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O que é Maio de 68? Aquele tempo e o nosso tempo

O que é o Maio de 68? O cume de movimentos sociais – com estudantes e trabalhadores à frente – no mundo todo, mas especialmente na França e Estados Unidos, e com ressonância no Leste Europeu através da Primavera de Praga, que desejavam novos modos de vida, em torno de liberdades individuais ampliadas, igualdade de oportunidades (com olhos em minorias, especialmente negros e mulheres) e justiça social. O caráter libertário, com o slogan “é proibido proibir”, dava o tom geral das manifestações.

Não quero aqui falar da Primavera de Praga, o Maio de 68 deles. Quero falar do nosso. Particularmente, quero lembrar uma leitura comum da juventude da época, que fez eco nos anos posteriores: Marx e Freud, e a junção entre eles. No Maio de 68 eu ainda era criança, estava na escola primária, mas já sabia ler. Escutava e lia nomes que, logo depois, vieram a povoar os livros que cultivei. Iniciei o colégio em 1973. Reich era uma das sínteses para a qual dávamos atenção.

Durante bom tempo quis entender como que ocorreu Maio de 68. A juventude estava relativamente calma. Os operários estavam nas fábricas, seguindo ordens. Repentinamente, bum! Todo mundo resolveu protestar por alguma coisa. Operários fizeram greve. Estudantes fizeram greves e iniciam cursos livres. Movimentos de todo tipo engrossaram passeatas. A Guerra do Vietnã se punha como o inimigo de todos. As questões da vida cotidiana e familiar eram denunciadas como opressoras, e, junto disso, mulheres queimavam sutiãs em praças. Havia euforia. Mas era entusiasmo de um teor completamente diferente daquele de quatro anos antes, quando os Beatles chegaram à América e trouxeram frenesi às garotas de mini-saia e blusas colantes. O que proporcionou tudo isso?

Richard Rorty e Peter Sloterdijk, dois filósofos a quem dediquei traduções e livros, concordam com uma tese que me é cara: não pensamos bem em crise ou miséria, pensamos bem e desejamos mais quando já estamos em boa situação de vida material. Não somos movidos por fracasso e sofrimento, mas por prosperidade e felicidade. O mimo move os homens. O mimo é irmão da esperança. Foi a vigência do estado de bem estar social, nos trinta anos do pós-guerra, que proporcionou Maio de 68. Pois criou o mimo. Ou quase! Deu às pessoas mais tempo livre, salário indireto, escola pública, melhoria na saúde. Isso fez surgir um operariado jovem mais culto. E fez os filhos dos velhos operários cursarem a universidade. Os Estados Unidos teve, pela primeira vez na história, uma fantástica redução da vala entre ricos e pobres. Boa parte do mundo prosperou. Esse tipo de vida fez com que muitos jovens pedissem mais. Fez com que quisessem mais para si mesmos, através de liberdades individuais, menos militarismo, e quiseram ver seus pais, nas fábricas, menos sujeitos ao que se passou a chamar de “trabalho alienado”. Veio o movimento social para além de partidos, e uma pergunta ecoava: o que faz revolução acontecer?

A revolução estava no horizonte. Uma revolução socialista? Não! Uma revolução de tudo. Tudo deveria ser modificado. Era como uma espécie de revolução do tamanho do mundo. Mas, haveria revolução como? O que poderia segurar a revolução? O que poderia fazer, como no passado já havia ocorrido, uma trava na ação dos operários e dos estudantes, enfim, do povo em geral? Era precisa saber o que poderia comandar as ações do homens por detrás de suas costas, por cima de suas cabeças. Por isso Marx e Freud deram o tom das leituras. Marx dizia que o capital comandava as ações, sem que pudéssemos decidir e sem saber que era ele, com seu desejo de crescimento contínuo, que tomava à frente da vontade humana. Freud dizia que cada homem e cada mulher decidiam suas vidas por meio de forças inconscientes, que haviam sido articuladas em suas infâncias. Era necessário saber do movimento do capital e das disposições do inconsciente para melhor conhecer as possibilidades de homens e mulheres agrupados, juntos, querendo a revolução e podendo decidir por ela. Haveriam leis na história social e leis nas histórias individuais, e sem Marx e Freud parecia impossível saber como elas funcionavam. Foi isso que impulsionou o freudomarxismo naquela época.

