Sloterdijk e Nietzsche: a verdade é mulher {Draft, sem notas de rodapé]
O que Peter Sloterdijk anuncia de efetivamente novo na filosofia em geral e na específica investigação sobre a intimidade?
Trata-se da ideia de que “todos os homens são gêmeos, mas de um modo oculto, uma vez que a maioria rejeitou o seu gêmeo e nem sequer se lembra de o ter tido alguma vez”. Essa “rejeição da protodualidade gera uma disposição geral para as más formações substitutivas”. Deixamos de “aprender a possibilidade do encontro, se destruímos a imagem do que procuramos”. De modo que “a mais profunda falta de tato tem início nesta rejeição da lembrança da dualidade”. “Os homens mais imunes às relações prejudiciais (…) são os que vivem uma relação discreta com o seu gêmeo oculto”. Eles são os que “dispõem desse conhecido anjo da guarda ou os que, para utilizar termos mais contemporâneos, cuidam bem de si próprios”. “Nos Estados Unidos”, acrescenta, “os amigos despedem-se dizendo take care of yourself”, ora isso é uma “discreta saudação angélica”.
Mas, se dependemos desse “acompanhamento anônimo” que vem da nossa condição de gêmeos, então tudo aponta para o útero. A “coabitação intra-uterina com a placenta” é nosso segredo. Talvez um segredo de Polichinelo; torna-se algo aparentemente desconhecido uma vez fruto da adoção de uma metafísica substancialista e tendo como coroamento, nos tempos modernos, com a teoria liberal, um tipo popular de monodologia. Nesse caso, isso funciona como uma quase ideologia, no sentido forte da palavra, uma maneira de revelar uma verdade como o que faz um caminho entre a meia verdade e o falso.
Se é assim, então quais os indícios na história da cultura, enfim, em nossa vida, dessa condição? Como nos confundimos – a ponto da rejeição e do esquecimento – a respeito do que nos é básico, a condição de sermos todos gêmeos? A resposta pode vir de uma investigação que note os primórdios de nosso pensamento, só mais tarde voltado para a metafísica. Devemos observar a disputa, falando de um modo amplo, entre duas grandes concepções, tendo como um possível corte histórico a sempre complexa e mutável divisória entre o antigo e o moderno. Sloterdijk não perde a chance de lançar mão dessa divisória. Para ele, o mundo antigo conheceu o monopólio do útero sobre o discurso de origem, construindo uma protometafísica da imanência – tudo vem da mãe. Eis aí um sistema monista. Esse monopólio foi quebrado pelos sistemas metafísicos que impuseram a transcendência, substituindo a mãe pelo pai. O pai trabalha segundo a transcendência. Ele cria a vida não a partir “daqui”, mas “de lá”. O “cristianismo desenvolveu a atração da ideia do útero paterno”. Todavia, é somente no início da recente era moderna europeia que se pode falar de humanos, em significante número de formas de vida e pensamento, rompendo com o que conduzia – direta ou indiretamente – ao “mágico sugadouro das ontologias de imanência maternal”.
A disputa entre essas duas grandes formas de pensamento pode indicar que, por um tempo nada desprezível, os humanos estiveram focados única e exclusivamente no útero. Não a ordem e a casa do pai foram, então, o lugar da verdade, mas a disposição de acolhimento da casa da mãe – a nossa casa primeira. De que maneira o homem localizou a verdade como o que estaria para além do portal da vulva, tomado então não só como porta de saída, mas de entrada? E entrada, aqui, não em um sentido sexual, mas antes de tudo metafísico, ou mesmo em sentido místico!
