Quando no final do século XIX, Nietzsche escreveu que tínhamos feito desaparecer o “mundo aparente” e, então, com ele também o “mundo verdadeiro”, muitos filósofos resolveram desconsiderá-lo como filósofo. Quando William James escreveu que “o verdadeiro é o que é útil”, o escândalo não foi menor. No decorrer do século XX, essas maneiras de pensar tiveram seus altos e baixos. Mas, mesmo os filósofos que jamais concordaram com os pragmatistas americanos ou com Nietzsche, sabiam que havia problemas com a noção de verdade. Eles estavam conscientes de uma certa circularidade na noção de verdade como correspondência. A noção parecia ser necessária, porém, tinha pouca capacidade explicativa.
No final do século XX e início do século XXI, Richard Rorty e Donald Davidson voltaram à carga, fustigando essa noção de verdade quanto às suas pretensas funções explicativas. Grosso modo o que falaram foi o seguinte. Ao definirmos que “um enunciado é verdadeiro se e somente se ele corresponde ao fato”, logo devemos nos lembrar como é que definimos o que é um fato. Dizemos que “fato é o que corresponde à verdade”. Eis aí a circularidade. Eis aí o impasse a que chegamos quando queremos explicar algo por meio da noção de verdade.
Donald Davidson encontrou uma solução para tal problema, simplesmente aconselhando a deixar de lado a função explicativa da verdade. A verdade, para ele, é um conceito primitivo, como o ponto para a geometria. Sem o conceito primitivo, básico, praticamente não temos como ter uma linguagem. Assim, quando dizemos que um enunciado é verdadeiro porque corresponde a um determinado fato ao qual ele quer denotar, as boas questões que podem ser colocadas não dizem respeito à correspondência, e sim ao modo que se fez para se chegar à construção do fato. Em filosofia dizemos, então, que o problema da verdade passa para o campo da epistemologia, deixando o campo da lógica. Na filosofia pragmatista, particularmente, o que se sugere é que se faça um elenco de procedimentos para se atingir consensos temporários.
Desse modo, no âmbito filosófico, não é uma novidade ficarmos sem a noção de verdade como elemento explicativo. O senso comum nunca ficou sabendo disso. Tanto é que advogados e jornalistas, mesmo antes da internet, diziam por aí: “contra fatos não há argumentos”. Essa afirmação é uma tolice. Pois é justamente no momento de se apontar o fato que mais criamos argumentos. Quando se trata de delimitar o fato, logo de início o que se faz é argumentar de diversas formas, na busca da construção da narrativa que, enfim, após um consenso, será chamada de narrativa factual. Diante do que se denomina “fato”, nunca há outra coisa senão relatos de todo tipo, as narrativas. A partir de um certo número de narrativas, um grupo de pessoas – que varia de tamanho e de qualidade segundo cada caso – acaba por estabelecer um consenso sobre como será a narrativa eleita como a verdade inicial, ou seja, o fato.
O senso comum nunca precisou desconfiar da verdade como correspondência. Pois, no âmbito das conversações comuns, bastavam os procedimentos corriqueiros nos quais nos servimos da noção de verdade como conceito primitivo. Junto disso, vinham os procedimentos para se conseguir uma narrativa consensual inicial, o fato. Além disso, com o mundo da fotografia e o império da imagem, então, a factualidade pareceu de início ter ganho um aliado exuberante. Tanto é que fez sucesso o mote “uma imagem vale mil palavras”. Esse slogan correu o século XX todo, para o bem e para o mal. Às vezes era a caricatura que deveria dizer mais, às vezes era a foto realista que tinha que dar a “última palavra”.
Assim, os filósofos ficaram discutindo “teorias da verdade”, e o senso comum olhava para essa atividade como coisa de louco. Mas agora, o senso comum está experimentando uma parte da angústia dos filósofos. É que justamente a imagem vinda das mídias é um barco fazendo água.
