Vivemos na sociedade da descorporificação. O mundo é o mundo por imagens. Os corpos podem ser atingidos por projéteis mortais lançados por drones, sem muita revolta, pois, afinal, são imagens. Ninguém sente por imagens, mas por pele. O gamer militarizado é o hitlerzinho revivido: sempre jovem, mas sem contatos físicos com a amante. Perdemos a distinção entre off e on. De fato, uma distinção que já não existe. A a vida bidimensional das telas ficou imperativa. As pessoas fazem sexo e se filmam em celulares. Postam para terceiros, e só assim podem imaginar que o sexo que fizeram têm algum significado. A libido é zero, e só a imagem de si mesmo mostrada para outros parece recuperar alguma semântica erótica.
Em um mundo descorporificado é natural que alguns, maculados em seus corpos de carne ainda na infância, ou simplesmente maculados pelas fantasias que tiveram a respeito de algum mal corporal, vejam as imagens de corpos de modo confuso, sem saber o que ocorreu com elas próprias. Então, qualquer imagem que faça alusão ao corpo – sendo o sexo tomado como sinônimo de uso do corpo – pode levar a uma reação incômoda. Só a imagem é real, e isso pode conduzir as pessoas a uma hipervalorização da imagem a ponto de tomá-las como o inimigo. Agem como os drones: atacam as imagens, acertam pessoas que nem estiveram na mira. Nessas situações é que entendemos como tudo está algoritmizado!
A geração Covid ficou sem beijar. Ficou sem se tocar. Boa parte dessa gente foi coarctada quando seus corpos iriam começar a despertar. O corpo sofreu uma imensa derrota. Já estava perdendo terreno pela atomização criada pelo neoliberalismo, que destruiu espaços de convívio social. Com a Covid, então, tudo se acelerou no sentido da descorporificação. Temos que glorificar o corpo nu de 52 anos, de Letícia Spiller, pois é a nossa tentativa desesperada de não nos deixarmos afundar de vez no poço do moralismo barato e de um ascetismo inócuo. Letícia, paquita veterana, é nossa última taboa de salvação. Ao final, temos de confessar: Xuxa nos deu um resgate! Ao mesmo tempo, os que já estão no fundo do poço da mágoa com o corpo, real ou fantasiada, procuram outro tipo de tábua de salvação. Nesse caso, acusar outros de que estão fazendo algo repugnante, também é uma forma de tentativa de sobrevivência. Funciona como uma Letícia Spiller negativa. O nu ou a sensualidade são o pecado maior. Avisar outros do pecado é uma forma de encontrar uma missão que faça a vida ter algum sentido.
O influencer Felca faz parte dessa geração que não entendeu bem o corpo. Ou que entendeu até demais. Branco, olhos claros e cabelos longos lisos, ele se apresenta segundo os padrões daquilo que no final do século XX chamávamos de andrógino. Foi até moda! Não é mais. É um tipo de fantasma. Seu vídeo, tão idolatrado rapidamente pela Rede Globo, foi envolto em um script que chega a dar desconfiança em quem gosta de teorias da conspiração. Aceitaram muito rapidamente o que seria um combate à violência contra a infância, mas que na verdade cheira um manifesto altamente individual de ojeriza ao corpo, de temor diante da sensualidade, de admissão do corpo apenas como cabide de peças de vestuário que neguem não só o sexo, mas até o gênero. As falas no vídeo de Felca são confusas. Felca parece não saber direito o que quer fazer com o que caiu nas suas mãos e que lhe provoca sentimentos que ele não sabe bem explicar. Denunciar alguém que já está sob a mira policial? O que é isso? Obstrução de justiça. Mas ele parece não se importar com isso. O vídeo é um grito completamente subjetivo. Na verdade, é um gemido de desespero de quem parece estar afundando sua alma atormentada em uma areia movediça semiótica. É Felca gritando, e de modo muito pessoal. Para quem tem bons ouvidos e bons olhos o vídeo de Felca é nitidamente o som de uma criança pedindo socorro. Uma criança cujo próprio corpo, ela mesma não entende.
