOTERDIK – QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS

Conceitos: Ressonância; antropotécnica; bastardia; sociedade da leveza

1. Introdução

Com Aristóteles, a filosofia antiga nos ensinou a pensar substancialmente. A filosofia moderna, com Descartes à frente, não desobedeceu a regra do substancialismo. Falou em termos da substância extensiva e da substância pensante. Da filosofia moderna para a filosofia contemporânea essa linha de pensamento seguiu seu curso. Expôs então narrativas metafísicas ou parametafísicas baseadas em dualidades: mente e cérebro, sujeito e objeto, linguagem e mundo etc. Peter Sloterdijk pertence à contracorrente dessa via, ele desenvolve uma filosofia dos meios – uma filosofia do “entre”.

Nesse sentido, vejo-o em proximidade com o projeto de Richard Rorty a respeito do que deveria ser a filosofia. A agenda de Sloterdijk expõe um pensamento que privilegia relações e não polos, e toma as narrativas todas sem grandes preocupações de hierarquias epistemológicas. Os itens da filosofia de Sloterdijk são destruidores de dualidades. Além disso, são desenvolvidos em termos antes literários que propriamente científicos.  Trata-se de uma autêntica filosofia contemporânea, inserida em um campo de trabalho nitidamente pós-Derrida.

Antes de sujeito e objeto ou linguagem e mundo, Sloterdijk fala em ressonância, que por si só compõe esferas. Antes da divisão entre natureza e cultura, ele fala em antropotécnicas. Livrando-se da floresta onde moram o idealismo e o realismo, aponta o panorama da bastardia, para mostrar a força das rupturas e inovações. Descreve o que é novo segundo tendências antigravitacionais e de acordo com a criação da sociedade da leveza regrada pela “insustentável leveza do ser”. Com esses quatro termos – ressonância, antropotécnica, bastardia e sociedade da leveza – Sloterdijk elabora uma espécie de grande descrição da modernidade (e da pós-modernidade) que ultrapassa a própria dicotomia ficção versus realidade ou filosofia versus literatura. Esses quatro termos comandam o roteiro a seguir, que diz respeito a uma visão geral e sucinta do pensamento de Sloterdijk.

Do modo como a entendo, a filosofia de Sloterdijk é um grande romance do sujeito moderno e pós-moderno, associado a uma pergunta que, segundo ele mesmo, deveria guiar o filósofo: como é possível um espaço que responda às motivações? Ou ainda: como o hibernante humano pode se instalar e se aclimatar? O texto abaixo pretende, sem perder essa linha heurística, colaborar com o leitor no sentido de adentrar nessas preocupações sabendo-se mover nos livros principais desse filósofo nascido em 1947 na cidade de Karlsruhe, ao sul da Alemanha, bem próximo à fronteira com a França. 

2. Ressonância

As perguntas investigativas básicas de Sloterdijk são duas. Primeira: o que significa precisamente ‘estar-no-mundo’? Segunda: Onde estamos quando estamos no mundo? Há filósofos do fora, do exterior, do aberto. Há pensadores como Sloterdijk, filósofos do dentro, do interior, do ambiente fechado. Estar no mundo é estar “dentro”. Para ele, o homem é um “designer de interiores”, desde sempre, e compreendê-lo é compreender sua domesticidade, sua morada, seu ambiente imunológico. É necessário aqui ter em mente a observação de Heidegger de que enquanto a pedra é “sem mundo” e o animal é “pobre de mundo”, o homem é justamente o “construtor de mundos”. O homem só é homem como doméstico e o ambiente doméstico é mundo enquanto mundo do homem. Essas palavras, no caso de Sloterdijk, valem ontogeneticamente e filogeneticamente, ou seja, tanto para a história do indivíduo quanto da espécie.

Tomando a história do indivíduo, o que vale investigar é o que regra o interior humano: ressonância.

A ressonância é o termo que Sloterdijk introduz para a sua crítica da metafísica clássica, tanto antiga quanto moderna. Considera problemáticas as visões substancialistas e individualistas. Estas são as que descrevem no ponto de partida o homem isolado e, então, gastam todo o resto da energia intelectual filosófica nesse enigma, tentando descrever algo como a natureza humana ou coisa semelhante. Afinal, devem explicar como que o prodigioso bípede-sem-penas chega à conversação e às relações de construção de mundos. Sloterdijk também observa impasse nas visões que socializam ou ressocializam o homem por meio da linguagem enquanto elemento de interação, exatamente porque tais visões acrescentam o Outro abruptamente, que se assim aparecesse não traria nenhuma efetiva alteridade e não poderia explicar a interação. Desse modo, Sloterdijk descarta as escolas oriundas de Descartes e as que foram catalisadas em Habermas ou por Habermas. A palavra ressonância aparece no contexto da noção de esfera, buscando solucionar e/ou evitar esses problemas originalmente metafísicos.

