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CYBORG

O primeiro cyborg foi Adão. Ele viveu no Paraíso. Mais que um lugar, esse nome diz respeito a uma condição. A vida no Paraíso é a de inexistência de mediações. O mundo, ou seja, o Criador, fala a Adão diretamente. A relação adamítica com a natureza é de não-trabalho e de completo desconhecimento do medo. A ideia do cyborg é, no limite, exatamente a de uma vida sem mediações, uma espécie de simulacro do Eden.

O cyborg é um projeto: a overdose de mediações entre o homem e o meio em que vive é de tal ordem que o resultado deve ser a não percepção de qualquer mediação. A mediação se torna alguma coisa a ser desconsiderada. Contar sua existência passa a ser como que acreditar em fantasmas. O cyborg é a potencialização da condição humana em sua fusão com o maquinário que o próprio homem cria, de modo que os humanos deixam de reconhecer as mediações. Quando se respira por aparelhos desde o nascimento, não há o que reclamar.

Qual é a tecnologia que faz parte de Adão? Qual a tecnologia que temos que nos faz ficarmos titubeando em sermos seres de cultura e seres da natureza, sem poder decidir? Sim, é a voz. A linguagem é essa ciborguização que é inerente a Adão, o animal que fala por meio de uma voz estranha, a voz articulada, ou seja, a linguagem. Daí para diante, toda e qualquer tecnologia não deveria ser estranha ao homem.

Um cyborg não é um homem com braço mecânico. Não é o homem repleto de próteses. O cyborg não se parece em nada com a ficção do cinema e dos quadrinhos, quando estas maquinizam o homem, robotizam o homem. O cyborg é a fusão do homem com a sua criação. Trata-se de seu adentrar na cultura de uma maneira especial: ele subsume a tecnologia e é por ela subsumido. O cavalo com estribo montado pelo cavaleiro mostram uma máquina de guerra mais poderosa que a dupla cavaleiro e cavalo sem o estribo. Basta que o homem ponha o pé no estribo para que a dupla homem-cavalo se torne um protocyborg poderoso. Essa máquina aponta para situações iniciais de um cyborg. O homem carregando o celular vai por essa mesma via. O celular não precisa estar incrustrado em seu cérebro. Estando no bolso e nas mãos, já põe o homem em um agenciamento maquínico. Homem e celular formam um cyborg.

A cyborguisação tem avançado a passos largos, desde seu primeiro passo, a linguagem. Os exemplos do cotidiano são infindáveis. Abro um site em qualquer língua e ele aparece para mim na minha língua materna. A IA atua para que isso ocorra sem que eu precise acionar mais que uma vez o tradutor instalado no meu navegador. Uma vez instalado, eu me esqueço das diferentes línguas. Escrevo alguma coisa, então, pelas funções já instaladas: o “autocompletar” e o “corretor automático”. Entro no carro e sou levado ao meu destino por meio de aplicativos e, em alguns países, nem é necessário que o motorista se faça presente. Na infosfera ocupo vários lugares ao mesmo tempo, rompo com a determinação de que meu corpo não pode estar onipresente. O tempo virtual desaparece, tudo é tempo real. On e Off não possuem mais distinção. Não há quem esteja Off! Entro no elevador de acordo com uma porta que me dá permissão para tal pelo reconhecimento facial por câmeras. Há mediações, mas elas fazem questão de se tornarem cada vez mais sutis, de modo que em pouco tempo, as desconsidero. Elas permitem o fluxo, a vida sem ruído, a estética do liso, a depilação, a paixão apática. Tudo fica tão sem mistério que muitos se tornam histéricos, teatralizam a si mesmos para que exista, na sociedade, algum movimento, algum simulacro de efusão de sentimentos. Quando os drones atacam um vilarejo às crianças podem morrer, mas na contabilidade da central de guerra houve apenas neutralização do inimigo. O mundo cyborg tem apreço pelo eufemismo.

Muitas pessoas estão ainda na condição de Adão decaído, aquele que adquiriu um estranhamento com o mundo, com o Criador. Mas, mesmo essas pessoas, os pobres, em alguma dimensão de suas vidas, passam por aquilo que os mais ricos vivem já faz algum tempo, e que experimentam continuamente: a condição de não ter mais nenhuma experiência, ou seja, a condição adamítica antes da queda.

