Há pais que botam a filha para fora de casa, caso ela apareça com uma gravidez solo. Sim, isso ainda existe. Há pais que nem sabem se a filha teve alguma gravidez. Como isso existe! Esses tipos de paternidade não aparecem nos jornais. O que aparece, e que se torna objeto de deleite dos livros sobre paternidade e maternidade que psicanalistas produzem aos borbotões, é outra coisa. É a paternidade de certa classe média, em geral escolarizada, ou ao menos midiática. Nesta, vira e mexe, surgem certos casos um tanto fora da curva, se tomados individualmente. Mas formam uma certa tendência quando olhamos de um modo mais geral.
De quando Rousseau criou a noção de infância moderna até os dias de hoje, a ideia básica das classes médias e tomar a criança como a negação do “adulto em miniatura”, que era a noção de criança de Locke. O século XVIII praticamente inventou a infância, negando o que o século XVII pensava das crianças. De lá para cá, ampliamos os anos da infância e juventude, e passamos a construir um mundo no qual os filhos vieram a ter um lugar especial de habitação e cuidados. Ampliou-se os cuidados para com os filhos. Fomos bem longe nisso tudo. E ainda não paramos.
Atualmente a classe média ou, ao menos os setores midiáticos, querem que seus filhos sejam livres. Mas essa liberdade implica em um estreitamente de laços entre pais e filhos que não raro soa estranho. Acostumados a terem a vida altamente programada (escola, judô, aula de línguas, etc), os rebentos imaginam que são peças de um vídeo game, e eis que deixam de lado a ideia de busca experiência, solicitando dos pais que tracem todos os seus caminhos, até mesmo os pertencentes à intimidade. Tornam-se aptos a experimentos, a negação da experiência.
Claudia Raia disse em podcast que “produziu” o ambiente no qual a filha perderia a virgindade, e isso a pedido da filha. Ao mesmo tempo confessou que seu filho, agora com 28 anos, conta segredos de alcova para ela, a fim de orientação. Pai e mãe se imaginam amigos dos filhos, mas viram colegas. Mas continuando oficialmente sendo pai e mãe, são os protetores efetivos, e quando adentram a intimidade dos filhos retiram deles a possibilidade de ter experiências, e os impedem definitivamente de ter vida adulta. A maturidade é atrasada e, em alguns casos, passa da época de vir. Esse fenômeno é possível de ser visto em todos os países que forjaram uma classe média relativamente abastada, e que se torna o setor mais semelhante entre si em todo o mundo.
Não há nenhum problema dos filhos “aprenderem sexo nas ruas”. Jovens aprendem sexo com jovens, e às vezes, com mais velhos. Se aprendem, agora, com pornôs da internet, isso não deve ser preocupante. Pois logo, na prática, se readaptam para pode fazer o sexo real. O que não podem fazer e não devem fazer, claro, é aprender sexo com seus pais. Isso quebraria a própria intimidade dos pais. Nem cabe aos pais programarem a vida íntima dos filhos. Pais servem como retaguarda, e quando ultrapassam isso, mostram que pode ser que os problemas não estejam com os filhos, mas com os pais. Os problemas dos filhos está para surgir, a partir da impossibilidade de adquirir suas próprias experiências. O amadurecimento amoroso, que é um dos pilares do amadurecimento espiritual, é uma relação do jovem com o exterior de sua casa. Aliás, é justamente o relacionamento amoroso que marca uma etapa da vida, a de saída de casa, a etapa de início das escolhas para a construção da própria família – a família que se constrói, diferente da família de onde se veio. É simples assim. Mas a classe média e os midiáticos não podem viver no simples. Estão complicando demais.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Eu queria perder a virgindade com a Cláudia Raia quando era moleque.
Talvez não seja tão ruim assim, esta nova experiência da classe média liberal. Provavelmente, a classe média baixa conservadora faz exatamente o contrário, se engravidar, é expulsa de casa. Ou não, este segmento vê como mais um braço para ajudar no domicílio após certa idade.
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