Uma boa descrição dessa saída de impasses metafísicos, proposta por Sloterdijk, pode ser feita levando em consideração a frase de Martin Bubber, que diz que as crianças têm o “instinto de tudo transformar em tu”. Também Sloterdijk advoga essa espécie de sociabilidade antes de qualquer vida social. Concorda com Lacan que a vida psíquica só se explica se levamos em conta o Outro, todavia, ele não põe na conta da alteridade somente a simbologia e a linguagem, mas toda a situação que estabelece, antes disso, a ressonância. A ressonância guarda um “com” e um “lá” que fabrica uma esfera que, no caso do pré-nascimento, é o próprio espaço uterino. O futuro bebê e sua companheira e ampliadora, a placenta, junto com elementos vários e o líquido amniótico, formam um local que potencializa relações sonoras que são antes de tudo relações sinestésicas. Essa sinestesia dos gêmeos (bebê e placenta) acentua-se e recebe logo a mensagem evangélica, as boas vindas enquanto “boa nova”. Nesse interior há o grande aprendizado contínuo de vida conjunta e de, digamos, certa disposição crítica. A sinestesia prepara o ouvido, ainda no útero, para o não enlouquecimento que seria ter de escutar todos os sons interiores, inclusive a barulheira do corpo da mãe. Há aí um iluminismo, um ouvido crítico, que distingue e escalona, e que o faz segundo o que aprende da alteridade, da proteção e aumento de seu gêmeo.

Quando há a passagem do líquido para o meio que é o ar e, então, a placenta se despede, inicia-se a recomposição da esfera. Há a busca de novas ressonâncias para a continuidade da esfera. O som interno do próprio bebê e outros elementos e sons devem agora ser substituídos pelo que a sociedade antiga poderia chamar de gênio ou daimon, que outros chamaram de anjo da guarda, que sobrevive logo em seguida no “amiguinho” imaginário. A ressonância precisa continuar. Entram outros elementos na ressonância, ampliando os limites da esfera: a mãe e não-mãe, o pai etc. Todo esse trajeto de afazeres ganha o mundo psíquico a partir da preparação sinestésica em continuidade com a sonoridade, e arrumam e desenvolvem os elementos simbólicos. Quando a linguagem aparece ela encontra um ser duplo que a desenvolve a custas de uma alteridade feita pela vida essencialmente ressoante que, por si, faz existirem os polos da esfera protetora, imunizadora. A alma nunca é solitária, se tudo corre como o esperado, muito menos sobrevive num “fora”.

A modernidade com a sua cultura individualista e isolacionista jamais deu a devida importância para as narrativas sobre daimons, anjos e práticas de proteção da placenta capazes de gerar uma cultura de guarda da simbiose e alteridade do interior da esfera. Por isso sua narrativa, que privilegia a ideia de “clube liberal” e não de vida comunitária, escorrega para descrições cartesianas e habermasianas. Funciona aí, digo eu, como uma ideologia que não nos deixa ver que somos sempre gêmeos. Diferentemente, a ontologia de Sloterdijk é sempre ontologia do Dois, nunca do Um. Assim, com o filósofo alemão, o problema metafísico do homem isolado em busca de sua natureza ou então ressocializado magicamente pela linguagem é posto de lado.

Sloterdijk faz toda essa narrativa por meio de instrumentos descritivos literários, mitológicos, antropológicos, filosóficos e, principalmente, com o conceito de não-objeto, de Thomas Macho. Inventa o que chama de “ginecologia negativa”, para adentrar o útero e lidar com não-objetos próprios de ambiente onde não há sujeito. Há aí toda uma investigação, em termos da ontogênese, a respeito do “sujeito antes do sujeito”. Trata-se de uma espécie de “arqueologia da intimidade”. Essa narrativa é fundamental para, depois, se entender a narrativa a respeito da sociedade moderna e pós-moderna, a partir da descrição da subjetividade. Os principais livros sobre esse assunto são Sphären I. Blasen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998 e Die Sonne unnd ter Tod. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2001. Vale a pena, também, consultar os ensaios sobre a mudança de meio do homem, que remete a Sócrates, e ao cogito sonoro, que remete a uma crítica de Descartes, no livro: Weltfremdheit. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1993.

3. Antropotécnica

A antropotécnica é o termo cunhado por Sloterdijk para se livrar de barreiras criadas pelas divisões entre “natureza” e “cultura” ou mesmo “biologia” e “história”, especialmente na sua disposição em aliar com a ontogênese uma coadjuvante filogênese. Livrando-se do folclórico Elo Perdido entre o homem e um suposto animal parente do macaco, e utilizando-se de uma terminologia de Heidegger para caminhar por trilhas que este jamais andaria, ou seja, o campo antropológico, Sloterdijk pretende criar o que chama de narrativa antropológica “fantástica”.

O objetivo básico, nesse caso, é falar do Dasein, o ser-aí, sem se envolver com o que teria sido o tropeço de Heidegger, pressupor de alguma forma o homem antes de falar dele. Não há nenhum homem sem antropotécnica e não há nenhuma antropotécnica sem se fazer enquanto dispositivo incessante de criação do homem. Antropotécnicas são técnicas de geração do homem que o fazem existir e jamais parar de alterar-se. Do útero conformado na produção de seres de grande cabeça (somos sempre parecidos com fetos) à engenharia genética passando por inúmeras técnicas de ascese (religiosa, atlética e intelectual) e pela mão mecânica – eis aí as antropotécnicas.

A esfera ressoante é, agora, o ambiente doméstico do homem enquanto elemento da filogênese, e as antropotécnicas são tudo o que permite a própria esfericidade, um ambiente surreal de desenvolvimento do humano. As antropotécnicas básicas, que participam da narrativa filogenética, se fazem por quatro mecanismos: insulação, exclusão corporal, pedamorfose ou neotecnia e, por fim, transferência.

