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A mentira sobre o Pix não é a da mamadeira de piroca!

Ao ser xingado pela Primeira Dama, Musk respondeu “vocês vão perder as próximas eleições”. Vindo dele, essa frase pode significar antes uma ameaça que um prognóstico. Cabe a nós não deixar que o prognóstico se confirme. Há um esforço do governo no sentido de reconstruir o Brasil. Parar esses esforços seria morrer na praia. Muita coisa plantada agora precisa de continuidade nos cuidados.

As forças de direita e esquerda estão praticamente equilibradas. Todas as pesquisas mostram Bolsonaro e Lula empatados. Lula sempre vence diante de adversários que não o Bolsonaro. Como inelegível, Bolsonaro pode influir apoiando algum candidato. A tendência à polarização vai permanecer e, portanto, o apoio de Bolsonaro pode surpreender o candidato governamental. Principalmente porque a disputa não se dará segundo condições iguais para os dois lados. O clima de fake news corre a favor da direita, e Bolsonaro e sua turma parece que aprenderam a mentir de um modo mais perigoso que antes.

A mentira sobre o PIX mostrou que a direita não está mais disposta a criar teorias da conspiração ou mamadeiras de piroca. Uma mentira assim, faltando alguns dias para o pleito, pode simplesmente decidir a eleição. É uma mentira sobre uma questão que envolve a todos, e chance de parar negócios, como de fato ocorreu. A experiência que Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Moro e o próprio Jair adquiriram nesses dias pode ser algo inestimável. As forças governistas tiveram de retroceder mesmo estando certas! Foi mais prudente retirar uma medida inócua, mas ingênua, do que tentar explicar a verdade para a população. Isso mostra que a democracia realmente, agora sim, está em risco. As eleições estão sob uma nuvem carregada. Não há Golpe Tabajara no horizonte. Muito menos há Impeachment para o PT chamar, de maneira estúpida, de golpe. Vivemos sob o tacão do golpe real de nossos tempos: uma mentira só, dependendo do tema, pode simplesmente dar uns bons votos a mais, e então pimba! Na atual polarização – que promete permanecer – teremos o país nas mãos da direita novamente. Há muito o que perder. É entregar nossa casa, o Brasil, aos bandidos. Já imaginaram o que seria a volta dos genocidas? Da última vez Bolsonaro matou 700 mil pessoas e destruiu o estado fechando ministérios, além disso ele jogou o país novamente na classe das nações que admitiam a pobreza absoluta.

O que coloco até aqui difere um pouco do que venho dizendo até a semana passada, antes do episódio do Pix. Até acontecer a mentira sobre o Pix, eu avaliava que o problema da vida sob o semiocapitalismo era o da criação da subjetividade maquínica. Explico abaixo.

Estamos atuando segundo peças de uma grande maquinaria comandada diretamente por IA e algoritmos. O semiocapitalismo é isso: o capital se torna um operador semântico, ele diz o modo que as coisas ganham significado ou não. Tudo que facilita seu acúmulo dentro da lógica do curto prazo, é que surge no horizonte como tendo importância. Trata-se de um regime de fusão entre capitalismo financeiro e seu subproduto, a internet regrada pela maquinaria algorítmica e Inteligência Artificial. Nessa situação, ocorre a inflação semiótica e a deflação de semântica. Muitos signos e pouco significados. Nós nos tornamos pessoas que atuam como algoritmos no meio de algoritmos. Estamos respondendo a signos sem mais o trabalho semântico. Não há o que interpretar. Há só o que executar. Isso está provocando uma baixa capacidade cognitiva de todos nós, e um desastre mental e emocional em crianças e jovens. Estive escrevendo e falando sobre isso, colocando em segundo plano a preocupação com o conteúdo da própria Internet, em especial a fake news e sua relação com a democracia. Mas tudo mudou a partir da mentira sobre o Pix e o modo como ela se propagou, tornando o governo e todos nós reféns da nova quadrilha internética da família Bolsonaro e adendos. O semiocapitalismo é problema, mas a fake news é um produto que emerge dele, e é um perigo a curto prazo.

É interessante que no campo das preocupações mais de fundo com o semiocapitalismo, tenhamos conseguido, ao menos em um aspectos, uma vitória fácil: direita e esquerda concordaram e Lula efetivou: o celular sai das escolas. Mas, justamente no campo em que eu achava que teríamos mais dificuldade, agora ele se torna o lugar da fervura do inferno.

As medidas legais possíveis, até agora pensadas, não salvam a democracia diante do tipo de mentira sobre o Pix. Parece que nossa única saída é ter novas ideias. Para ter novas ideias é necessário que as pessoas da esquerda dirijam o carro olhando mais para frente que para o retrovisor. A visão sobre o mundo, vinda das esquerdas, está defasada do que efetivamente ocorre. Então, parece que vamos ter que atualizar essa visão tornando as narrativas sobre o semiocapitalismo e a subjetividade maquínica mais e melhores conhecidas. Conhecendo melhor as condições que vivemos, talvez nos próximos dois anos, possamos ter ideias novas de como evitar o desastre da fake news nas próximas eleições.

Duvido que tenhamos ideias novas sem essa socialização do saber contido nesses conceitos de semiocapitalismo e subjetividade maquínica. Creio que sem isso, lidaremos com nossa realidade com instrumentos do retrovisor. Não servem. Ou melhoramos nosso conhecimento para termos boas novas ideias, ou sofreremos daqui a dois anos uma derrota que fará do Brasil algo mais difícil de reconstruir depois, talvez impossível. Desse modo, o que mudou é minha preocupação em relação às fake news, mas não sobre a importância que vinha dando ao semiocapitalismo e à subjetividade maquínica. Penso que, agora, estamos com problemas de curto prazo, o da ameaça ao pleito de 2026, e isso deve nos mobilizar em uma tarefa de compreensão de nossa vida de modo mais profundo, e teremos de ter boas ideias o mais rápido possível.

Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.



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