Depois que inventaram a infância moderna, ficou muito difícil ficar adulto. O mundo antigo e o mundo medieval não conheceram a noção de infância. O in-fante, aquele que não fala, era a criança admitida. Uma vez falante, as crianças eram pouco diferenciadas dos adultos. Os tempos modernos – com Rousseau à frente – deram às crianças características especiais, relativamente próprias. A figura do bom selvagem, criada pelo escritor genebrino, veio a calhar. A criança é decretada naturalmente boa, uma vez que ainda não obrigada a vestir a máscara social. Ela preserva o coração sincero, que seria a base para a boa razão. Ainda não imersa na cultura, se manteria longe dos vícios que a hipocrisia social nos condena, além de manter a curiosidade, que em geral perdemos após sermos ensinados sobre tudo.
A modernidade inventou a infância como uma fase natural dos homens. E então, sendo natural, deveria ser cumprida, mas não sem a ajuda de outros homens. Nasceu daí a psicologia infantil, a puericultura e a pediatria, a ideia de fábrica de brinquedos e vestimentas para crianças, a pré-escola e tantas outras coisas do “mundo da criança”. Em menos de duzentos anos a revolução da crianças já havia sido completada. Quando a mortalidade infantil realmente diminuiu, principalmente após a II Guerra Mundial, começou-se a pensar na infância a ponto de Disney criar um mundo de fantasias para todas as crianças do mundo, e para todos os adultos que viessem a insistir em não crescer. Não à toa Peter Pan foi transmutado para se tornar um herói da Disney.
Paulatinamente a infância foi ampliando o número de anos, e a psicologia começou a se fazer por fases de desenvolvimento. O trabalho infantil foi abolido. E entramos no século XXI com uma série de países censurando e proibindo de vez o castigo corporal das crianças, cerceando pais e professores – mas não os exércitos, que continuaram a matar crianças. Com o advento do direito de não ter filhos, ou pela via da legalização do aborto ou pelos métodos químicos de controle da natalidade, a possibilidade de famílias menores se tornou possível. Assim, cuidar de cada filho passou a ser uma tarefa relativamente mais fácil. À medida que a ideia de infância dominou o mundo, especialmente no Ocidente, os próprios adultos começaram a notar algo que seria sem sentido no mundo antigo e medieval: não se nasce adulto, é necessário se tornar adulto! Bastou notar isso para que a condição de adulto viesse a se mostrar uma conquista nem sempre possível.
Do que vi no cinema, Little Children (Todd Field, Estados Unidos, 2006) é a narrativa mais bem construída sobre como não conseguimos ser adultos. É uma fantástica adaptação do livro de Tom Perrota, de mesmo título. A história não é complicada. Um homem guarda uma mania adolescente: ele é adepto da masturbação diante da pornografia da internet. Deixa a esposa a desejar. Sua esposa é Sarah (Kate Winslet), e está decepcionada com ele. Parece estar aberta a um novo amor. Ela se encontra com Brad (Patrick Wilson), que é sustentado pela esposa (Jennifer Connely) e não consegue passar em exames para se tornar advogado. Ambos se lançam em uma romance secreto, típico de adolescentes, mostrando que foram incapazes de crescer. O romance a faz descuidar da filha, que parece então que irá cair nas mãos daquele que será o único que efetivamente não conseguiu crescer: Ronney (Jackie Earle). Ele é considerado o famoso pedófilo do bairro, um pobre diabo que é perseguido pela vizinhança, gente de direita que atua mais como gang de adolescentes que como pessoas racionais. São chefiados por um tipo fascista, Larry (Noah Emmerich), que insiste em agarrar o pedófilo, e faz as pessoas se insurgirem contra a sua casa, onde ele mora com a mãe velha que o protege a todo custo, como quem protege uma criança. Bem retratado no filme, o pedófilo não é outra coisa senão um ser atormentado e infantil. Todos os personagens são, em certa medida, pequenas crianças grandes. O desfecho do filme se dá entre os dois personagens que, sem opção, não puderam efetivamente deixar de ser crianças: a filha de Sarah, a pequenina Lucy (Sadie Goldstein), e o pedófilo. Não vou dar spoiler. Recomendo que vejam o filme.
Em tempos como os nossos, onde impera o terrorismo sobre abuso sexual e pedofilia, vale a pena não só notarmos como todos nós, de alguma maneira, teríamos que conhecer mais o pedófilo, que é aquele que não conseguiu crescer. Ele é o mais punido com a sina de nossa época. Entre tantos que não conseguem crescer, ele é o que carrega esse destino em forma de patologia e maldição. Alguns se tornam abusadores, outros não. De qualquer forma, não estão em toda parte, não nascem como grama e não procriam como pernilongos. Querer crer o contrário, é a forma de alimentar o terrorismo.
Ser adulto não é algo fácil depois que inventaram a infância. Se pudermos notar isso, veremos que há fases de todo tipo entre os portadores de patologia reconhecida e os irremediavelmente infantis que são apenas e simplesmente irresponsáveis. Estes últimos podem ser menos martirizados pelos deuses. Então começaremos a entender mais coisas complexas, como, por exemplo, que quando o terrorismo sobre abuso e pedofilia se instalam em uma sociedade, todos os laços de solidariedade se quebram. Tornamo-nos inimigos uns dos outros, e nossa capacidade de compaixão e discernimento se esfacelam. Todo terrorismo visa isso. O terrorismo moral não é diferente. O filme referido mostra, durante todo o tempo, essa deterioração dos laços comunitários. Quando o denuncismo se avoluma, percebemos que essa doença americana se espraiou em vários lugares, e continua fazendo ondas no Brasil. Aqui, onda vai e onda vem. A história da Escola de Base foi esquecida. Cada dia aparece um novo denunciador, pronto para fazer com que o problema não se resolva, mas se avolume em outro problema, o terrorismo que faz instalar a guerra surda de todos contra todos. Se alguém puder pendurar qualquer acusado por pedofilia ou abuso de cabeça para baixo, crucificado, nos sentiremos bem. Ficaremos melhor ainda se for um inocente, pois poderemos fofocar e dizer que, afinal, deixou rastro, não foi adulto o suficiente. Ou seja, não foi esperto. Nós, os adultos por decreto nosso mesmo, os “homens de bem”, julgaremos os outros. O importante é manter de pé o terrorismo.
Sociedades que instalam terrorismos não entram totalmente para a anomia. Continuam existindo, mas o laço social desaparece e o único elo que passa a contar é o próprio terrorismo, o sentimento de estar junto só para ter o prazer de apontar o dedo para o outro, e ver como a forca ou a cadeira elétrica ou o suicídio funcionam. Sociedades assim são um prato cheio para a direita política. Ela própria irá se calar se um desse time de conservadores vier a anunciar que “pintou um clima” em uma zona de meretrício de menores. Igrejas o louvarão!
No Brasil de hoje, as pessoas estão com medo de abraçar crianças, beijar crianças. A descorporificação da Internet ajuda bem a descorporificação necessária para escapar do dedo em riste contra a face. O importante é pregar o cartaz na infosfera: Wanted! O prêmio vem em número de seguidores. De resto, todos se sentem obrigados a considerar que os seguidores são a nova “opinião pública”. Algum dinheiro também aparece nos bolsos dos denunciantes. Até o dia seguinte, quando eles mesmos forem denunciados. Então, outros denunciantes irão surgir, prontos para nova rodada capaz de renovar o despejo de adrenalina em uma população amortecida pelas telas.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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