A insulação é o efeito de causas variadas que, enfim, permitem a criação de espaços interiores. Um terremoto pode isolar uma população de animais de seus predadores. Uma colônia de elementos em simbiose pode tornar alguns elementos em paliçada para gerar um dentro e um fora. Em suma, há vários acontecimentos capazes de forjar invernadas naturais. Tais invernadas são ambientes que facilitam a vida dos que ficam no seu núcleo. O interior garante uma situação de mais estabilidade, de melhor clima e imunidade. Torna animais antes gregários e nômades em animais capazes de terem progenitoras que se transformam em verdadeiras mães, e que podem cuidar de suas crias, então tornadas infantes. É possível até dizer, quase que como querendo burlar os darwinistas sociais que fazem a apologia do mais forte (uma variação do mais adaptado), que o processo de isolamento é que criou a possibilidade das mães serem mães, de cuidarem das crias fazendo vingar também os filhos aparentemente menos fortes e em princípio desadaptados. Mas de modo algum esses eram os mais pobres ou mais carentes de dotes e possibilidades.

O segundo mecanismo, o da exclusão corporal, é o que se consegue quando o hominídeo toma ciência de que a pedra está à mão, e que esta parece solicitar seu lançamento. Ela se faz interposta entre ele próprio e outro elemento natural. O corte, o golpe, a batida e tudo que se pode fazer com uma pedra na mão é o que coloca um interposto positivo entre o hominídeo e aquilo do qual ele não quer se aproximar, do qual quer escapar. Mas não se trata aí de uma fuga simples, mas de um modo de evitar o contato corporal, sendo que a pedra é o que é possível de ser colocado entre o corpo e o objeto. O contato com a pedra exclui o contato com o corpo no trato com as coisas. Então, “a técnica transforma o esforço em soberania”. Sloterdijk parafraseia corretamente Wittgenstein: “os limites dos meus lançamentos são os limites de meu mundo”. Eis que o mundo como meio ambiente está já se desfazendo e se recompondo como mundo propriamente dito (lugar histórico e geográfico do homem criado pelo homem). O hominídeo como lançador, operador e cortador é um quase “produtor do claro” para usar uma expressão de Heidegger, seguindo de perto Sloterdijk. Afinal, “o golpe preciso pré-forma a frase”. “O tiro certeiro é a primeira síntese do sujeito (pedra), cópula (ação) e objeto (animal ou inimigo)”. “O corte completo prefigura o juízo analítico”. “As frases são como mimese de lançamentos, golpes e cortes no espaço dos signos, e delas as afirmações imitam lançamentos, golpes e cortes com êxito, enquanto que as negações surjam da observação de lançamentos errados, golpes falhos e cortes frustrados”. Desse modo “quem não quer falar de pedras deve ser calar sobre o homem”.

O terceiro mecanismo evolutivo dá-nos os efeitos mais misteriosos. Nesse campo ocorre a pedamorfose ou a neotecnia. Nascem por essa via os aspectos que estarão mais relacionados com a subjetividade humana. Os traços psicológicos associados aos morfológicos e fisiológicos se mostram segundo esse mecanismo, que implica em aproveitar-se do espaço de invernada, no qual já há os primeiros instrumentos para impor uma “inversão da tendência à seleção”. No espaço de invernada, diz Sloterdijk, “não sobrevive o mais apto no sentido da confirmação de atitudes diante das circunstâncias do meio ambiente que são mais duras, senão o mais afortunado no sentido daquele que conseguiu aproveitar o clima e as oportunidades internas da invernada”. Ou seja, a evolução humana se produz, em boa medida, em um meio grupal que mostra a tendência a “recompensar variações esteticamente favoráveis e cognitivamente mais potentes”. A partir daí, “o homem se encaminha para a beleza, concedida como prêmio bio-estético à distinção”. A verticalidade, antes de tudo, é um fruto estético. O belo é a bússola evolutiva.

No âmbito da atuação desses mecanismos, efetuam-se as chances do futuro sapiens incorporar traços infantis nos adultos da espécie – isso é a neotecnia. É visível que na evolução do homem há uma acentuada entrada de traços fetais, que então se mantém na aparência adulta. Afinal, o espaço de invernada funciona como um útero externo, dando oportunidade de sobrevida aos nascidos com características fetais, como o cérebro grande na proporção com o corpo, a dilatação do tempo de aprendizagem, ou seja, tudo que força a continuidade da simbiose pós-natal com a progenitora transformada em mãe. As qualidades do recinto humano que “mimetizam o útero se estenderam mais tarde aos adolescentes e aos membros adultos dos grupos, e induziram também neles tendências ao retardamento do aparecimento de formas maduras”. Talvez possamos dizer que isso tem a ver com a plasticidade do homem, que é um animal que aprende durante toda a vida, enquanto que outros mamíferos encerram rapidamente o período de aprendizagem e se enrijecem.

Por fim, o quarto mecanismo é o da transferência ou transporte. Esse mecanismo ocorre quando os grupos insulados são invadidos e o local próprio de produção do elemento homem é devastado. Nessa situação, já completamente histórica, o homem transfere o que viveu de bom para a nova situação, mas agora no âmbito da criação de uma imunologia simbólica e psicológica. Recorda-se das situações anteriores de proteção e dá abertura para o nascimento das “religiões reparadoras”. Os mecanismos de transferência fazem com que qualidades do primeiro espaço sejam transportadas para as novas condições, em geral de emergência, de um espaço estranho. Surge então o homem como aquele que se amolda a novas situações, aceitando o que não lhe é campo próprio.