Já houve um tempo que o cyborg foi tomado como o homem-máquina. Mas essa nomenclatura foi um erro. Ele, o cyborg, desde o início, sempre foi a promessa da adamitização, uma semifusão entre homem e mundo, como uma reentrada no Paraíso, ou seja, uma vida sem experiência, mas com experimentos a todo momento. No Eden não pode haver experiência alguma – ela é inócua. Para uns, essa condição chama-se utopia, para outros, distopia. Para os primeiros, trata-se de evitar a serpente, para os segundos, a esperança é de encontro com o réptil. Nesse segundo caso, pede-se nova queda, com a abertura para a possibilidade de ganhar o pão com o suor do rosto, contanto que, convenhamos, seja um suor desportivo. Almeja-se pela volta da experiência e não mais a continuidade do reino do experimento.

A subjetividade maquínica é essa configuração na qual não sabemos se temos de chamar ou evitar a serpente. Vive-se  uma fusão que faz vigorar a infosfera. Nela, somos agenciados maquinicamente e agenciadores maquínicos. A ideia básica desse projeto é o de velocidade máxima para a adamitização, o momento em que nós, cyborgs, possamos não mais no reconhecer como cyborgs. Na infosfera, a inflação semiótica e a deflação semântica, ou seja, o fim da hermenêutica, da necessidade de interpretação, é um constituinte básico. O cyborg pode viver assim, em um transbordar de fluxos cuja promessa é a desoneração.

Estamos próximos dessa condição. Tudo depende de como vamos lidar com a serpente, afastando-a ou convidando-a para ouvir nossa oração, a que pede a liberdade que se recebe na queda. A serpente, enfim, se tornou o ser único para o qual dirigimos orações. Liberdade é o tema central em ambos os credos. A liberdade de se poder viver experiências do suor do rosto. A liberdade de não suar, de viver em fluxos sem atrito. Quando olhamos não muito de perto, os fieis das duas igrejas parecem rezar igual.

A serpente cumpriu uma profecia: torna-te o que tu és. Ela enfim se fez dona de duas religiões, duas igrejas. Senhora de nosso destino. Os cyborgs, que somos todos nós, se dividem. Há a igreja em que a serpente é libertadora, deve nos reconduzir ao suor para ganhar o pão, e há na outra igreja a serpente da tecnologia, que deve nos conduzir à indistinção para a qual nos aproximamos, a tão sonhada aquisição da segunda natureza – uma promessa dos filósofos, uma tarefa que, antes, era a função do professor. Dar ao estudante uma disciplina para que ele pudesse, tendo formado uma segunda natureza, fazer seus repertórios desbravar o mundo. Assim agia o professor. O cyborg é a realização do homem em segunda natureza, mas sem o magistério.

A infosfera é preenchida por fluxos. Fluxo de linguagem, dinheiro e trabalho. Esses fluxos se tornam de tal modo imateriais que, enfim, nós mesmos não sabemos se há alguma individualidade corpórea em nós, ou se tudo já se faz sem que tenhamos que morrer. Estamos já na trilha da não experiência e da obsolescência da noção de morte. Podemos pifar, não morrer. Adão podia pifar, mas morrer, isso foi algo que ele conseguiu somente após a queda. E assim mesmo, demorou.

Só não somos de todo cyborgs por conta do baixo-ventre – isso foi o que não disse um filósofo. Foi bom ele não dizer isso, pois seria contrariado agora que somos cyborgs, mesmo com o baixo-ventre. Estamos prestes a abolir o baixo-ventre. Não creio que será difícil também nisso darmos o passo que a configuração do cyborg exige. O escancaramento de tudo, a clareza do mundo, sua pornografização contínua é coadjuvante da vida cyborg. Perceber mediações está se tornando algo antiquado.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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3 comentários em “CYBORG”

  1. Hmmmm…

    ” Isso ” tem cara de dualidade Matrix X mundo ” real “, ” onde ” ambos se retroalimentam.

    Ok

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