“O beijo: não há nada mais perigoso para atiçar o amor,
pois é algo insaciável e o que faz eclodir esperanças libidinosas” – Sócrates
O “beijo roubado” é um clássico. A minha geração dizia: “teve um beijo roubado? é um clássico heim! guarde a lembrança”. Tanto no comportamento quanto na literatura, o “beijo roubado” (estou aspando exatamente para você entender que se trata do beijo situado) se tornou a figura do amor que mais tem a ver com o deus Eros ou, de modo mais sorrateiro e malandro, com o Cupido (o Eros na versão romana).
Eros sempre se divertiu fazendo os mortais se apaixonarem subitamente. O Cupido, além disso, vinha por detrás de uma árvore e, como uma seta, espetava os mortais, criando-lhe desejo de cometer loucas. Para muitos da minha geração a loucura que se queria ver cometida era a do “beijo roubado”. Algumas meninas iam mais longe, e sonhavam com algum homem mais velho correndo atrás delas em bosques. Outras, menos afeitas ao sonho despudorado, viviam pensando no beijo roubado. Muitas moças pensavam em roubar um beijo do garoto tímido e mais jovem. Muitos jovens pensavam o mesmo em relação à garota. Outros, sonhavam com a professora. Ou até mesmo com um tia. Uma tia mesmo, uma parente. Quantas meninas não quiseram dar um beijo roubado em algum professor! Umas, até por libertinismo: “só para ver a cara dele!” Eros nunca poupou os mortais.
“O beijo roubado” é uma conquista civilizatória. O sociólogo Norbert Elias levantou uma tese conhecida: quanto mais civilização, mais nos permitimos a não avisar sobre o que é proibido e o que não é. Quanto mais civilização, menos violência e, no entanto, nasce aí uma visão nova da aventura. A aventura da guerra é transmutada em esporte, para que a virilidade não se perca. O rapto e´ transmutado em beijo roubado, para que Eros não se aposente de sua função. Os suspiros provocados pelo “beijo roubado”, em sonho ou em ato, são conhecidos daqueles que o viveram ou leram sobre ele. São as pessoas educadas pela escola pública em diversos países, entre os fins do século XIX e até meados dos anos oitenta no século XX. São as pessoas que aprenderam a viver a ficção ou ler a ficção. Ler a ficção e fingir que a trama lida está acontecendo é uma arte dos bem educados, não um distúrbio psicótico. Ler sobre o “beijo roubado” e vive-lo no lugar dos personagens, e conversar com as colegas sobre os personagens como fazendo parte do dia a dia, era uma sabedoria das escolarizadas de minha geração. Como fazia-se isso com a teledramaturgia!
Quando a escola pública decaiu, por obra da adoção do neoliberalismo, que foi a capa político-jurídica do capitalismo financeirizado, o Iluminismo perdeu força. As moças e os moços deixaram de saber da história, dos romances, da filosofia, então, perderam a noção de como que o “beijo roubado” era um imperador dos afetos, uma maravilha dos deuses, um presente dos Céus aos homens e mulheres. O “beijo roubado” era não só um elemento da cultura, mas um ícone das referências das pessoas mais cultas.
Há dois tipos que condenam o beijo roubado. Primeiro: o indivíduo insensibilizado, coisificado. Segundo: o indivíduo adoentado, pervertido. Destaco de modo breve ambos, nos dois parágrafos abaixo que seguem.
As mercadorias são fetichizadas e as pessoas são reificadas no capitalismo. Viram coisas. As mais coisificadas, as insensibilizadas, perdem a capacidade de sentir a literatura e a vida. São as que condenam o “beijo roubado”. Ajudadas pela falta de referência culta, aderem às campanhas de proibição do “beijo roubado”, pois aprendem, com a cultura do mal escolarizados, que beijo roubado é violência. Ora, se é violência, não é beijo roubado. Não é beijo. Se alguém pula sobre você e esfrega a boca na sua boca e a língua na sua narina, não houve beijo algum. Só um idiota completo chama beijo roubado de algo que não é um beijo! Em nossos tempos, esse idiota que condena o beijo roubado pois não sabe do que se trata, proliferou em órgãos de censura social.
