Naturalizando o surgimento do sujeito, Peter Sloterdijk o faz emergir, entre outros elementos, em estreita condição de correlacionamento com a função materna de criar promessas. Elas devem se tornar autopromessas. Sloterdijk dá a isso o nome de uma “filosofia do nascimento”, e ele a inclui na sua interpretação do niilismo, como diagnosticado por Nietzsche. Explico em seguida.
Nietzsche anunciou o niilismo como a “desvalorização de todos os valores”. Trata-se da perda dos mais altos valores como sinal do que seria o desdobramento da modernidade, a começar pela expressão “Deus está morto”. Também o nominou como uma “perda de sentido”. Quando o homem descobre “como esse mundo só foi construído por carecimentos psicológicos e como ele não tem absolutamente nenhum direito a esse mundo, surge a última forma do niilismo, que encerra em si mesma a descrença em um mundo metafísico – que veda uma crença em um mundo verdadeiro”. (1)
Por sua vez, Peter Sloterdijk vê o niilismo como associado ao historicismo, coisa que efetivamente já está em Nietzsche desde seus primeiros trabalhos. Afinal, se a própria filosofia já havia se tornado história da filosofia, ninguém estaria de fato abraçando qualquer sistema de valores. Até mesmo os filósofos teriam se tornado professores enquanto meros expositores de doutrinas, cada uma com sua validade segundo sua época.
Nietzsche foi quem, nos anos setenta do século XIX, lembrou que o homem moderno podia assumir ideias do mesmo modo que veste seu sobretudo, utilizado apenas para a rua, não para o interior da residência. “Cultura histórica e sobrecasaca burguesa andam de mãos dadas” – disse ele. (2) Afinal, Kant havia mesmo aconselhado esse comportamento em seu célebre texto sobre o Iluminismo, com a divisão entre dois usos da razão, um para o serviço público, obediente ao príncipe e aos usuários, e outro para sua crítica pessoal, no recanto do seu lar à noite, e possível de se tornar pública pela palestra ou livro divulgada em meios preparados intelectualmente. (3) O historicismo, então, teria sido o resultado da modernidade que se iniciou insistindo na historicidade e no relativismo dos valores, contribuindo com o seu aparentemente adversário, o positivismo, que simplesmente aboliu valores perenes do campo suprassensível.
Essa desvalorização e perda de sentido se faz presente na “vontade de nada”, a própria manifestação constante do niilismo. Sloterdijk lembra que talvez no próprio escrito de Nietzsche se possa ver o niilismo não só como uma filosofia da história, mas um tipo de ontologia, ou de antropologia, em que o que se apresenta é mesmo a “estrutura da existência”. O nada não seria hóspede da vida, mas hospedeiro. O nada ou o “elemento sinistro” vem mais a ter conosco do que nós entramos nele.
Sloterdijk cita, nessa sua reflexão sobre o niilismo nietzschiano, um conto infantil que diz muito sobre o assunto. Ele fala de personagens de A história interminável, de Michel Ende. São três duendes que aterrorizam o herói. O primeiro duende anda sobre as mãos, pois lhe faltam as pernas e o baixo ventre. O segundo tem um buraco enorme no peito, dando vistas para o outro lado do corpo. O terceiro pula sobre a única perna, a direita, pois todo o seu lado esquerdo é inexistente. Os duendes explicam que aquelas falhas haviam sido produzidas pela vinda do espalhamento da destruição, a vinda do nada. Eles são os que não quiseram fugir da floresta, sua terra natal, e foram pegos pelo nada. O herói pergunta então se aquelas faltas lhes trazem dor, e eis que todo o segredo do vazio é revelado: ‘não, a gente não sente nada. Apenas sinto que falta qualquer coisa. E, cada dia, falta mais, quando se está atacado por isto. Em breve, já cá não estaremos de todo’. (4)
Esse nada captado pelo conto infantil precisa ser explicado, segundo Sloterdijk, caso se vá a Nietzsche de modo mais fundo e caso seja possível apreender, para além de Heidegger, as situações que tem a ver com os elementos mais primordiais a respeito da formação do sujeito. Esses elementos não devem ser procurados em situações estratosféricas, mas no mundo do homem como ser fruto da Terra.
Na busca da explicação do niilismo como o que pode ser contado por uma narrativa que fala em bases naturais e antropológicas para o sentimento do nada – algo que em Nietzsche se transformou em uma útil filosofia da história –, Sloterdijk dá mais um passo na sua teoria da subjetividade.
[Quer saber mais? Quer saber com cada um de nós, ao nasceu, não cai no abismo profundo do niilismo, do desespero, que aparece como comum em outras teorias sobre o nascimento? Veja o meu livro Para ler Sloterdijk, da editora Via Verita.]
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
- Nietzsche, F. Apud, Heidegger, M. Nietzsche II. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 41.
- Nietzsche, F. Considerações intempestivas. Lisboa e São Paulo: Presença e Martins Fontes, 1976, p. 145.
- Kant, I. Resposta à pergunda: que é ‘Esclarecimento’. In: Kant textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1985. Para uma leitura já clássica do texto de Kant: Torres Filho, R. R. À sombra do Iluminismo. In: Ensaios de filosofia ilustrada. São Paulo: Brasiliense, 1987.
- Sloterdijk, P. A mobilização infinita. Lisboa: Relógio D’ Água, 2002, p. 119.
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