Sloterdijk localiza o início dessa situação em tempos primitivos, quando o nomadismo começa a perder espaço para o localismo. A fixação na terra, o advento da agricultura e a pecuária, e não mais a simples colheita em regiões que iam se substituindo; tudo isso gerou obviamente a terminologia da importância da casa como lar e da pergunta sobre a linhagem. Criou-se a identificação e a busca pela filiação. A identificação, ou seja, “fulano de tal é X”, é uma frase que cabe ser considerada averiguável, portanto, verdadeira ou falsa. A sua averiguação se dá pela busca do local que confirme a filiação indicada. A mãe é a filiação buscada. O útero é o local de confirmação ou não do enunciado. Sendo assim, “o útero torna-se um local da verdade”. Estamos acostumados ao pensamento moderno de que ao morrermos tudo será esclarecido na casa do pai, e nos esquecemos de que no âmbito do primitivo, e mesmo no campo do pensamento grego e egípcio antigo, a morte e o nascimento se igualavam, e o nascimento era buscado no espaço da mãe. Em várias culturas o enterro do cadáver era feito em posição fetal. “Mortais, aqueles que são nascidos, têm começo e fim em cavernas de origem”.
Uma vez que o órgão feminino de nascimento deixa de ser unicamente um portão de saída, real ou imaginário, mas também se torna um portão de entrada através do qual se tem de passar na busca da identidade, então ele ganha uma carga de “fascinação ambivalente”. Todos os “buscadores de verdade em tempos metafísicos” nada são senão aqueles que retornam ao útero. Os contos heroicos mostram figuras assim, que encontram o que tem de encontrar quando retornam para casa, celebrando a imanência do útero de todos os seres. Nesse caso, a “sabedoria é a percepção de que mesmo o mundo aberto é cercado pela caverna de todas as cavernas”. A caverna de origem é aquática e o mundo todo está cercado de água. “Tudo é água”, disse o proprietário de uma das mais antigas cosmologias, Tales de Mileto. Ter conhecimento é ir mais longe e sempre voltar a uma caverna.
Desse modo, para chegar à verdade, a morte tomada como uma forma de renascimento foi um preço pago para a reentrada na caverna, na volta ao lar e, assim, no apontamento da identidade, a verdade de cada um. Não conta então só a morte real, mas também a morte em vida, as variadas formas de reentrada no útero por meio de uma transmutação em vida. Inúmeras religiões criaram seus eunucos reais – no Oriente – e seus padres ascéticos – no Ocidente. Não à toa notamos bem o quanto as filosofias ocidentais são parentes próximas de doutrinas arrebanhadoras de “eunucos sagrados”; estes são, afinal, os únicos que entendem o princípio da imanência total, a absorção completa no Uno. Nesse sentido, pergunta Sloterdijk: “o segredo da mais alta metafísica, no que estava baseado senão em um incesto lógico?” Os eunucos – reais ou gerados no ascetismo cotidiano – nunca foram outra coisa que não pessoas que tentaram uma autodissolução de modo a anular a separação causada pelo nascimento e, então, voltar para casa, adquirir a condição de não nascido e, assim, encontrar a verdade. Tudo isso esteve prenhe de práticas místicas e filosóficas, e fez história de um modo muito maior do que nos damos conta. A ordem protometafísica então seria esta: “nenhuma admissão de substância sem re-fetalização”.
Considerando esse trajeto, parece que apesar de convivermos com a predominância de uma metafísica transcendente, paterna, encontrar caminhos para o útero e, assim, entendermos melhor nossa condição de gêmeos, não é uma tarefa impossível. Todavia, por que não fizemos isso até agora? Dizer que a condição ideológica de nossa monodologia moderna nos desviou tem lá a sua razão, mas antes como constatação que como explicação. Talvez consigamos entender melhor nossa resistência notando as relações entre o feminino e a verdade nos rincões que essa relação foi tematizada de um modo sofisticado, autenticamente filosófico. Nesse caso, não há como não saber que estamos falando de Nietzsche. Sloterdijk não deixa essa pista passar. A frase de Nietzsche sobre o assunto, posta no segundo prefácio de A gaia ciência, é utilizada por ele como epígrafe de capítulo e, depois, no interior deste, em uma passagem significativa. Reproduzo o trecho todo de A gaia ciência a que pertence a frase:
“Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus – vivemos de mais para isso. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu, de não assistir a tudo, de não assistir a tudo, de não procurar compreender tudo e tudo ‘saber’. ‘É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. Acho isso muito indecente …’ Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e das incertezas. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões. Talvez o seu nome, para empregar o grego, seja Baubô”! … Ah! Esses gregos, como eles sabiam viver!”.