Por esses quatro mecanismos que são as antropotécnicas básicas no campo filogenético, o desdobrar do mundo como mundo interior ocorreu, entre várias coisas, principalmente pelo acalentar vindo de progenitoras que se transformaram em mães, as autoras das promessas impossíveis, as quase mentiras do “tudo vai ficar bem”, quando ocorre algo ao bebê. Essa é a promessa incorporada e, então, tomada como autopromessa pelo indivíduo. Ela é o que Sloterdijk tem em mãos para elaborar sua narrativa de naturalização do sujeito. Mas essa promessa tornada autopromessa não seria possível sem que o homem não tivesse sido aquele que incorporou seus traços infantis. Não só por conta de situações de mal nascimento, que se tornaram próprias, mas pela imaturidade geral que permanece na nossa condição de humanos adultos. Só imaturos podem tomar a promessa “tudo vai ficar bem” como alguma coisa que realmente acalenta, e só ingênuos poderiam fazer esforços próprios saídos da assunção dessa promessa como autopromessa.

O homem é adulto à medida que é eternamente infantil, ou seja, constituído como homem segundo um modelo em que traços de infante perduram. Sua condição de sujeito, então, nessa forma de narrativa em que o sujeito é naturalizado, é efeito de duplo fator evolutivo: sua passagem de cria a infante e suas características de infante na sua constituição adulta. Em termos amplos, ser sujeito é ser criança no adulto.

Podemos ver as antropotécnicas funcionando em toda a obra de Sloterdijk. No referente específico aos casos aqui descritos, os livros principais são basicamente dois: os ensaios nitidamente antropológicos contidos em Nicht gerettet. Versuche nach Heidegger. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlarg, 2001 e pelos estudos sobre “filosofia do nascimento” de Eurotaoismus –Zur Kritik der politischen Kinetik. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlarg, 1989.

4. Bastardia

A bastardia é um termo pelo qual Sloterdijk usa para descrever processos de mudanças com rupturas. Afinal, mudanças são desfiliações. Trata-se de algo que está pressuposto nos projetos pré-modernos, os que indicavam a advento da vida individual. São Francisco é trazido à baila por Sloterdijk.

A história de Francisco é conhecida. Desobediente, ele passou a gastar a fortuna de seu pai em benfeitorias para padres e necessitados. Então, foi levado pelo pai para diante do Bispo, na praça da cidade italiana de Assis, para que o sacerdote lhe desse um corretivo. O pai esperava que o jovem tomasse de modo correto as obrigações da filiação, mas, o que ocorreu foi algo completamente diferente disso. Francisco abdicou do dinheiro do pai e de tudo o mais, e num gesto simbólico de grande impacto, abandonou suas vestes para então negar a ascendência. Seu pai não seria mais o da Terra, e ele invocaria, então, diretamente o pai celeste, o “Pai Nosso que estais no Céu”. Completamente nu, ele mesmo se fez bastardo, deixando de lado genealogia, tradição e filiação, ou seja, qualquer mediação, e passou a uma ligação direta com o absoluto.

Francisco de Assis não foi o único que decidiu por esse tipo de vida. Ele apenas foi o que ganhou o direito de levar adiante o simbolismo. Na verdade, de sua época para diante, a tarefa de imitator Christi tornou-se uma prática de muitos. Os jovens rompiam laços familiares e tentavam se recolher em monastérios ou mesmo em lugares comuns, às vezes segundo uma decisão laica, para viver como Jesus, na simplicidade. As ordens mendicantes se fizeram em conjunto com práticas individuais mendicantes, independentes da profissionalização eclesiástica. Era como que a inauguração do indivíduo moderno, ainda que de um modo paradoxal.  Para poder ser único e, portanto, mostrar-se como um eu bem recortado, a implicação necessária era a de abrir mão de tudo, transformar-se num completo despossuído. A humildade máxima deveria compor a individualidade máxima. Para não mais sustentar filiação paterna e, então, poder iniciar a verticalização e chamar a Deus de único pai, o passo era não subir, mas descer ao máximo, talvez aos infernos, na vida mais sem luxo possível. Não à toa, conversar com os animais podia ser algo bem visto. Igualar-se com o que nem mesmo humano era. Não era um sinal de verdadeira humildade?

Francisco deixou dois ensinamentos que mostram bem como que ele plantou a semente da subjetividade moderna ou, digamos, do indivíduo, e isso de modo bem peculiar. É dele o ensinamento de que “quem a tudo renuncia, tudo receberás”. Também é dele a máxima “tome cuidado com a sua vida, ela pode ser o único evangelho que outros irão ler”. O primeiro ensinamento é aparentemente um paradoxo: como posso receber se renuncio? Seja lá o que eu vier a ganhar, tenho de renunciar e, portanto, o que de fato ganho? Mas o ganho é a renúncia. Eis aí o segredo. É na auto-anulação que emerge o indivíduo na sua imitação de Cristo, formando uma personalidade nova e dando sequência a uma autorrealização que, por assim ser, forja uma incubadora da subjetividade moderna, ainda que, claro, tal autorrealização seja apenas uma não realização.

