Trump começa seu governo. A imprensa se faz de espantada com as medidas histriônicas do homem alaranjado. A imprensa criou um monstro e, agora, precisa destacar tudo que há de mais grotesco e estapafúrdio nas primeiras medidas do novo governo americano, para reafirmar o que vinha dizendo. Ora, Trump não decepciona a imprensa. Ele mantem o funcionamento do show. Afinal, ele veio desse meio! Todavia, esse segundo mandato de Trump pouco tem a ver com o primeiro. O caos de Steve Bannon já havia sido afastado no primeiro mandato, mas não totalmente, e isso gerou a derrota de Trump. Agora, o projeto é outro. O projeto é realmente o da America Great Again, mas segundo a lógica do “governo de ricos, pelos ricos e para os ricos”. A lógica que tem como fio condutor, efetivamente, a irracionalidade do capital em seu desejo de crescimento infinito. Uma lógica irracional. Sim, ela existe!
Esse segundo mandato de Trump tem a ver com um problema comezinho aqui no Brasil, o dilema que passamos na semana passada com a mentira de deputado Nikolas Ferreira a respeito do Pix. A mentira viralizou. Foi a “boa” mentira, aquela que não tem perna curta. Ela pegou por uma razão simples: tinha lastro histórico, como mostramos aqui em um artigo recente, cujo título é informativo: A mentira sobre o Pix não é a da mamadeira de piroca! Fake news! É como se diz. Um bocado de gente, do alto de sua sabedoria jornalística, ou seja, a sabedoria de quem nunca administrou nem mesmo um boteco de pinga, veio dar lições ao Lula. O governo não conseguiu responder de modo veloz à mentira, disseram os sabichões. O professor baiano Wilson Gomes, o colunista da Folha de S. Paulo que se auto-oficializou como o social-democrata de plantão, apareceu nas páginas do jornal para um longo artigo de condenação ao governo, mas sem conseguir propor qualquer medida realmente efetiva que se possa tomar contra mentiras internéticas com lastro (21/01/2025). Talvez o governo não saiba o que fazer, a Fundação Perseu Abramo está capenga. Mas o governo tem acertado mais que o professor baiano. Lula proibiu o celular em sala de aula. Essa é uma medida contra a ameaça real chamada “mundo da IA”, possível de ser vislumbrada hoje em dia. Falta uma segunda medida, a tomada de consciência do Instituto Lula e da Fundação Perseu Abramo a respeito do semiocapítalismo.
Nesse ponto, um dos problemas do Brasil e do mundo, que é o da manutenção da democracia diante da maquinaria internética, tangencia o que se está fazendo no início do governo Trump, que vai em sentido contrário, claro.
Não é a mudança do nome do Golfo do México que importa. Talvez nem mesmo a deportação em massa de imigrantes, ainda que isso envolva Direitos Humanos. O que importa é que Trump começa realmente uma nova era do Império, em que o imperialismo não tem mais vez. Não é a luta dos Estados Unidos para ter hegemonia no mundo. É a luta das big techs para libertarem de vez o Frankenstein. As big techs não querem nenhuma lei de cerceamento, nenhum controle, desejam expandir a Inteligência Artificial sem qualquer preocupação com o modo como esta pode moldar a inteligência natural. É o fim de toda e qualquer ética. As leis de Biden de restrição a elas e aos projetos de IA foram retiradas. E junto disso Trump dá o início dos tempos de Frankenstein Unchained. Um artigo do Financial Times traduzido na Folha de S. Paulo (21/01/2025) diz tudo: Trump anuncia um investimento privado de 500 bilhões de dólares para a infraestrutura americana, de modo a resolver o gargalo do desenvolvimento da IA. Trata-se do projeto Stargate, que visa criar tudo que for necessário para ampliar a energia para a criação de um supercomputador capaz de suportar uma gigantesca base de dados, necessária para que a IA seja treinada de modo a realmente se tornar competitiva diante da inteligência humana, e isso em níveis assustadores. O “interesse nacional”, com o qual a big techs podem posar de “americanas” e, então, ajudarem Trump no projeto “America Great Again”, aparece em dizeres bobos dos CEOS: vamos fazer avançar nossa IA de modo a não deixar os Estados Unidos serem atropelados pela China. Todos os países estão pondo regras para a IA, os Estados Unidos prometem ser, como sempre foram, a pátria da liberdade. Liberdade do capital, liberdade para que o maquinário chamado capitalismo continue seu andar cego na direção do seu crescimento quase metafísico.
Obama não cerceou as IA. Elas ainda não eram o perigo. Biden teve de assim fazer. Perdeu. As big techs tentaram comprar Kamala, e logo perceberam que não deveriam insistir nisso, bastava deixar Musk fazer o serviço de fazer a vitória do alaranjado.
As fake news na política serão um problema menor. Elas inundarão o mundo. O problema maior será outro: ninguém mais saberá como estará se desdobrando nosso próprio desenvolvimento psicológico uma vez educados por Frankenstein Unchained. Hoje somos já pontos de fusão entre humano e algoritmo. Amanhã poderemos ser apenas pontos de fusão entre sangue animal e algoritmo, sem qualquer resquício de inteligência natural envolvido. Medidas como a de Lula, de proibir o celular na escola, terão sua importância no futuro. Serão um marco de resistência. Um sinal de que não queríamos ficar loucos e burros. Essa medida talvez seja burlada. Mas terá sido a grande primeira resposta realmente bem dada às fake news de gente como o deputado Nikolas. A outra grande medida seria um incentivo a um choque de informação a respeito do mundo que vivemos, para além do que tem sido feito nas universidades. Mas isso é difícil. Figuras como a do professor baiano mostram que os professores universitários atuais não acreditam de fato, eles mesmos, no poder da educação. Querem soluções mágicas “comunicacionais” do governo.
Só uma população com menos cabeças iguais a do Eduardo Bananinha (um caso típico de discípulo de Olavo de Carvalho e Pondé) poderá ser empecilho ao projeto do Frankenstein Unchained.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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A mídia tradicional não vai além do susto com o gesto “nazista” do Elon Musk.
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