Christopher Lasch não é referência para o nosso tempo. Sua ideia de narcisismo e de sociedade voltada para a terapia não deveria enganar os leitores. Mas engana os menos estudiosos. Palavras como “narcisismo” e “terapia” estão na moda, mas se as tomamos na ótica de Lasch e, de certo modo, no sentido do senso comum atual, rapidamente construímos narrativas que ficam distantes do que os jovens andam fazendo, e alheios ao que a infosfera pede.
Para citar alguém que erra sempre, e que até por isso nos ajuda no âmbito didático: Pondé cita Lasch para dizer que o segredo do engajamento nas redes sociais é falar de si mesmo de modo abrir a vida intima a respeito de seus sofrimentos (Folha, 19/05/2025). Ele acha “brega”. Mas tanto faz, pois ele está equivocado. O que ele condena é aquilo que a direita chamava, até pouco tempo, de mimimi. Não faz mais isso, uma vez que ela própria tem se tornado mimizenta. Mas, nem poderia fazer, pois o mimimi não tem mais onde vingar. Ora, os tempos atuais, no campo hegemônico dos influencers, não tem mais essa prática. O neoliberalismo pegou, e uma espécie de narcisismo sem narciso vingou. O que isso significa?
Os que buscam engajamento em redes sociais falam de si, mas o eu que colocam em evidência não é único. Não há um Narciso. Há avatares. Há rostos que se apresentam segundo a ocasião. Uma pessoa não é única, é um conjunto de senhas com as quais mostra rostos convenientes para a ocasião. Há uma cinismo nisso. E há um lema para tais rostos: ostentação, mostrar sucesso e, se houver algum sofrimento a ser exibido, é para vir junto não com uma terapia séria, mas com uma pseudoterapia que visa mostrar a existência de mais um caso de “superação”. O lema é este: “reinvente-se”. É uma variante do “empresário de si mesmo”.
Não há espaço no mundo dos influencers, na infosfera atual, para uma manifestação de busca de justiça social, real ou mesmo em torno de um coitadismo. Não estamos mais nos ecos do capitalismo que bancou o estado de bem estar social, e nem mesmo na crise deste. O neoliberalismo é vigente já faz quarenta anos. Ele entra e sai de sua própria crise. A financeirização veio junto. A internet veio depois para coroar ambos. A disputa do anos setenta, “ser versus ter”, perdeu para o “aparecer”. O tempo da mercadoria material perdeu para o tempo da mercadoria imaterial, daí a vigência agora, mais do que nunca, da “sociedade do espetáculo”, a vida dominada pela imagem. Ora, a imagem de si oferecida não pode ser única. Ela deve estar no mesmo diapasão do que é oferecido ao cidadão. Este, sendo antes de tudo usuário, é alguém com vários rostos cifrados, abertos por senhas. Servem para o engodo da vez. Virgínia Fonserca que o diga: um rosto para ser mãe, outro para posar pelada, outro para promover jogatina maldosa, outro para cantar, outro para ir em uma CPI, outro para não pagar impostos e por aí vai. Não há falsidade, há cinismo. As pessoas se acostumaram como o cinismo. Vivem na época do narcisismo sem Narciso. Afinal, Narciso era um, agora, mil máscaras não indicam um por detrás, indicam um projeto camaleônico.
A cada rosto, uma reivenção, uma ostentação e, se for para mostrar algum drama – por exemplo, o famoso abuso sofrido na infância – que seja para logo em seguida exibir a superação. A própria terapia não é terapia, é parte da ostentação. Os cultos religiosos seguem o mesmo tipo de requisição de engajamento. A arte perde para essa banalização. Chistopher Lasch fica no passado. Pondé fica no erro, uma vez que ele lê pouco, estuda nada, e entende menos ainda.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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De tudo um muito, não há fuga a esta contradição/hipocrisia. Há um “vazio denso”, youtubers, influencers, políticos, coaches, e agora um novo tipo de sofistas (para didatizar e situar o termo, assim o fosse, aquém, infinitamente, destes) que se apresentam como filósofos/intelectuais, entretanto, um pouco de acuidade e se vê como antigos fofoqueiros de revistas de tititi, agora gourmetizados.
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