O segundo ensinamento diz respeito à prática dessa vida individual. Ela própria, como o que se realiza na paradoxal meta de não ter metas pessoais, é a boa nova, ou seja, a mensagem evangélica. O devoto é tornado uma espécie daquilo que se tem para mostrar nas cidades.  Por nada apresentar de especial torna-se tudo o que há para se apresentar. Francisco dizia que o evangelho deveria ser pregado em todos os momentos, e “de vez em quando em palavras”. Ou seja, o evangelho pregado era, na verdade, a vida. A prática deveria substituir as preleções, embora até essas pudessem ser feitas segundo certas necessidades de momento. Não à toa, quando nos referimos hoje a São Francisco de Assis, o mostramos conversando com os que não falam; são os animais, mas estes dão a entender o que querem pelo comportamento. Animais e franciscanos são o que são por comportamento. São para serem lidos por nós ao observarmos seus comportamentos. Francisco desceu ao máximo e se pôs na condição de animal, justamente por um ato de bastardia. Muitos foram junto com ele, mas fora da Igreja, como laicos e protossujeitos modernos que, por terem contado direto com o Pai, não formavam tradição ou nova genealogia. Terminavam ali mesmo, na Terra, a ligação mística com Deus, conquistada graças à formação de um eu cuja característica era a de não se enaltecer. Isso, de fato, se transformou em uma grande preocupação para a Inquisição, bem antes da Reforma começar a apontar a sua cabeça.

Mestre Eckhart deu sequência a feitos do tipo de Francisco. Introduziu uma problemática agostiniana, a da emergência do “homem interior”. Podemos ir do homem exterior ao homem interior se temos maturidade para tal. Podemos cuidar de tudo que é exterior e, por isso mesmo, sabermos distinguir nosso eu interior que se liberta de si mesmo e se volta para si numa perda que é um ganho. O mandamento dessa mística, se pudesse funcionar em uma paráfrase do que veio depois, com Descartes, assim se expressaria: “Desapareço, logo sou”.

Sloterdijk toma essa virada de Eckhart como um indício da bastardia ou, melhor dizendo, como a decisão de não criar linhagens, vinda de todos que se deixaram infectar pelo vírus da imitação de Cristo. Pois uma repersonalização, desse modo, começa e termina no indivíduo. Não há aí vinculação escolar, ensinamento de dinastia, ainda que, diferentes de muitos, Eckhart fosse de uma linhagem, a dos dominicanos. Mas, também naquela época, a Inquisição já estava bem preocupada com essas ordens, a dos franciscanos, a dos dominicanos e outras, todas elas voltadas para a extrema pobreza, para a ideia da vida como evangelho. É como se toda a prática de ser filho de Deus pudesse ser levada adiante por outros, fora do campo da própria Igreja. Ora, sabemos bem no que isso deu, quando chegaram os tempos de Lutero. Dos tempos de Francisco a Eckhart, espraiou-se uma motivação para que muitos se excitassem com ideia um tanto paradoxal de terem uma vida de não excitação.

5. Sociedade da leveza

A noção de sociedade da leveza requer atenção. Para ser corretamente entendida, deve vir aliada à ideia de “insustentável leveza do ser”. Ou seja, nossa sociedade moderna e pós-moderna é leve, mas, por isso mesmo, se torna, não raro, sem ar. Cumprimos com nosso destino de verticalização. Subimos muito e alcançamos camadas de rarefação. Procuramos, então, alguma âncora, algum peso para nos agarrarmos de modo a não voar a esmo e muito algo.

Essa leveza, em seu rosto duplo, é bem significativa no momento que, pelos processos de bastardia, formamos o indivíduo e a própria noção de sujeito moderno e de subjetividade de nossos tempos. Por um lado, o sujeito moderno é o empreendedor que se desinibe por meio de elementos racionais contidos em si mesmo, ou solicitados a seus consultores, de modo a ser o ator que vai da teoria à prática. Nessa hora, ser sujeito é, também, ser aquele que tem segundos pensamentos, que ninguém sabe direito o que pensa e, então, pode surpreender. Muitos chamam isso de liberdade inerente à autonomia do homem, principalmente do homem moderno. Esse mesmo homem moderno, como sujeito, toma a liberdade como a consciência da necessidade. Por outro lado, a subjetividade moderna é também a busca da desoneração completa, a fuga da sociedade em busca de um eu sem máscaras sociais, um eu natural no qual o coração sincero tenha contido inscrições da bondade original. Busca-se então a liberdade no devaneio, no descompromisso, no completo esquecimento, na ultra individualização.

O sujeito moderno é representado, em Sloterdijk, pelos Jesuítas. Eles são desinibidos pela tarefa da Contra Reforma e promovem uma empresa que conquista o poder se pondo a serviço do Papa. Mas a subjetividade moderna na sua característica desonerada é, para Sloterdijk, representada por Rousseau no lago Biel, abandonado em devaneio e, sem passado ou futuro, é levado pelas ondas e pelo seu som cadenciado. Para apontar o sujeito Descartes usou o “pensou logo sou”, enquanto que Rousseau usou, inusitadamente, o não penso logo sou.

