Notas sobre “Comentário da nova tradução de Fédon”
Paulo Martins comenta a nova tradução do Fédon, de Platão, levada a cabo pelo professor Gabriele Cornelli. (A Terra é redonda, 27/10/2025). Em certo momento de seu comentário, afirma: “Gabriele Cornelli diz que Platão não é idealista, mas sim realista. Concordo em termos, pois as etiquetas ‘realismo e idealismo’ são conceitos que também fazem parte da fuligem e do mofo da história do texto sobrepostos ao filósofo.”
É mofo e fuligem mesmo? Talvez, mas essas classificações continuam vigorando em sala de aula, e não só no ensino médio. Em ambos os casos, há justificativas. Platão foi ensinado no Brasil inicialmente por uma bibliografia de origem europeia ou, mais tecnicamente, de matriz da “filosofia continental”. Alemães, franceses e italianos deram o tom para o magistério. Ficou conhecido como o filósofo do mundo das ideias. Quem nunca ouviu falar disso, não é? Quem haveria de discordar? Mais recentemente, também aportaram no Brasil estudos vindos da “filosofia analítica”. Nesse caso, Platão foi identificado como o filósofo que fez da ideia o que seria o real, e não o existente. O peso ontológico cabe ao plano das ideias. Então, Platão foi chamado de realista. As duas narrativas são perfeitamente capazes de conviver. Aliás, elas convivem. Não há contraposição. No meu ensino, evito esse rótulos, pois a rotulação às vezes tira o raciocínio, mas, enfim, nesse caso de Platão não há problemas, basta entender de onde elas surgem e a razão pela qual se colocaram.
Há mais uma passagem do Paulo Martins que me chamou a atenção. Ele diz, de modo seco e sem considerações, que o método de Sócrates é a maiêutica. Ora, também aqui faz necessário olhar para as escolas de investigação. Os professores da filosofia continental propagaram essa ideia, seguindo as abordagens que não deram tanta importância para a distinções entre o “Sócrates de Platão” e o que seria o “Sócrates histórico”. A tradição investigativa vinda da filosofia analítica fez muitos estudos de distinção entre os dois filósofos, e um dos pontos de divergência surgiu exatamente nesse aspecto. O método de Sócrates seria o elenchos, o método da refutação, presente nos chamados “diálogos socráticos”, enquanto que a maiêutica estaria presente nos chamados “diálogos intermediários” de Platão.
Houve um época em que eu insisti nessa diferença entre a maiêutica e o método do elenchos, em um esforço para introduzir entre nós o ensino de uma nova bibliografia a respeito de estudos socráticos. Não sei o quanto isso fez ou não diferença. Notei que a professora Marilena Chauí buscou uma saída de conciliação entre essas diferenças. Para ela, Maiêutica seria um método maior, que englobaria o elenchos. Não me pareceu uma boa solução. Aliás, acho desnecessária, basta observar os caminhos possíveis de Sócrates e Platão, e o quanto se pode separá-los. Fiz um percurso dessa discussão historiográfica em Dez lições de Sócrates (Vozes, 2019). É de fato uma discussão mais afeita aos historiadores da filosofia que aos filósofos. Por exemplo, Nietzsche deu pouca atenção para essas divisões. Aliás, sempre jocoso e eroticamente mordaz, ele chegou a escrever: Sócrates é Platão na frente e atrás. Levando-se em consideração as afeições gregas na direção do homerotismo, pode-se dizer que Nietzsche era imperdoável.
Por fim, há uma terceira passagem problemática, e nesse caso não dá para engolir. Paulo Martins, que é do campo das Letras e não da Filosofia, considera que Platão é, além de filósofo, um sofista. Motivo: escreveu de uma maneira a mobilizar forma e conteúdo. Habilidades retóricas passadas para o papel. Ora, Platão foi grande filósofo sendo grande escritor. É praticamente o inventor da filosofia como gênero literário. Fez uma das principais distinções sobre o que é ser filósofo e o que é ser sofista. As distinções que fez, contidas em O sofista, não incluem o estilo de escrever, mas o objetivo da investigação. Nesse escrito, Platão mostrou que lobo é lobo e cão é cão. A ruptura que Platão propõe é justamente a da filosofia em relação à sofística, e isso por uma razão forte, que não permite conciliação. Os sofistas são os que não se importam com a verdade, e isso é justamente algo não conciliável com a busca do filósofo, que é a busca pela verdade. Nesse caso, a invenção de Paulo Martins não permite deglutição, nem com mastigação demorada.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Muito obrigado professor!
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