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PAPA TRUMP – o capital como operador semiótico

Trump fez uma imagem dele próprio como Papa. Publicou na internet em conta oficial. É um deboche. Ele atinge a religião. Despreza o povo americano à medida que se comporta como moleque. Além disso, cria no mínimo uma querela diplomática, pois o Papa é também um chefe de estado. O Vaticano é um estado.

Que “tudo tem finalidade” é um raciocínio muito cômodo, que Aristóteles ensinou a todos, mas principalmente aos biólogos. Eles, os biólogos, ficam doidos se alguém diz que algum elemento da natureza não carrega uma teleologia funcional. Quando contaram a eles que formigas levam pulgões para tomar sol, e que talvez isso não tivesse nada a ver com qualquer manutenção do formigueiro, alguns, acredito, tentaram o suicídio. Nós não conseguimos admitir que Trump não tenha tido alguma intenção, que no comportamento dele não há uma finalidade. Vários entre nós irá dizer que se trata de propaganda, de se manter em evidência, de narcisismo doentio ou até mesmo de um recado que ressoa Napoleão (que fez autocoroação), sobre a nova ordem mundial. Duvido.

Trump é mais um dos que navegam no Pacífico pensando que é o Atlântico, pois, como ele mesmo é capaz de dizer: “tudo é mar, né?” O oceano em que ele navega é o da sociedade imagética. Ele parece procurar vantagem, ele parece obter vantagem, mas isso porque está sobre a onda. Não custa ficar sob a onda.

Vivemos na “época das imagens de mundo”. O próprio mundo, o real, se tornou imagem. Vivemos na “sociedade do espetáculo”, em que nossas relações estão todas mediadas por imagens. O mundo dos textos está perdendo espaço. Não que o alfabeto, a escrita e, enfim, os textos, não sejam imagens. Sempre foram, as letras também foram desenhadas. Todavia, imagem e texto nos coloca em condições bem diferentes. Mas como ele ficou sobre e não sob? Faz-se necessário atentar para a sociedade imagética em que vivemos.

No texto, as letras e as palavras seguem uma linha, que no Ocidente é a linha horizontal no sentido da esquerda para a direita. Algo segue necessariamente algo. Ao final da linha semiótica, brota a semântica. Ao final da frase, brota o sentido. Há certa causalidade da natureza embutida na causalidade da linguagem e do pensamento. Por sua vez, a imagem, enquanto não-palavra, põe outra dinâmica: nosso olhar roda um tanto que aleatoriamente. Ficamos atentos a certos traços que mais nos atraem. Mas não há qualquer direção impositiva para todos, vinda da própria imagem, capaz de fazer nossos olhos caminharem de um modo e não de outro. Não há algo que segue necessariamente algo. A causalidade está perdida, e nenhuma lógica que lhe seja devedora se instala. A semiótica se autonomiza dispensando a semântica. A TV deu passos assim, mas só com a internet enquanto mundo imagético desprendido completamente do texto, e com hegemonia sobre ele, é que pudemos educar pessoas segundo essa nova ordem.

Uma sociedade viciada em imagens por imagens, fica menos atenta. Menos pensativa. Para captar a atenção de gente assim, só a proliferação de imagens. E para que o tempo de atenção na diminua, as imagens precisam tocar os órgãos que lhe são mais afeitos: antes a sensação que a sensibilidade. Desse modo, as imagens tendem a se fazer por mais cores e por mais situações que despertem instintos primitivos. A bizarrice que provoca nojo, asco, repúdio, estranhamento máximo é tudo o que leva vantagem. Viciados em drogas sabem bem como isso funciona.

Quem consegue mais a atenção no âmbito da infosfera comandada agora pela internet produz mais chances e dinheiro. As plataformas virtuais, então, se favorecem com a imagem bizarra. E as plataformas trabalham para a acumulação do capital, que se quer fazer maior e mais veloz. Sem acúmulo contínuo e crescente do capital não há capitalismo. Desse modo, a seleção das imagens fica a critério do capital. É nesse sentido que o capital se transforma em um “operador semiótico”.

Nessa situação, Trump é apenas um marujo abobalhado em mares perigosos. Ele não sabe em que continente está, muito menos acredita que há, como de fato há, monstros marinhos. Como ele é mais estabanado, e faz a água se movimentar, até acredita que pode dominar ondas. Mas não. Vai navegar e deverá ser engolido por elas. Nós não estamos em situação melhor. Mas podemos, entendendo melhor o que está ocorrendo com ele, talvez nós salvar, empurrando somente Trump para o redemoinho.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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