Essa face de Janus do sujeito moderno, requisitando desinibição e oneração por um lado e, por outro, desoneração e retiro, se coaduna bem com a sociedade da leveza. Essa sociedade nasce do processo de filogênese e ontogênese de um bípede-sem-penas que é um “designer de interiores” e que só pensa em por e repor espaços de mimo. Quer recolocar o “dentro”, seu “mundo”, sua domesticação no luxo e conforto. A modernidade e a pós-modernidade são, de fato, uma situação alvissareira à medida que refaz as invernadas especiais: criamos cidades, apartamentos, prédios e toda uma arquitetura que chega até mesmo ao condicionamento do ar, criando atmosfera, e que se integra pela comunicação via satélite ou por redes que dizemos “online” como sinônimo de “on air”. Estamos nisso a um passo da leveza como horizonte real. Ou já na própria leveza. Essa leveza é um dado sociológico, e historicamente aquela mostrada na afluent society de Galbraith, que Sloterdijk segue.

É útil repetir aqui as conclusões de Galbraith. Três elementos se destacam e fazem do nosso mundo um mundo de benefícios e luxo jamais visto: em duzentos anos o número de horas de trabalho do mundo todo caiu vertiginosamente gerando um tempo livre jamais imaginado para tanta gente; nas últimas décadas os jovens foram assumidos como crianças, e a própria infância e adolescência se expandiram quase que se confundindo com a idade adulta, o que proporcionou ao mundo um novo apreço pela ludicidade, já requerida pelo tempo livre; por fim, veio a capacidade de nos livrarmos do sexo atrelado à natureza, desonerando a mulher e transformando a atividade sexual em máquina portátil de divertimento. Integra-se o sexo no mecanismo já pedido pela ludicidade expandida. Todas essas condições, que fazem parte da vida moderna contemporânea, são provocadas pela sociedade da super-abundância e ao mesmo tempo a caracterizam. Essa sociedade baseada na expansão da classe média unificou gostos, estilos, comportamento, educação e até mesmo o trabalho. A fronteira entre o trabalho e jogo se perdeu. O jogo já não é mais somente o elemento usado, na dinâmica de grupo, para educar relações de trabalho, ele é inerente ao próprio treinamento do trabalho e ao próprio trabalho. O cume disso é a guerra como jogo de vídeo game e o vídeo game como jogo de guerra. Não há distinções.

Essa é a sociedade do luxo, da possibilidade da “miséria americana” se fazer sem apresentar mendigos ocidentais que tenham algo a ver com qualquer característica dos pobres da África. Trata-se da sociedade do descarte, do excesso de lixo e até da chamada “exportação do lixo” (há navios cruzando os mares por anos, tentando acomodar em algum lugar o lixo tóxico dos países ricos) ao mesmo tempo em que expõe o excesso de luxo. Essa modernidade tem em seu seio a individualização que convive com a sociedade de massas, onde o indivíduo se vê como mais real que aquilo que está à sua volta, onde pais e filhos não se distinguem, onde horas de trabalho e lazer se fundem no lúdico-trabalho. Nesse espaço, se não há nenhum entretenimento imediato à vista, pode haver então o sexo solitário ou virtual, o que em geral dá no mesmo.

O sucesso do esporte e outras maneiras de voltar a ter peso, em busca de performance, denota a busca de, na leveza, readquirir a alguma coisa que nos diga que estamos no real. Se o reino da necessidade desaparece, nós o recriamos numa fantasia que se faz real por meio de religiões punitivas reintroduzidas, pela esportização do mundo, pelo ativismo e tarefas de todo tipo que ganhem a aparência da seriedade de antes (isto é, peso) quando achávamos que trabalhávamos em função de algo seriamente necessário.   

A introdução de algum peso na leveza da sociedade é significativa principalmente na opção de jovens ocidentais pelo terrorismo que se diz islâmico. Em um vídeo que correu o mundo por conta de atentados terroristas em Paris, em 2015, um jovem ocidental, convertido ao Estado Islâmico, dirige um carro que arrasta vários cristãos e outros “infiéis”. No vídeo, ele explica: “antes eu vivia puxando skates e carrinhos de rolimã, agora eu puxo esses infiéis”. É como se dissesse: saí da vida fútil, agora faço algo duro e imponho a dureza, volto a trazer peso ao mundo. Que ninguém faça pose de Ícaro!

Junto com Sloterdijk podemos dizer, então, que “o fim da força de gravidade” nos conduz a uma nova era, a da “distensão da subjetividade” diante de todas aquelas veneráveis definições de mundo afeitas à invocação da seriedade. Para falar em termos metafísicos: a substância monótona e pesada é então infiltrada pela leveza e pela ambiguidade. O nome utilizado por Sloterdijk é “giro em direção à leveza”, que leva a modernidade a um “experimento de levitação expansivo e transcultural”. Admite-se então que o “conceito de civilização tem como premissa o de antigravitação”, isto é, trata-se da imunização diante da gravidade, da super-gravidade que funciona com uma força paralisante das ações humanas desde sempre. Todavia, é justamente nessa situação que aparece a criação da simulação da necessidade, já que esta parece perder sentido. Surgem os fenômenos da recuperação da disposição heroica em uma situação em que qualquer heroísmo não significa mais nada. Sloterdijk fala do personagem que comentou que a Primeira Guerra existiu para que ele pudesse provar que não era um covarde. Segundo o que penso, podemos lembrar algo como a viagem do jovem William James ao Brasil, uma forma de ir para uma aventura de homem adulto e, assim, compensar sua debilidade que o impediu de participar da Guerra Civil americana.  Nasce aí a re-oneração intencional. O homem não consegue admitir a despedida da necessidade, ainda que, desde seu surgimento, ele já apontasse para uma leveza que outros seres nunca conheceram. Assim, “no desporto, no consumo, nos empreendimentos e, recentemente, também nos ativismos sociais outra vez” se chega a uma “conjunção de trabalho e jogo” não previstos. Sloterdijk cita Nietzsche para endossar aqui uma maneira quase próxima da ideia de “masoquismo primário” como uma explicação para essa situação. Nietzsche é quem diz que ‘o ser humano sente autêntica voluptuosidade em deixar-se forçar por demandas excessivas’.

