Trump queria que Zelensky entrasse de cabeça baixa e, então, de joelhos, agradecesse a ele por estar existindo. Ninguém começa uma reunião diplomática dessa maneira. Nunca ninguém fez isso. No mundo moderno, nem mesmo nas rendições mais terríveis se exigiu isso do adversário. Trump e seu vice, Vance, exigiram isso de um aliado! Tiraram a diplomacia dos Estados Unidos do seu eixo. Fizeram uma reunião para roubar minérios da Ucrânia, e exigiram que o roubado falasse “Thank you!”.
Por que Trump acredita que todos estão devendo à América? Devem à América? Ou devem a ele, Trump?
A ideia básica com a qual ele insiste em se manter na política é a do ressentimento clássico. É um elemento psicopolítico que rende resultados. Todos os países devem algo aos Estados Unidos, e agora é a hora de cobrar. Todas as minorias e todos os eleitores dos democratas devem algo ao “verdadeiro” povo americano, os “brancos” iguais a Trump. Chegou a hora de cobrar. Por que chegou a hora de cobrar? Ora, por uma idiossincrasia de Trump: há de se fazer “America great Again”. E isso só é possível se os “brancos” iguais a ele, Trump, puderem exercer todo o tipo de desrespeito à lei. É essa a ideia e a prática de Trump.
“America great again” significa uso de petróleo em um mundo que não quer mais esse uso. Significa desmatar em um mundo que já nem mais tem matas. Fala-se em não ter mais aliados comerciais em um mundo em que todos já estavam e estão no capitalismo globalizado. Decreta-se o inglês língua oficial em um mundo em que o multilinguismo cresceu, inclusive dentro dos Estados Unidos, e para o enriquecimento deste. Trata-se de dotar o “americano branco” de poderes imaginários, de modo que cada um possa acreditar que, não sendo herdeiro de ricos, ficará satisfeito em ver Musk fazer coisas de simples moleque magoado, o que cada americano, como cidadão honesto, não pode fazer. A própria destruição da burocracia americana, do funcionalismo público, se encaixa nessa ideia de arrebentar com o complexo industrial-militar-estatal que fez os Estados Unidos uma potência. O “branco” igual a Trump acredita que os Estados Unidos, sem o estado, continuarão poderosos. A tarefa toda é não ajudar “estrangeiros”, os internos e os externos.
A democracia se torna, para essa gente, um bom regime, pois é o campo em que, finalmente “a vontade popular está governando”. O “Deep State” está sendo destruído, diz Trump a seus eleitores. Este, para os “brancos” iguais a Trump, é um elemento criado pela Teoria da Conspiração que adotam, trata-se de um estado abaixo do estado, e neste campo secreto há o governo que realmente estaria, sempre, gestando políticas a favor de latinos, negros, mulheres, gays e, principalmente, extraterrestres (Zuckerberg, antes dele aderir a Trump), comunistas (chineses de todo tipo) e pedófilos (Biden e, de vez em quando, Hilary Putnan). A verdadeira vontade popular, segundo os eleitores de Trump, se expressa nessa ideia dele mesmo, de que todos devem alguma coisa a ele. Todos devem alguma coisa a um povo “branco” que estaria sempre sendo ludibriado. E agora ele, Trump, é a “América”. Todo cidadão comum finalmente saberá se existe ou não UFOS e, decisivamente, quem matou Kennedy. Trump alimenta essas baboseiras americanas.
Talvez alguém arrisque explicações psicanalíticas para Trump. Mas, da minha parte, as coisas são mais óbvias: Trump é produto, antes de tudo, de uma sociedade desigual que tem lutado desesperadamente para promover igualdade em acordo com um regime político – o neoliberalismo – que não tem qualquer instrumento de promoção de riqueza distribuída. O neoliberalismo americano deu emprego a todos, mas diminuiu salários. A gestão dos Trinta Anos Dourados, do Pós-Guerra, também deu emprego a todos, e fez mais: diminuiu a distância entre ricos e pobres. Quando esse tipo de política não mais serviu à acumulação do capital, e foi trocada pelo neoliberalismo, o que Reagan prometeu foi que haveria mais empregos, mais oportunidades e uma vida melhor. Duas coisas ele e outros conseguiram dar, mas a terceira, a vida melhor, não veio. O American Way of Life ficou como sonho dos outros povos, que acham que ainda nos Estados Unidos ele é vigente. Ora, faz cinquenta anos que não é mais vigente.
Deleuze disse certa vez que, ao falar da revolução russa como tendo o mote marxista “proletários do mundo, uní-vos”, teríamos de lembrar sempre a revolução americana segundo o mote “estrangeiros do mundo, uní-vos”. Mas ele mesmo chegou a afirmar que ambas revoluções falharam. Não concordei. Não concordo. Não vejo a Revolução Americana como falhando. Mas não posso deixar de notar que Trump é um agente determinado a fazer o mote da revolução americana perecer de vez. Os Estados Unidos e o mundo só se livrarão de Trump se nós enjoarmos do ressentimento, e resolvermos acreditar na generosidade novamente. Engano de vocês que pensam que não sou suficientemente ingênuo para não ter essa esperança. Tenho.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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