Vivemos agora a desconfiança em relação à verdade no âmbito do senso comum. O desespero dos filósofos ficou de lado, abrindo espaço para o desespero de todos. Se uma imagem é um tipo de coadjuvante poderoso no relato de um fato, tudo se complica com a Inteligência Artificial (IA). Pois, com ela, ganhamos imagens que podem simplesmente nos levar a desconfiar de que há um fato ao qual nunca alcançaremos. O hiperrealismo da imagem se tornou o que entendemos como real e, com isso, perdemos o que acreditávamos que tínhamos, ou seja, os critérios de se chegar na verdade. Procuramos o fato! Mas, o que é o fato? É ele algo que muito deve à imagem? Como chegamos a uma imagem que não seja ela mesma fruto da “imaginação” da IA?
Platão tinha pavor do simulacro, não da cópia. Se há a cópia, há o original. Mas, se há o simulacro, o que temos é a produção de algo novo, alguma coisa que quer se fazer como real e, enfim, na sua irrealidade ela se torna real. A IA é uma máquina de simulação. Faz o simulacro em profusão e, pela internet, atinge todos em um tempo que é quase o imediato. De certo modo, com isso, a questão da verdade deixa de ser do âmbito da filosofia e passa para o campo da sociologia.
Critérios cognitivo-sociais a respeito de como criar consensos em torno de uma imagem é que estavam em jogo, até poucos meses atrás. Mas tudo se complica agora, pois para se obter consenso é necessário tempo. Ora, o capitalismo tende ao tempo zero, e a internet nasceu em comum acordo com o capitalismo. Ela está em simbiose com a circulação do capital que tende a tempo zero. Ela é uma maquinaria de tempo zero. Ela muda o conceito de espaço. Pois, com ela, nós acabamos por ocupar vários espaços ao mesmo tempo. Justamente no momento histórico em que todos podem conversar com todos, e que o consenso poderia se exercer de modo mais otimizado, o tempo é subtraído de maneira que as imagens atingem todos sem que sequer se possa pensar em consenso. Exatamente agora, surge a IA com capacidade de produção de simulacros em um volume estonteante. As Big Techs transformaram a internet nessa armadilha.
Desse modo, com o simulacro impregnando toda a nossa vida, os processos cognitivos se modificam. De um lado, há uma tendência à passividade devido ao atropelamento de tempo e ao cansaço. Aceita-se todo tipo de imagem. De outro lado, o pensamento que se acha crítico se modifica radicalmente. O máximo de ponderação que se consegue é a decisão por meio de “sim” e “não”. O plebiscito passa a ganhar status de crivo crítico. Ora, sabemos muito bem que o plebiscito é a maneira mais autoritária e mais emburrecida de se decidir alguma coisa.
Que fique bem claro: não estou falando de redes sociais, falo de internet em associação com a IA. Toda as pesquisas científicas e mesmo filosóficas, todo o ensino está atuando em rede e já subserviente da IA, desse modo, o espaço e o tempo modificados não impregna só o senso comum e o roteiro da democracia. O que se altera é a própria cognição que, em princípio, deveria se fazer em um nível de maior controle do tempo e do espaço condizentes com a própria pesquisa e com o ensino, e não com elementos exteriores. É efetivamente aqui que está o problema que vamos ter de enfrentar.
Paulo Ghiraldelli.
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Jhiraldelli bateu em uma professora, covarde! Jhiraldelli foi expulso de uma universidade pública, pateta! Jhiraldelli foi esculachado de outra universidade pública, banana!
Não foi não! Foi um grupo de alunos baderneiros que interrompeu uma aula que ele dava, com um convidado externo. Um tipo de comportamento fascista. Fascismo subjetivo se vê na direita e em certos grupos que não se assumem como direita, mas que o são.
Parabéns, Professor! A IA é a maior arma de que o fascismo já dispôs. Em 2026 é Lula contra a IA. Parada dura.
E O TAPA NA CARA DE UMA PROFESSORA????? E A EXPULSÃO DA UNIVERSIDADE????? JHIRALDELLI AGRESSSSSOOOOOOOORRRRRRRRRRRR!!!!!!!! JHIRALDELLI BANDIDOOOOOO!!!!!!!
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