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PARA ONDE FOI O CORPO DA MULHER?

Aqueles que acompanham as heroínas das Histórias em Quadrinhos (HQ), sabem que elas sempre adotaram um tipo de vestuário que, hoje, é o que está na moda. Ou ao menos é o que é corriqueiro das mulheres usarem. Roupas colantes da Batgirl ou da Mulher Gato não são mais peças exóticas. Toda mulher sai na rua de calça calça “legging” preta. E não só. Não são poucas as que vão a festas com calça de couro, colante ao corpo, ou com blusas colantes e até mesmo transparentes. Além disso, notamos, a calça jeans ficou também cada vez mais ajustada ao corpo. O real imitou a ficção.

Sim, o real imitou o visual ficcional. Mas isso porque a realidade do real já vem, de algum tempo, precisando da ficção para se legitimar como real. A ficção apresentou o hiper-real, o exagero, e aos poucos começou a pautar o real. O sangue do cinema, na sua condição de ser mais vermelho e a jorrar com mais força que o sangue real, passou a ser visto como tendo um maior grau de realidade. O hiper-real passou a ser o real. Ou seja, o exagero tornou-se o critério da realidade do real.

A figura inteira do corpo da mulher passou por essa metamorfose. As mulheres desenhadas por Milo Manara, com pernas longas e bocas sensuais, ou as mulheres musculosas que se tornaram o padrão das heroínas das HQ, deram o ideal de corpo para as modelos, as artistas. Em seguida, a prática das academias trouxe para a cena das imagens midiáticas as mulheres com “barriga de tanquinho”, mulheres com músculos no bumbum e nas pernas. O movimento foi de tal ordem que as próprias atrizes do cinema, quando chamadas a interpretar heroínas da Marvel (ou da DC), foram obrigadas a recompor seu corpo, ou frequentando academias ou, então, passando por adaptações computadorizadas. O real adotou o hiper-real e o devolveu à ficção de modo dobrado.

Atualmente a Inteligência Artificial cria todas as mulheres com aspectos que, até pouco tempo, seriam exageros. A Inteligência Artificial é elogiada ao fazer uma imagem de mulher “próxima da realidade” , e isso é dito exatamente na medida em que o desenho se apresenta exagerado, fixando-se no que é o hiper-real do momento.

Podemos aproveitar duas passagens de Baudrillard para entender o fenômeno. Uma é sobre a imagem em geral. Outra é sobre a imagem de corpo. Os textos referentes foram publicados em francês em 1976 e 1981. (1)

Baudrillard chegou a dizer que a evolução da imagem havia caminhado por quatro estágios: a imagem como reflexo da realidade; depois, como máscara deformadora do real; em seguida, como máscara da ausência de realidade; e, por fim, a imagem sem qualquer relação com a realidade. Estaríamos então, agora, nessa última condição: a época da imagem como sendo seu próprio simulacro. (2) Parafraseando um título de Heidegger, contido no livro Holzswege (1938), podemos dizer: a época da imagem de mundo é a época da imagem como simulacro. O mundo se fez imagem, se fez simulação.

Baudrillard também escreveu que o corpo está sob quatro registros, que nos dão quatro modelos: médico, religioso, o da economia política e o da economia política do signo. Respectivamente, temos, então, o corpo como cadáver, como ‘carne’, como robô e, enfim, como manequim. A medicina teria como modelo o corpo dos manuais de anatomia; a religião teria como modelo o corpo que tende ao pecado e precisa ser contido; a economia política prefere o corpo que possa sempre trabalhar e produzir sem reclamações; por fim, a economia política do signo mostra o corpo como o que é mero signo do corpo, a silhueta, o que é mais próprio do manequim. O signo do corpo, uma mera forma, ganha o lugar do corpo. A imagem do corpo, no sentido de seu simulacro, substitui o corpo, ao mesmo tempo afasta o corpo e faz desaparecer a distinção entre corpo real e imagem do corpo.