Felca não sabe o que é pedofilia. “Pe-dó-fi-lo” – trata-se de um som que provoca vertigens, pois remete a coisas que imagina que são pedofilia, mas não são. Um pouco de estudo, e ele se sairia melhor. Mas influencer estudando é algo inusitado. O influencer sempre já sabe tudo. Influencer é o que no passado, na escola, chamávamos de um sabichão!
Ele se espanta com adolescentes que dançam. É como se ele não tenha tido nem infância e nem adolescência. Ele ficaria horrorizado com as crianças imitando Xuxa ou Carla Peres, ou fazendo o quadradrinho de oito, ou então usando as pulserinhas coloridas que apontavam preferências de relacionamento (lembram, como isso horrorizou certos pais de classe média?). A vida dos adolescentes é repleta de rituais de iniciação, a maior parte dessas práticas são da ordem corporal e corporal-erótica. Ele viveu isso? Não sei a idade do rapaz. Mas creio que viveu coisas assim de um modo completamente atabalhoado. Pode ser que tenha passado por alguns horrores – reais ou fantasiados. Ao final do vídeo, Felca acaba confessando o que o guiou. Após apresentar uma psicóloga falando jargão banal, ele termina por desconstruir todo o vídeo ao confessar que fez aquilo por conta de que estava sendo acusado de pedofilia. Devolveu o ataque, quase que num esperneio.
Aliás, o vídeo e toda a discussão em torno dele na internet na mídia tradicional parece não saber o que é pedofilia. Um pedófilo não pode nem ver meninas e meninos adolescentes. Estes, tentam imitar adultos. E o pedófilo sofre de uma doença miserável que o empurra para ter contato com criancinhas, nunca com crianças que já se pareçam adultos. O que o pedófilo mais detesta é a menina-moça. O romance Lolita jamais mostrou um pedófilo. A confusão terminológica já foi desfeita pelos médicos, faz tempo. Mas parte da sociedade que se diz letrada teima em ignorar a conceituação.
O certo é que a sanha em censurar, que sempre aparece de tempos em tempos, agora ganhou um componente aparentemente não tradicional, não ligada às senhoras defensoras de pudores que elas próprias não possuem. Contra a direita que quer a liberdade total das mídias, que se tornou a ditadura dos algoritmos em favor do gerente geral do mundo (que é o capital), uma parte da esquerda quer restrições às Big Techs. Ora, a melhor restrição é a que tira o celular na hora escolar. Fora isso, é necessário dar aos jovens o livro e o esporte, o uso da cabeça e das mãos para além do polegar que o símio também tem. Pior ainda o celular que grava aulas e reuniões. Tudo isso é roubo contra o corpo, contra o tempo de vida. Mas esse roubo hediondo se faz, também, na insurgência contra as danças e movimentos corporais sensualizados. Criança imita, aprende a manusear o corpo. Não sensualiza. Ou seja, sensualiza por imitação. Mas isso é feito como ato necessário de treinamento, que todo mamífero tem de fazer para adestrar seus instrumentos. Caso não faça, se torna um aleijão. Felca é um aleijão? Ah, mas podem dizer, fazendo objeção ao que digo: Felca não está contra a dança, mas sim contra a sua exibição, contra os desejos malignos que isso pode despertar. Não! O tom com que ele denuncia as crianças é de repugnância. Há um claro problema muito pessoal ali. Além disso, é ridículo proibir as crianças de dançarem em público por conta de que trilhões de pedófilos no planeta Terra e outros planetas irão estar vendo. Não existe tanto pedófilo quanto os que Felca julga serem pedófilos. E mais uma vez insisto: abusador de adolescente não é pedófilo. É só abusador. Felca se atrapalha com tudo, pois sua cabeça é tão confusa quanto seu corpo e sua própria sexualidade. Não à toa a filha do Temer logo apareceu para glorificá-lo, com aquela porcaria da campanha “Agora você sabe”. Ela quer que todos comece a gritar histéricos: “fui abusado, fui abusada”. Virou moda entre os famosos: só é artista quem conta como foi abusado na infância!
