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O Tecnofeudalismo não é uma boa narrativa

Eis a ideia básica sobre o que é o capitalismo: as indústrias empregam trabalhadores que fabricam produtos materiais e oferecem serviços, e que assim agindo gastam um tempo de trabalho na empresa que é maior que o tempo necessário para que sejam produzidas as mercadorias que eles consomem para repor a força de trabalho. Aí está a origem do trabalho não pago, da mais valia e, por decorrência, do lucro. Agregado a isso, há os que emprestam dinheiro às indústrias, para que elas comprem insumo e paguem os trabalhadores, antes da venda dos produtos e serviços. Nesse caso, não falamos em lucro, mas em renda.

Hoje, após mais de quarenta anos de hegemonia do capitalismo neoliberal, esse capitalismo baseado mais no lucro e menos na renda não caracteriza mais os nossos tempos. O capitalismo buscou novas formas de acumulação, criou a política e a legislação neoliberais, e gerou dois elementos novos: o primeiro foi que a lógica da renda, ou seja, da financeirização, dominou a lógica da produção; o segundo é que uma boa parte das mercadorias se tornaram mercadorias imateriais, alterando significativamente o que entendemos por funcionamento do mercado. Um exemplo fácil: uma concessionária atualmente ganha mais no financiamento do carro para o consumidor que na produção do carro. As empresas se tornaram uma espécie de bancos, agências de crédito. Essa mesma concessionária tem seus CEOS investindo em ações dela própria, por meio de privilégios por conta de serem CEOS, mas também em várias outras companhias, aderindo ao mercado financeiro, que se faz pela compra e venda de ações, compra e venda de títulos e derivativos. Tudo isso demandou velocidade, que foi gerada pelos computadores em rede, o que proporcionou o surgimento das plataformas online, a infosfera, ampliando a noção de mercados de produtos e mercados de papeis. O sistema do capitalismo financeiro é parasita e hospedeiro do sistema de capitalismo de plataforma.

Isso gerou uma nova subjetividade. Todos vieram a trabalhar, de alguma forma, na interface entre máquina digital e disposições humanas. Geramos não um homem robotizado, mecanizado, mas uma subjetividade maquínica. A amplitude e a complexidade do que é uma subjetividade maquínica ainda não nos é inteiramente conhecida. Corremos o risco de sermos todos educados por ela sem poder compreende-la, uma vez que estamos no limite de não termos mais ninguém no mundo que foi educado somente por suas mães, e não pelo mundo digital e da infosfera. Dado que a subjetividade maquínica não forma a experiência, e ela está mais propensa a gerar o experimento, corremos o risco de não termos ninguém para avaliar a transição de regimes, e de conseguir saber o que perdemos e o que ganhamos nessa transição.

Esse regime em que vivemos é capitalista, claro. O capital continua sua marcha de crescimento. Amplia-se pela venda de papeis e produtos imateriais (o que inclui os papeis), e tem como aliado o extrativismo mais brutal em várias partes do planeta, buscando minerais para os computadores e fontes para a energia. Nesse sentido, é capitalismo financeiro, capitalismo de plataforma e extrativismo. É capitalismo. As pessoas que dizem que não é capitalismo ficaram presas à ideia de que somente o capitalismo que vivia do lucro era capitalismo. Mas isso não condiz com as análises dos que mapearam o capitalismo, em especial Marx.

Desse modo, a caracterização dessa nossa fase de vida pelo termo “tecnofeudalismo”, exposta por Yanis Varoufakis (foto abaixo), não faz sentido. Nem mesmo de maneira metafórica o termo ajuda. Em nada o que vivemos se parece com um sistema de feudos tecnológicos, muito menos nosso aluguel das plataformas etc. podem ser tomadas como um regime que serve a senhores donos de meios imóveis. Também nós, diante da maquinaria, não obedecemos o que obedecemos na condição de servos.

Marx falou que o desejo do capital era passar para o regime representado pela equação D-D’, abolindo a necessidade de ampliação do capital por meio da existência da mercadoria, secundarizando, assim, o regime descrito por D-M-D’. Ora, temos funcionado em boa medida sob o D-D’, como característica do capitalismo financeiro que ganhou hegemonia. Os juros estão sob o registro do D-D’. Mas, por exemplo, o download de uma música ou o uso de um aplicativo qualquer, forma uma situação mista. Temos, nesse último caso, algo que é a venda de uma mercadoria que parece o próprio dinheiro a juros: compramos uma música mas não a levamos. Só pegamos o direito de escutá-la. Mas isso não quer dizer que a música seja entregue como o dinheiro a juros, pois as grandes plataformas da infosfera estão bancadas por sistemas de máquinas que são produzidas em grande medida, ainda, por trabalho humano. Nesse caso, há ainda, na base, a mercadoria produzida e entregue para aqueles que sustentam plataforma: toda busca por matéria prima para carros, computadores, aviões, construção de fontes de energia etc. é, de fato, uma indústria na qual o sistema de extração de mais valia ainda funciona. Toda a logística de entrega de alimentos possui na base o trabalho humano, ainda que cada vez mais maquinizado. Nesse caso, a equação D-M-D’ ainda é a representante dessa parte do capitalismo. Não abolimos a representação D-M-D’, como seria o gosto último do capital, mas invertemos a lógica hegemônica, que agora é dada pela representação D-D’.

Essa é uma discussão dos economistas. Há muitos detalhes e impasses teóricos nisso. Participo dela como filósofo, de modo que meu interesse tende a ir para a subjetividade maquínica. Estou interessado na afirmação de Marx de que o capitalismo produz, na verdade, subjetividades. Quero ver como é que somos hoje em dia. O retrato do que insistimos que se chama o homem é o que mais me interessa. Quais as alterações que estamos tendo e teremos a respeito da imagem de nós mesmos. O que está forjando o que vamos chamar de a natureza humana, daqui uns dias? Isso diz respeito aos filósofos sociais e políticos. E isso implica em notar os alcances cognitivos e de linguagem desse homem imerso nesse capitalismo. Isso me interessa.

Corro contra o tempo, principalmente porque pertenço à última ou penúltima geração que aprendeu mais palavras com a mãe do que com a máquina. Talvez por isso eu possa entender a transição, coisa que outros, nascidos depois, terão maior dificuldade. Estão tendo mais dificuldade.

Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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2 comentários em “O Tecnofeudalismo não é uma boa narrativa”

    1. No Curso de Política e no Curso sobre a Alma, o professor comenta que uma proto-subjetividade começa com a transição de Roma para o cristianismo. Jesus funda a ideia de poder falar com Deus na intimidade.

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