Suponhamos que os críticos mais duros de Freud tenham razão. Que o próprio Freud fosse um trapaceiro egomaníaco e enganador. Os psicanalistas nem sequer conseguem entrar em acordo sobre o que pode ser considerado uma cura, muito menos efetuar uma cura. As idéias freudianas já encorajaram abominações tais como a prisão de pais inocentes com base nas “memórias reprimidas” de abuso, arrancadas de criancinhas por terapeutas ansiosos. Será que devemos concluir que Freud não tem nada a nos ensinar -que deveríamos, à medida do possível, eliminar suas idéias de nossas mentes e nossa cultura?
Consideremos a seguinte analogia: um códice antigo recém-descoberto teria nos dado boas razões para crer que o cristianismo foi um embuste perpetrado por um vigarista de nome Paulo (anteriormente conhecido como Saulo). Enxergando no ressentimento dos pobres e oprimidos uma oportunidade comercial, Paulo teria inventado uma religião que ensina que a única vontade de Deus é que nos amemos uns aos outros e pago “ghost writers” para escrever o Evangelho e as Epístolas.
Depois de juntar a essa descoberta tudo que já sabemos sobre a Doação de Constantino, forjada, a Inquisição espanhola e os televangelistas, somado à ausência de evidências científicas que comprovem a alegação de que Jesus teria sido ao mesmo tempo Deus e homem, será que deveríamos concluir que devemos expulsar o cristianismo de nossas mentes e nossa cultura?
Poderíamos refletir que homens maus ocasionalmente têm boas idéias, e que os elementos igualitários e altruístas contidos no cristianismo têm feito muito pela democracia e os direitos humanos. Assim, talvez nos decidíssemos a jogar fora apenas as partes podres do cristianismo (os dogmas e o clero, quem sabe), conservando as partes boas.
Muitas pessoas diriam algo semelhante em relação a Freud: talvez devêssemos rejeitar a condição de ciência que a psicanálise atribui a si mesma; possivelmente até mesmo deixar os departamentos financeiros dos hospitais reduzir a psicanálise à penúria. Mas não precisaríamos abrir mão de nosso freudismo de bom senso. Poderíamos continuar a explicar nossos caprichos, fantasias e infelicidades neuróticas por meio de referências a nossos desejos e crenças inconscientes -especialmente as crenças referentes a nossos pais e os desejos por manifestações sexuais que fogem do comum.
Alguns filósofos, como Adolf Grünbaum, veriam tudo isso como um meio-termo conciliatório, que não satisfaz. Outros, como Marcia Cavell e Thomas Nagel, responderiam que ninguém, exceto Freud, encontrou sentido nesses caprichos, fantasias e infelicidades -sem falar em nossos sonhos, nossas piadas e nossos lapsos-, e que, até que alguém o faça, não pode haver mal em interpretá-los de maneiras freudianas. Eles concedem que a psicanálise não se parece muito com uma ciência, mas acham que é engano desprezá-la, reduzindo-a a uma pseudociência.
Jacques Bouveresse concorda com Cavell e Nagel. Está disposto a admitir que Freud nos ajudou a enxergar a nós mesmos dentro de uma perspectiva nova e útil. Mas acha que Freud exagerou tremendamente a importância de suas descobertas e que Ludwig Wittgenstein pode nos ajudar a não nos deixarmos enganar por suas pretensões.
“Wittgenstein Reads Freud” (Wittgenstein Lê Freud) é o primeiro livro deste filósofo respeitado e de ampla visão, professor do Collège de France, a ser traduzido ao inglês. Bouveresse é um dos muito poucos filósofos de qualquer parte do mundo que se mostram igualmente à vontade tanto na tradição da filosofia pós-nietzschiana, que inclui Martin Heidegger e Jacques Derrida, quanto na chamada tradição “analítica”, em grande medida anglófona, que abrange desde Bertrand Russell a Donald Davidson, passando por Wittgenstein. Para a consternação -e muitas vezes o desgosto- de seus colegas franceses, muitas vezes prefere a segunda. Seus livros divulgaram o conhecimento de Wittgenstein na França, e ele espera que algum dia a filosofia francesa vá se tornar “analítica”.
Acha que a maioria dos intelectuais franceses se deixou levar na conversa de Jacques Lacan, fundindo a psicanálise e a filosofia, muitas vezes em detrimento de ambas. A maioria dos filósofos anglófonos, mesmo aqueles mais favoráveis a Freud, vêem Lacan mais como pensador excêntrico do que como gênio, e Bouveresse concorda com essa visão.
Neste livro lúcido e bem equilibrado, Bouveresse examina com cuidado tudo que seu herói disse a respeito de Freud. Mas o resultado é pouco conclusivo. Wittgenstein era fascinado por Freud, mas jamais conseguiu chegar a uma opinião clara acerca da natureza ou a extensão de suas realizações. Para ele, está claro que a psicanálise não se assemelha à física. Para ser uma ciência, é preciso oferecer hipóteses falsificáveis, e Freud consegue facilmente contornar quaisquer evidências supostamente falsificadoras, enquanto os físicos normalmente não o conseguem. “O que Freud afirma a respeito do subconsciente soa como ciência”, disse Wittgenstein, “mas, na realidade, não passa de um meio de representação”.
Mas o fato de haver criado um “meio de representação” -uma nova maneira de falar sobre, portanto de relacionar entre si, um conjunto de fatos antes isolados- não é nada desprezível. Wittgenstein também afirmou que “o que um Copérnico ou um Darwin realmente fizeram não foi a descoberta de uma verdadeira teoria, mas de um novo e fértil ponto de vista”. Como reconhece Bouveresse, “o tratamento geral dado por Wittgenstein às ciências tende a solapar, em lugar de reforçar, a distinção rígida que ele procura traçar entre a situação da psicanálise e aquela de uma disciplina como a física”.
Grünbaum e seus aliados (tais como Frederick Crews) gostariam de manter essa distinção firme e forte e insistir que falar de um “novo ponto de vista” ou “maneira de falar” serve apenas para confundir a questão principal. Wittgenstein, entretanto, pensava que recebemos muitas de nossas idéias mais úteis de áreas culturais -religião, poesia, filosofia, psicanálise- que não têm como dizer-se donas de nada que se aproxime do tipo de conhecimento oferecido pela física. Embora se estenda muito sobre as dessemelhanças entre a descoberta do inconsciente e a descoberta do positron, o “status científico” de uma idéia útil, para ele, não é, em última análise, tão importante assim.
Grünbaum acredita piamente, e Bouveresse espera, que os filósofos possam examinar credenciais intelectuais e emitir ou negar certificados de qualidade epistemológica. Seria conveniente dispormos de um “órgão inspetor” desse tipo, mas apenas se seus integrantes normalmente manifestassem posições comuns. Os filósofos não costumam fazê-lo. Esse fato nos leva a crer que não faz sentido buscar ajuda profissional quando se trata de decidir se o arauto de novas e espantosas idéias (alguém como Platão, São Paulo, Freud, Wittgenstein, Heidegger ou Lacan) é um excêntrico ou um gênio. Sempre teremos que testar essas idéias por nossa própria conta.
Tradução de Clara Allain.
Resenha de Rorty do livro abaixo. Resenha publicada originalmente no NYT BOOK REVIEW.
“Wittgenstein Reads Freud – The Myth of the Unconscious” (Wittgenstein Lê Freud – O Mito do Inconsciente), de Jacques Bouveresse, trad. de Carol Cosman (Princeton University Press,
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