Todo o pessoal que agora se espanta com o denuncismo barato de Felca se calou quando um cidadão capenga, vestido de presidente da República, entrou em uma zona de meretrício por conta do “pintou um clima”. Ele entrou, saiu e não foi ao conselho tutelar falar o que viu. Ele entrou para ver as meninas. Não fez sexo, dizem. Mas claro que não! Como faria? As boas e as más línguas disseram que ele, já naquela época, estava impotente. Aliás, naquela época, uma parte da esquerda errou, e falou em pedofilia. Bobagem. No cargo máximo do país, quando se é de direita, há a prerrogativa de ser abusador.
Esse pessoal que ficou calado diante do cidadão capenga na zona de meretrício de garotas venezuelanas, agora resolveu se espantar com o vídeo torto e mal feito de Felca. As Paquitas de Xuxa, as mulatas do Sargentelli, as boletes do Bolinha, as chacretes do Chacrinha e também, já em anos recentes, a Dança das Crianças do Faustão, deveriam ter seus diretores amarrados em postes e queimados, numa ressurreição da era de limpeza da Terra, a nova época de reposição do clima medieval do fim das bruxas. Assim querem os do Partido de Felca, que deverá durar uns dias. Logo o partido será chefiado por outro. É o tipo de partido que troca de chefe bem cedo. É também o partido da mídia, pois a mídia, não tendo muito o que falar, cria ela própria notícia para poder condenar a si mesma. Mas, nesse caso atual, há mais coisa em jogo. Nos bastidores do poder, o que está em jogo não é a nudez ou a preocupação com a infância, mas o dinheiro nu. O problema é com o dinheiro que as Big Techs ganham.
As Big Techs são monstros que se apresentam indomáveis. Para a esquerda, elas são proativas de um vasto programa social de terror, que expõe um espelho que visa criar o narcisismo sem Narciso. Eu creio nisso. Já escrevi sobre isso no Capitalismo 4.0 (CEFA Editorial, 2025). Mas, para uma parte da mídia profissional e seus proprietários, as Big Techs são um problema por funcionarem como ladras de conteúdo. Sem pagar direitos, elas publicam o que o jornalismo profissional e pagador de impostos produz. Essa é a raiva da Rede Globo contra as redes sociais, e na verdade contra as Big Techs. É uma discussão válida, mas não deveria estar cruzada com a discussão sobre violência contra crianças, muitos menos sob o viés moralistóide e doentio do vetor motivador de Felca. A Rede Globo quer atirar com qualquer arma. E nisso, às vezes erra mais que acerta. Acaba alimentando a descorporalização crescente que atinge tudo, que irá fazer nossas crianças desaprender do uso do corpo mais do que já ocorre, e irá nos colocar todos na busca de novelas e programas cada vez mais censurados. E isso nos dará mais gente como Felca falando de sexo, e também mais gente como Damares, em discursos de igrejas, descrevendo em detalhes práticas sexuais de uma imaginação que algum arremedo de Sade já deve ter tentado.
Mas eu confio nas crianças. Algumas escaparão dos tentáculos de Felca e de outros tão doentes quanto os tais bilhões de pedófilos que, segundo essa gente, está pronta para sugar o sangue de todos nós. As crianças irão continuar dançando, expondo bundas para cima, pulando. Meu medo é que, fazendo assim, elas se preparem para o sexo, para o erotismo, para o uso dos corpos, para a vida, mas então, uma vez adultas, não possam fazer nada disso, pois já não existirá nada a se fazer com o corpo, tudo já estará pronto, filmado. Meu medo maior é que o Fantástico da Rede Globo, dirigido pelo Felca, seja a programação obrigatória das escolas. Pode acontecer? Pode! Mas minha fé diz que não. Confio nas crianças, elas vão escapar de Felca, de Damares e outros do mesmo tipo.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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