Há referências específicas nesse trecho que correspondem diretamente à história da filosofia, e que o próprio Nietzsche expõe em outros textos. Elas se põem mais à mão quando glosamos essa passagem com o conjunto de seis parágrafos do breve escrito chamado “Como que o mundo verdadeiro se tornou finalmente fábula”. Essa pequena peça mostra toda a história da filosofia e, assim, o trajeto de um niilismo que é praticamente transhistórico, porque pode ser eternamente retornado por cada um de nós a todo o momento em que as fases dos seis tópicos se completam.
São seis passos que vão da verdade platônica tomada como Ideia ao anúncio da abolição da dualidade mundo-verdadeiro versus mundo-aparente, passando quatro outros estágios. Esses estágios denotam a verdade “mais inapreensível” com o cristianismo, a verdade como coisa-em-si do kantismo, o desdém da verdade como o em-si e portanto com o positivismo para quem o fenômeno é tudo, e, enfim, a constatação da verdade como inútil, o que abre portas para a valor da utilidade, no qual pode reinar, por exemplo, o utilitarismo inglês. Nesses passos, notamos no segundo estágio: a verdade “se torna mulher” e “torna-se cristã”, porque se manifesta “mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível”. Essa verdade mulher faz contraponto com a verdade mulher de A gaia ciência, que é grega e tem nome: Baubô. Quem é Baubô?
A história de Baubô está na obra homérica em uma passagem sucinta. A deusa da fecundidade e da agricultura, Deméter, está triste por causa do sumiço de Persófone. Não come e não bebe nada há dias. Eis que Baubô salta à sua frente e levanta suas saias. O gesto faz Deméter sorrir. Finalmente ela parece poder sair da crise depressiva, e a própria fecundidade da terra está salva. Na leitura desse episódio, Sarah Kaufman alerta para a semelhança desse mito grego que, por sinal, permaneceu nos tempos romanos e até chegou à modernidade, com narrativas semelhantes em culturas como a japonesa e irlandesa. Levantar a saia e, então, provocar riso torna-se algo com fins de eliminar a má sorte. O gesto está ligado ao retorno da vida, e Baubô também é o nome de kolia, palavra usada para denotar os órgãos sexuais da mulher – a vulva, a entrada para o lugar da vida, o útero. Não à toa as figuras de Baubô na história são as de uma mulher que ou abre a vagina ou que tem um rosto desenhado na barriga, não raro fazendo a boca coincidir com vulva.
Desse modo, se há uma mulher que não é nada sutil é Baubô. Nada cristã, essencialmente grega, talvez uma anunciadora do deus do êxtase, Dionísio, que nunca vestiu roupa alguma. Baubô faz rir e anuncia vida. Baubô mostra as partes pudendas, o inusitado faz rir e afasta o azar. Baubô faz um gesto que tem conotações obscenas. Ela é aquela que “tem razões para não mostrar sua razão”. Em outras palavras: ela apresenta algo – a verdade – sem dar fundamentos ou mesmo justificativas. A verdade mostrada sem requisitar fundamentos é, sem dúvida, a verdade na concepção de Nietzsche. Aliás, nesse caso a concepção de Nietzsche da verdade se aproxima da de Donald Davidson: a verdade é um conceito primitivo, sabemos usá-lo e, se o sabemos, temos uma linguagem, mas não há possibilidade de reduzir um tal conceito a outros e explicá-lo sem cair num círculo. Quando queremos explicar a verdade recorremos ao significado e para explicar este precisamos da verdade. Talvez se Nietzsche tivesse vivido um pouco depois, ele pudesse gostar de filosofia analítica, ao menos esta não fundacionista de Davidson e Rorty. Uma verdade vista por seus efeitos, pelo seu pragmatismo portanto, e não pela sua profundidade.