Mas, para além desse idiota completo, há aquela pessoa que teme a si mesma. Quem é? As coisificadas e incultas, estão aquém do patamar da civilização que Norbert Elias apontou. São esses indivíduos, mais que qualquer molestador de mulheres, os verdadeiros bárbaros. O molestador ataca uma mulher. O proibidor do “beijo roubado” ataca a todas. Ataca a humanidade. Ele ataca o beijo, o amor, pois ele teme a si mesmo. Quer proibir todos de beijar, pois ele teme o monstro que há dentro dele, que é aquele que não sabe beijar, aquele que quer apenas submeter a mulher ou o mais fraco. O proibidor do beijo roubado, sendo homem ou mulher, vive um profundo descompasso com a sociedade, e uma terrível doença entranhada na sua psiquê. Ele não sabe beijar, ele quer violentar. Ele precisa colocar cartazes contra o beijo roubado em todas as paredes, pois ele olha para todas as paredes. Ele cria a polícia para que ela o policie. Ele precisa de uma longa terapia. Se uma sociedade inteira cede a ele, então, ela precisa de uma terapia. Talvez uma terapia de choque, uma revolução.
Todos os que conheceram e conhecem a vida erótica plena sabem que o “beijo roubado” é tudo que precisamos que exista no mundo para que saibamos que há pessoas realmente vivas. Sentimos com o “beijo roubado”, em ato ou literatura ficcional, que o capital não nos dominou ao todo, que há ainda um frio na espinha que percorre as pessoas. Nem todos viraram coisas. A reificação não completou sua tarefa. Há esperança quando notamos isso.
Ao mesmo tempo, sabemos que se o capital, por ele próprio, não nos reificou, então, o pouco de frio na espinha nos será tirado por meio de proibições dos que foram reificados. Os que não podem beijar, os que não são beijados, os que desconhecem o orgasmo, os que servem à direita política ou aos grupos identitários e ressentidos, são os que tentam proibir o beijo roubado. São os guardiões da barbárie. Não suportam a civilização.
Nos anos sessenta e setenta, sabíamos que o Carnaval se aproximava porque em todo bairro, aos sábados, se escutava o som vindo do ensaio da escola de samba. Nos anos oitenta e noventa, sabíamos que o Carnaval se aproximava, porque as pessoas ciosas, os médicos descentes e os marqueteiros inteligentes passaram a nos mostrar cartazes no sentido do uso da camisinha. Samba e sexo, isso foi entre os anos sessenta e noventa. Na entrada do século XXI, começamos a perceber que samba e sexo não anunciam o Carnaval. O Carnaval é anunciado pela mão pesada do fascismo pequeno: são as propagandas de grupos repressores, identitários, fascitóides, que poluem todo o visual com campanhas contra o “beijo roubado”. A ideia de alguns cartazes, de colocar abaixo da frase contra o beijo roubado, “só se a mulher disser sim”, é mero subterfúgio. Seria melhor, menos burro, se não tivesse colocado essa segundo frase. Isso, por duas razões. Primeiro: beijo roubado não é algo só do homem para com a mulher. Segundo: um “sim”, no Carnaval, significa que você tem de escrever na testa: “roube-me um beijo, já disse sim”. Ora, quando avisamos o que se quer ou o que se vai fazer, de qualquer lado que o façamos, então, desaparece a ideia de “beijo roubado”. Desaparece o beijo de Carnaval. Beijo de Carnaval é um dos tipos do “beijo roubado”. O outro, acontece no recreio da escola. Da escola pública!
Infeliz um povo que possui identitários ou fascistóides (é a mesma coisa), pois deles é o reino do inferno. E eles podem levar uma nação inteira para lá. Eles proibirão o “beijo roubado” para que o segundo passo seja a proibição de todo e qualquer beijo. Aliás, já é assim na sociedade que deu guarida a essa gente que saiu das catacumbas. Walking Dead é um filme atual, pois mostra exatamente a sociedade sonhada pelos identitários e seus cartazes contra o beijo roubado.
Paulo Ghiraldelli
PS. Vocês verão os comentários. No meio de muitos deles, elogiando o texto ou fazendo críticas boa, aparecerá um ou outro identitário que irá dizer: “Eu quero que respeitem meu corpo”. Para este indivíduo, eu aviso: não é preciso beijar para se alfabetizar. E irá aparecer o outro dizendo: “professor, no seu tempo havia o beijo roubado, agora é só violência”. Para este, não direi nada, é o pobre diabo que está assustado ou quer ficar assustado. O que se pode dizer para quem está de toda maneira tentando achar uma justificativa para eliminar o “beijo roubado”, mesmo após a explicação desse texto?

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Ultrapassado
Caro Professor
Acompanho o canal há pelo menos 3 anos. Gostaria de lhe sugerir para todos nós, um curso ou uma introdução a Filosofia. Por que estudar nestas faculdades , de hoje em dia, não dá mais. Grato pela atenção
edernordini@gmail.com
Infelizmente o identitarismo veio para sensurar o que lhe convém o que lhe agrada pois pra ele não existe mundo social para o identitario só existe o mundo dele
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