A teoria do simulacro se articula com a teoria dos modelos de corpo. É impossível aqui não citar Debord, no Sociedade do espetáculo (1967), quando ele diz que nossa época ultrapassou a dicotomia ser-ter, para se fixar no paradigma do aparecer. Também é ele quem diz que nos tornamos uma sociedade em que relações sociais são mediadas por imagens. O que vem ocorrendo com o corpo, em especial com o corpo da mulher, exemplifica bem essa nossa nova condição.

O modelo de corpo se casa com o movimento que vemos de fusão e confusão entre real e hiperreal. O corpo que é signo de corpo, que é imagem, ganha a ficção e as ruas. O manequim, ou seja, a silhueta ou o ícone ou qualquer coisa que signifique o corpo é, afinal, o corpo que se impõe. Não à toa o hiper-real que se faz real é um exagero de formas. Não à toa a IA prima pelas formas. A formalidade, a abstração, facilita o seu trabalho. Afinal, a IA não deixa de ser um conjunto de algoritmos como capacidade de “aprendizagem”, que busca elaborar padrões para em seguida reproduzi-los. Se o corpo é imagem e a imagem é manequim, eis o prato cheio pedido por inteligência de máquina.

Notando os modelos de corpo elencados por Baudrillard, em que se sobressai o manequim, e aglutinando essa informação com a do desenvolvimento da imagem, no qual sobressai atualmente o simulacro, tudo isso nos conduz a um quadro de entendimento do que estamos vivendo. O apogeu do corpo gerado por formas, a própria transformação do conteúdo corporal em forma abstrata, que é o manequim, não nos dá algo falso. A simulação do corpo, o simulacro corporal, não é o falso ou o verdadeiro, é o que nos é oferecido. Assim, a figura da mulher é o manequim como simulacro como sendo efetivamente a mulher. É como se tudo tivesse sido preparado para que, em uma época qualquer do futuro, a nossa época atual, fosse possível alimentar o modo de agir da IA.

Sendo forma abstrata, sem qualquer referência a um real profundo, o corpo se aproxima do simulacro de corpo, e se transforma em presa fácil da Inteligência Artificial. O que o mercado financeiro fez com a moeda, desligando-a de realidade material, colocando-a como peça da mídia e, agora, da internet, é o que a IA está fazendo com o corpo. Ele pode vestir as roupas nacionais, como a moeda, mas suas forma de hiper-real, o corpo manequim, é que nos dará a imagem que chamaremos de a mais real. A IA está absolutamente reinante nesse quesito.

Para efeitos didáticos, construímos o quadro sintético abaixo:

Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista

(1) Jean Baudrillard. A precessão dos simulacros. In: Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’água, 1991; Jean Baudrillard. Modelos do corpo. In: A troca simbólica e a morte. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

(2) Nietzsche produziu um caminho semelhante para a relação entre realidade e aparência no texto “Como o mundo verdadeiro finalmente tornou-se uma fábula”, contido no livro O crepúsculo dos ídolos. Baudrillard certamente leu este texto.


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2 comentários em “PARA ONDE FOI O CORPO DA MULHER?”

  1. Ei, Paulo. Te acompanho desde 2013 no seu antigo blog que derrubaram. Você não tem salvo eles em algum lugar? Lembro de um dos artigos, entre eles é sobre Nietzsche intitulado A filosofia do bum!

  2. Lembro de um de seus vídeos em que relata a disputa entre uma atriz e um criador de personagem virtual que quer utilizar a voz desta atriz em sua criação. Então não é só o corpo que esta sendo maquimizado, se é que posso usar este termo, mas parte dele como é o caso da voz da atriz.
    Tudo para gerar lucro a baixíssimo custo, em prol de um capital cada vez mais fictício mas domina até a alma.
    A propósito, pegando um gancho no comentário anterior, seu um seguidor seu na plataforma de vídeos e quando ela caiu perdi um vídeo interessante em que o Professor relata a situação da filha e neta, sendo que a primeira vê traços de autismo na segunda. Quero muito compartilhar este vídeo com minha irmã que é professor e enfrenta esse problema em sala de aula.

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