A verdade como Baubô. Então, uma verdade que nada tem a ver com adequação, mas como o que produz efeitos como o fazer rir, isto é, a verdade como o que satisfaz, dá alegria e nos livra da má sorte. Uma verdade produtiva, em um sentido aproveitado por Deleuze. Se há razões nessa verdade, ela se autodispensa de bases. A verdade como noção que se relaciona com Nietzsche é isso: o que entendemos sem explicar. Sabemos usar a noção e pronto. É tudo. Ser nietzschiano pode ser algo do tipo: se acostumar com o uso de “verdadeiro” de modo a ter um expediente para lidar com determinadas situações, sem querer ver tudo, sem querer ser indecente. Ver tudo é deixar a garota de nove anos apavorada com a indecência de um olho que não quer ser perspectivista porque tem todas as perspectivas de uma só vez, que é “a perspectiva do Olho de Deus”, na frase de Thomas Nagel. Nós terráqueos não temos essa indecência. Podemos ter desejado tê-la. Podemos ter acreditado que a teríamos, mas ao nos encontrarmos com Nietzsche optamos por algo que a filosofia analítica veio chamar de “desinflação” metafísica. O conceito de verdade é o conceito de verdade, e nada mais. Como Baubô, eu mostro a verdade, o lugar do útero que é o lugar da verdade, e não preciso de nenhuma explicação para tal. Um útero que é local de verdade e que permite que adentremos nele de modo cuidadoso, de modo a descrever a jornada sem ter de explica-lo. Um útero assim é um útero à espera de Peter Sloterdijk.
Falar em verdadeiro e falso tendo abandonado a noção da verdade que se explica é a posição do ironista Richard Rorty. De certo modo, é a doutrina anunciada por Nietzsche, se é que ele tem uma teoria da verdade. Ser irônico no sentido rortiano: admito algo como verdadeiro (ou falso), mas já dei passos filosóficos em um sentido que não permitiria eu falar em verdade e falsidade se isso fosse depender do que até então dependia, de possuir uma visão “da perspectiva do Olho de Deus”, porque não lido senão com os usos linguísticos da palavra verdadeiro, e não como uma metafísica capaz de nos dar A Verdade. A discrição é a marca dessa teoria da verdade inspirada em Nietzsche – e que tem o apreço de Peter Sloterdijk.
Falando da sua investigação, Sloterdijk encara o momento que chega ao útero como especial. Trata-se de abordar o centro de gravidade da sua “expedição fenomenológica através de sequência formal de esferas íntimas e proximidades bipolares”. Nesse caso, a partir daí, ele entende que a questão toda da intimidade significa aproximar-se da barreira que veda o interior da mãe ao mundo público. “Se a confrontação ocorre entre o olho e a entrada do útero – relembrada pelas esculturas hindus nas entradas das cavernas modeladas como vulva de pedra – o exame do campo de intimidade chega à sua fase crítica.” Revela-se o local decisivo. Nele, fica-se sabendo se sujeito e objeto se colocam separados, como na relação clássica de conhecimento, ou se o sujeito entra o objeto em uma tal extensão que este último perde seu caráter de objeto, ou seja, sua capacidade de oposição. Nesse segundo caso, “um caso epistemológico bizarro se desenvolve entre a vulva e seu observador que porá fim a toda externalidade e concretude”. E Sloterdijk anuncia: em seu próprio modo precário, a vulva pertence àqueles objetos não dados que Thomas Macho chama de não-objetos. Ele continua: na ‘visão’ deles, o observador pode ser sugado para o interior ou deslocado – indo para o ponto onde não há mais qualquer coisa concretamente presente diante dele. Ele somente vê a coisa da mulher à medida que se posiciona diante dele como um observador frontal. Escolhendo essa posição final, ele pode deixar de ser um buscador, em um sentido parametafísico, aquele que quer atingir a base das coisas, tornando-se um “observador, um voyeur, um neutro, um cientista – por exemplo, um ginecologista, que estuda o sistema genital feminino desimpressionado por toda afetiva metáfora de volta ao lar”.
