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Alexandre de Moraes não tem nada temer

O discurso do ministro Alexandre de Moraes na USP (24/02/24) pode alimentar o que há de pior no petismo, a adesão a teses fáceis contra as Big Techs, em um contexto em que as forças de esquerda querem de toda a maneira exaltar Bolsonaro como fascista. Ou seja, pode dar margem para a não reflexividade. Sei disso. Mas isso não faz do seu discurso uma narrativa incorreta. Não vejo como não concordar com os pontos principais de sua fala.

As Big Techs como toda e qualquer transnacional não têm compromisso com outra coisa senão com o lucro, venha ele de onde vier, e venha como vier. Passam por cima de leis nacionais, de desejos de povos, de valores da democracia, de problemas climáticos e até mesmo de situações que favorecem o trabalho infantil. Todas as Big Techs perceberam que uma parte mais visível do capitalismo de plataforma estava sendo instrumentalizada por grupos neofascistas e anarcocapitalistas no sentido de “fazer dinheiro”. Mas deixaram o barco correr. Exceto Musk, que colocou gás no barco. O sensacionalismo dá dinheiro na mídia. Ora, o sensacionalismo associado a um profundo ressentimento, fruto de frustrações geradas em mais de 40 anos de neoliberalismo, é uma fonte de renda fantástica. O ministro Alexandre de Moraes foi obrigado a investigar isso, a partir da tarefa que lhe coube de investigar os ataques ao STF. E ele formou um quadro em sua cabeça que é digno de ser visto e levado a sério.

A partir dessa investigação, o ministro viu a facilidade com que esse clima das redes sociais podia criar um Brasil paralelo. Ele sentiu isso quando foi à cadeia conversar com as pessoas presas pelo vandalismo do 8 de janeiro. Ele considerou que aquelas pessoas haviam se submetido a algo que, no passado, chamávamos de lavagem cerebral. Muitas daquelas pessoas haviam se tornado impermeáveis a qualquer informação outra que não a recebida pelas matrizes da direita, por mais maluco que fosse o discurso de canais que propagaram o negacionismo da vacina e coisas semelhantes, veiculado por supostos jornalistas que usavam de táticas simples de tapeação. Allan dos Santos sempre contou em seus canais casos em que dava a impressão de serem segredos, algo que só ele sabia, e que mesmo falando para muitos, ainda assim seria contado como segredo só aos que se identificassem com ele. A ideia de seita veio a calhar. Em seguida, a seita se acredita enorme, se vê como sendo o povo. É fácil conseguir esse efeito. E disso surgiu dinheiro – dos próprios canais e de patrocinadores extras. A Big Techs fizeram vista grossa, enquanto seus acionistas majoritários ou seus CEOS se exibiam como gente esclarecida, os gênios de araque do Vale do Silício. Boa parte deles querendo posar de esquerda!

Agora, os bolsonaristas se reúnem com extremistas de direita nos Estados Unidos, tentando de toda maneira criar problemas de trânsito para Alexandre de Moraes naquele país. Ora, Gabeira jamais conseguiu ter visto para entrar nos Estados Unidos, depois do célebre sequestro do embaixador americano. E isso, conseguir entrar na América, era importante para ele, uma vez que é um jornalista. Mas Gabeira não deixou de exercer sua profissão e ter sua vida. Para um juiz do STF, não poder entrar nos Estados Unidos, talvez seja antes que uma preocupação, até uma benção. Pode ficar sem ter que cruzar com Trump em cena deprimente: num jantar qualquer, ver o homem laranja em cadeira de rodas, sendo empurrado pelo Eduardinho Bolsonaro, enquanto que Melanie o corneia abertamente no mesmo evento. O ministro Alexandre de Moraes não precisa ir aos Estados Unidos.

No momento, o que os bolsonaristas querem é se vingar de Moraes, transformá-lo no ícone da censura mundial. Não vão conseguir. O mandato de Trump logo termina. A prisão de Bolsonaro virá. A extrema direita europeia, chefiada por mulheres, não quer nem saber de gente covarde e machistóide como os bolsonaristas. Meloni, Le Pen e Alice Weidel possuem nojo de trumpistas e bolsonaristas, e não acreditam nem um pouco nessa história que se conta sobre Moraes.

Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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2 comentários em “Alexandre de Moraes não tem nada temer”

    1. O interessante é que tu cara pálida e tão defensor da liberdade de expressão e vem aqui se pronunciar como anônimo. Faço das palavras do grande Cazuza as minhas:
      ” MOSTRA TUA CARA.”

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