Os tempos contemporâneos nos dizem que a existência desarmada tem falta de juízo crítico interno, e daí surge o sujeito que se sente exposto a uma desoneração banal. Sua leveza se mostra quase como que um dano. Sente-se como que separado do que realmente poderia lhe causar um dano. Torna-se indiferente a si mesmo, e com certa razão, uma vez que a maneira que vive coloca tudo o que empreende como fácil e, então, não real. Afinal, o real tem que ter peso! Uma vida sem comoção entedia. O tédio nada é senão um experimentar o tempo como dilatação interior, uma vez que não se chega a nada significativo. Surge o animal sem missão, que precisa então engajar-se em algo e se por entusiasmado, ainda que artificialmente. É necessário matar o tempo preenchido pelo tédio, mas isso nada é senão mais tédio infestando toda a existência. O desonerado perde o sentido de existência, pois tudo que entendia como existência dependia de algum esforço, algum peso. Assim, o tédio profundo é a “inexistência realmente existente”. O homem mostra-se um “Atlas negativo”, aquele que na existência inexistente tem que “suportar a total falta de peso do universo”. O ter-que-fazer-agora é amputado do mundo.

A modernidade é a época da expansão da ideia de que o dinheiro traz para casa, e também bota para fora de casa ou simplesmente faz desaparecer, tudo que antes possuía identidade fixa. Sloterdijk nos convida para ver que essa situação não é de oneração, mas, se comparada com o regime de pertença, uma realidade mais desonerada. Nessa passagem para o universo do dinheiro, todas as dimensões essenciais do ser são modificadas por meio da transmissão monetária. Há acesso a lugares antes jamais pensados como espaços de nossa frequentação, e para tal basta nos colocarmos como compradores de títulos de transporte, ou como usuários da mídia; há acesso aos bens materiais, se nos colocamos como os usuários de meios de pagamento os mais variados; além disso, encontramos mais pessoas se exercitamo-nos nessas duas práticas. Em uma situação pré-moderna, todos esses acessos estavam restritos a grupos e, no interior desses, não raro, impossível para todos.

Sloterdijk diz que “a vida do mercado demole convicções, os monismos e as originalidades brutas, substituindo-os pela consciência de que existem sempre possibilidades de escolha e saídas laterais”. “Tal significa, consequentemente, que as pessoas ficam mais pálidas e os objetos mais coloridos. Mas os incolores são chamados a escolher dentre as colorações. É soberano quem decide a cor da estação”. Decidir a cor da estação é a tarefa principal de estilistas. A moda é a derrota do costume, escreveu Gabriel Tarde. Ora, o regime de monetarização permite exatamente essa vitória do efêmero e sazonal, e põe os estilistas como capitães a respeito do que pode e não pode ser utilizado do arco-íris. São os profissionais mais significativos de frivolidade séria, da arte que transforma o corpo – obrigando todos à anorexia – e da competição desportiva que se instaura de uma vez por todas como o que deve preencher o dia. Os desfiles de moda são desporto. São sérios não como arte, mas como desporto. Nisso se fazem exercício que precisam ser levados por personagens não marcados por divisões pré-modernas. Não à toa os capitães da escolha da cor são figuras da apoteose da androgenia.

Há nisso tudo uma mutação psicossocial. A modificação ontológica traz modificações cognitivas. As identidades fixas desaparecem ou se tornam o que sobra para perdedores, e, então, é o construtivismo que se mostra como o que pode nos dar ideia sobre as coisas todas. Como é o construtivismo? Tudo que encontramos é, logo em seguida, mostrado por nós mesmos como inventado, construído. Tudo tem algum manual de construção ou uma ‘política’. O natural perde espaço ou se reordena como parte da cultura. Os limites entre o natural e o cultural tendem a desaparecer de vez. Aliás, na própria teoria de Sloterdijk, isso alude ao que ele chama de “antropotécnicas”. Não se trata mais de ver o homem como um ser natural que produz cultura, mas simplesmente como o que é efeito de “antropotécnicas” que não distinguem entre o útero e o não-útero ou que, na filogênese, elimina de vez o mito do “elo perdido”.

A parcela da sociedade com algum poder de compra nota nessas condições uma forma de desoneração que resulta da necessidade que se transforma em liberdade. Ora, na verdade, onde havia necessidade, advém o capricho. Junto do tédio que corre amigo da paz permanente e do divertimento contínuo, também surgem os que olham para tudo de modo a falar do peso. Somente nessa sociedade desonerada, com espaços de mimo ampliados e modificados, pode-se criar a palavra stress. O estresse jamais existiria numa sociedade que não fosse leve. Aparece justamente porque podemos por alguns minutos ver o quanto é oneroso vivermos numa situação que, sendo de desoneração contínua, adquirimos mais facilidade para ficarmos cansados por pouca coisa.