Entrar no mundo da verdade, ou seja, no útero, é então tentar não caminhar por rituais complexos, mas pelo caminho de quem toma distância, mantém uma postura de não comprometimento, de modo a não ser sugado no portão de entrada, na vulva. Não posso ter uma visão da verdade sem que seja por perspectivas, então, mostro-me capaz de ter instrumentos metodológicos para evitar o atordoamento da sucção, que ocorre com aquele que adentra a vulva possuído por ela em diversos sentidos, inclusive religioso. Tomo a vulva como o gesto obsceno grego: nada de mistérios, apenas percebo-a como o que faz sorrir. O lugar da vida faz sorrir, não exibe nenhum ritual capaz de desvendar toda a verdade, mesmo sendo ele o lugar da verdade. Não se atravessa a vulva sem que se tenha aderido à discrição de Nietzsche. É exatamente isso que Sloterdijk diz aqui:
Qualquer um que acredite em uma abordagem ritual estabelecida ante a entrada de todas as entradas, ou visões dela pela imaginação simbólica, é imediatamente afetado por uma sucção destinada a fazer de bobina os sentidos do observador. Aonde a Baubô real – a testemunha do coroamento de uma teoria de Nietzsche da verdade tornada discreta mais uma vez de Nietzsche – vem à vista, vê-la tem pouco futuro. Aqui olho de investigador quer e deve ser inutilizado pelo seu objeto. As pupilas dilatam diante do portal sugador. Quanto mais se aproxima, o observador sente como se um impotente aviso deslize justo para trás dele: o último objeto antes da grande obtenção de conhecimento! Na realidade, tão logo os entrantes tenham passado através da grelha da gruta, eles encontrariam a noite tropical; e a queda dessa noite esquisita marcaria o fim de todas as coisas baseadas na claridade, distância e concretude. De agora em diante, perguntar sobre o íntimo tem seu preço para a inteligência analítica.
Aqui, Sloterdijk tem de munir-se de um método de descrição e narrativa que adota a ficção, e isso condiz exatamente com a própria noção de verdade de Nietzsche, que não quer ver verdade nenhuma a descoberto, mas falar de verdade tomando-a com todos os véus que sempre a acompanham, sem qualquer “Olhar de Deus”, sem qualquer despudor, sem qualquer exigência de, como diria Descartes, “clareza e distinção” em um mundo que foge completamente das possibilidades de oferecer condições para tal. Ir para o escuro e para o que nenhuma concretude apresenta, percorrer a caverna, só é possível para aquele que, como Nietzsche, desistiu de uma teoria da verdade que exige sair da caverna. Ver na caverna é ver na caverna. Ou seja, não ver coisa alguma, mas assim mesmo montar uma narrativa ficcional possível de competir com qualquer outra narrativa descritiva.
Resumindo ao máximo: em Nietzsche há uma consideração que toma a verdade como um tipo de desdém pela pretensão de verdade, ou seja, uma escapadela diante de uma pretensão iluminista de desvendamento, e uma aceitação da verdade como o que vem com impurezas que lhe são próprias, seus véus. Isso é coadunável com a disposição prática de Baubô de antes fazer rir, curar e afastar o azar que de criar intelecções com clarificações. Coincidentemente Baubô é aquela que mostra a porta da vulva, lugar em que Sloterdijk quer entrar, o lugar de verdade dos antigos; para entrar nesse campo é necessário contar unicamente com a noção de verdade de Nietzsche. O positivismo de Nietzsche é especial: ele aceita investigar onde não há clareza, pois aceita a vida como o que não possível de ser regida pelo princípio da indiscrição e do despudoramento.
Investigar aquilo do qual não há lembrança, registro de linguagem, nenhuma clareira? Faz-se necessária uma teoria do meio, do “entre”. Uma teoria do “entre” é o que Sloterdijk diz encontrar com o filósofo e antropólogo alemão Thomas Macho.
Em Thomas Macho, Sloterdijk encontra os não-objetos. Essa conversa sobre não-objetos talvez fosse tudo que Nietzsche gostaria de levar adiante para poder continuar falando do mundo, das coisas enfim, já que ele não podia mais conviver com qualquer objetificação posta em clareira e analisada segundo a evidência de caráter platônico-iluminista. Quando Baubô levanta a saia podemos rir, e a sisudez de quem vai ter visões da verdade termina.
O lugar de toda a verdade pode ser penetrado sem que se deseje apanhá-lo com mãos cheia de olhos, como aquelas do monstro do filme O labirinto do Fauno.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Bater na cara de uma professora pode né jhiraldelli?!!
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