Quando Maio de 68 se sentiu derrotado. Quando vieram os anos setenta, nasceu uma literatura de crítica a Marx e Freud, ora negando-os, ora reformulando-os. Freud tinha de ser abandonado porque o Complexo de Édipo, dizia-se, não explicava muito. Que viesse Lacan, com Narciso para ajudar Édipo. Marx havia sido atrelado a Lênin, e a revolução mostrada nesse esquema não teria tido vez, o importante era fazer algo no âmbito de uma visão mais a longo prazo. Então, Gramsci cumpriu foi o Narciso de Marx, ele veio na ajuda da atuação da esquerda política, para reformulá-la. Mas, de certo modo, não deu tempo.

Foi da década de setenta que Nixon retirou o padrão ouro do dólar, deixou o mundo sob o comando de uma moeda fiduciária mundial. A partir daí, os setores conservadores foram desenterrando teóricos que haviam formulado, anos antes, uma crítica do estado de bem estar social. Eram os neoliberais. Eles ensinaram que o correto era flexibilizar tudo, tirar leis, por para baixo políticas sociais, trazer o estado enxugado, fazer da produção algo menor que o sistema financeiro – este é que faria o acúmulo do capital e poderia, então, ampliar investimentos e empregos novos. Então, a ideia de dinheiro a juros voltou a ser a grande ideia do capitalismo. Marx tinha de ser banido. Freud tinha que ser domesticado, e de fato foi, pela psicanálise de tipo americana, preocupada em terapias individuais que vieram a favorecer curas para a doença de então: não existiriam mais mulheres histéricas, mas sim jovens narcisistas.

Se todo mundo havia ficado meio histérico, caberia então eleger outro tipo de doença mental coletiva. O narcisismo tomou conta das novas clínicas e da psicanálise. Chistopher Lasch produziu seus livros denunciando o narcisismo dos jovens americanos. A sociedade americana que ele denunciou era aquela que já estava chegando ao fim. Ele não compreendeu o neoliberalismo que estava se fixando.

Foi assim que, durante bom tempo, Marx e Freud continuaram antes como clássicos, mas não mais como guias de ação. E foi assim que a revolução se tornou um tema do passado. O desdobrar dessa história, que se deu nos anos noventa e o início do século, é algo mais conhecido de todos nós. Sob a égide da lógica do novo capitalismo financeiro, nasceu a internet. Rapidamente esse mecanismo deu cobertura para a situação que vivemos: boa parte dos clássicos estão gratuitos na internet, mas a leitura perdeu para as imagens. Estamos no mundo da proliferação dos símbolos sem significado, uma inflação semiótica junto de uma deflação semântica. Este é o fruto cultural e tecnológico do capitalismo financeiro. Chamamos essa nossa época de o tempo de vigência do semiocapitalismo. Neste o capital se tornou um operador semiótico.

Parece que, agora, se quisermos saber como as pessoas decidem o que decidem, temos de conhecer não só os movimentos do capital e o inconsciente, mas o funcionamento dos algoritmos e o modo como deixamos a Inteligência Artificial decidir por nós.

Não creio que narrativas de Marx e Freud não nos ajudam a entender a vida que levamos, mas creio que precisam ser consideradas no conjunto das determinações do que um marxista, significativamente, tratou como “a sociedade do espetáculo”. O livro com este nome foi escrito em 1967, por Guy Debord. Infelizmente, hoje em dia, as pessoas pensam que Debord falou das comunicações e do marketing. Mas o que ele anunciou é que a dicotomia do freudo marxista Erich Fromm, ter ou ser, havia ficado de lado, em favor da nova ordem: o aparecer.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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