Os espaços de mimo de uma sociedade assim se desenvolvem em cinco níveis.

Primeiro, é que com o dinheiro aparece o “poder de compra”, o que torna as coisas como de acesso facilitado.  Há algo de mágico no dinheiro. Não à toa, em 1509 apareceu o herói Fortunatus, com uma bolsa em que surgiam quarenta moedas de ouro tão logo as primeiras quarenta fossem gastas.

Em um segundo nível, há a paz e, portanto, uma desagregação rápida da virilidade histórica. Isso é apoiado pela mídia e, logo em seguida, toda forma de androgenia, feminismo e homoerotismo é felicitada.

No terceiro nível vê-se um aumento assustador a respeito das expectativas de segurança. Tudo é seguro. E o que não é seguro, então, deve ganhar algum nível de segurança. Bombeiros se tornam o passado no presente. Pois o presente mesmo pertence aos planos de saúde, medicina preventiva, engenharia genética e as seguradoras e companhias de proteção da vida civil proliferam de modo a modificar a noção de futuro. O impulso à frivolidade abarca a todos. Com isso aparece o risco permitido, como se não fosse um risco! Os esportes radicais são isso: uma nova forma de aventura porque o risco parece não existir. A própria guerra é assim tomada. Muitos soldados americanos se acreditam invencíveis, e de certo modo o são mesmo.

Em um quarto nível há a substituição de uma cultura que advinha da formação, da Bildung, por uma nova cultura desonerada que é a da consulta a terminais de informação de todo tipo, inclusive já há vinte anos ligados em rede mundial de computadores. A pesada pessoa culta, aquela cuja biografia casava-se com os livros que lia, torna-se incompreensível para os que dizem saber algo hoje em dia. Ninguém mais tem experiência, que é algo que onera, só há o que está no âmbito do “descarregar”, e por isso mesmo o mecanismo de acesso e homogeneização rápida do saber tem o nome de download.  Com isso, como diz Sloerdijk, “perfila-se um regime de cognição pós-pessoal, pós-literário, pós-acadêmico”.

No quinto nível do sistema de conforto que reordena o espaço de mimo ocorre a democratização inaudita da facilidade e rapidez para se tornar célebre por não fazer nada de tão importante, e também por desaparecer logo em seguida. Há uma época da “glória dos artistas sem obras”.

Claro que os novos desonerados podem se parecer bárbaros. A infantilização é algo pelo qual sempre lutamos, mas quando a temos, ela parece ser um problema. Há sim algo de barbárie nisso. Mas não tanto, afinal, devemos sempre lembrar que Mussolini dizia que “o fascismo é o horror à vida confortável”.O livro que descreve a sociedade da leveza é, basicamente, o Sphären III. Schäume. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004. As teses complementares aparecem no Sphären II. Globen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1999. Os temas da subjetividade, posta pelos jesuítas e por Rousseau, encontram-se respectivamente em: Im Weltinnentaum des Kapitals – Für enie philosophische Theorie der Globalisierung. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2005; Streβ und Freiheit. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2012. Uma subjetividade superadora está nos estudos sobre Nietzsche, nos estudos sobre energia timótica, nas questões do ascetismo com algo para além da religião e, também, nas questões envolvidas com a epoché, necessária aos filósofos e intelectuais. Respectivamente nos livros (todos da Suhrkamp Verlag): Über die Verbesserung der guten nachricht: Nietzsche fünftes “Evangelium” (2001); Zorn und Zeit (2006); Du muβt dein Leben ändern (2009); e Scheintod im Denken (2010).

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Notas:

  1. Bubber, M. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2013, p. 67.
  2. Há versões de Sphären I em inglês, espanhol, francês e italiano. No momento em que escrevo a versão em português está traduzida na Editora Estação Liberdade, mas sem data de publicação prevista. Há versão de Die Sonne und der Tod em português de Portugal, além de versão em inglês.
  3. Heidegger diz que as plantas e animais estão mergulhados no seio de seus ambientes próprios, “mas nunca estão inseridos livremente na clareira do ser – e só esta clareira é ‘mundo’ –, por isso, falta-lhes a linguagem. Não é porque lhes falta a linguagem que eles são sem mundo. Linguagem não é expressão de ser vivo. Linguagem é “advento iluminador-velador do ser”. Ela vela o ser, ilumina-o. “A clareira em si é o ser”. Clareira é ser, é mundo, e a linguagem que vela o ser, ilumina-o, é a “casa do ser”. Quando Sloterdijk diz que se está produzindo o claro (no lançamento da pedra que é análogo à linguagem), ele está dizendo que está se produzindo o ser, o mundo, pois ao se produzir a linguagem se está produzindo a casa do ser. Pode-se ver: Heidegger, M. Carta sobre o Humanismo. Lisboa: Guimarães, 1987, pp. 48-60.
  4. Nicht gerettet tem uma versão em espanhol e Eurotaoismus tem uma edição em português de Portugal.
  5. Esses livros possuem versões em inglês, espanhol, francês e italiano. O volume III da trilogia das esferas em inglês estápara sair. Exceto a trilogia das esferas e o Du muβt dein Leben ändern, todos os outros possuem versões em português, de Portugal ou do Brasil. O Scheintod im Denken recebeu em inglês o título de The art of Philosophy.

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