O MIT fez uma pesquisa sobre utilização de IA com o objetivo de descobrir o que ela nos causa. Separando 54 pessoas, criou três grupos que foram postos para escrever ensaios. Um deles usou o ChatGPT, o outro usou o Google e o terceiro ficou sem apoio de máquina. Esses grupos foram monitorados por meio de encefalogramas. A detecção final, após quatro meses, é que o grupo que utilizou o ChatGPT quase aposentou o aparato neural. Além disso, o que se verificou foi que o desempenho linguístico, comportamental e cognitivo desse grupo foi o pior entre todos. Se não bastasse isso, o grupo do ChatGPT, com o passar do tempo, ficou mais lento.
Ao trazer essa história para a sua coluna na Folha de S. Paulo, Becky Korich resolveu o drama, ao menos em tese, de modo fácil. Para ela, “mais relevante do que perguntar se a IA nos emburrece é pensar no que temos feito com a inteligência que ainda nos resta”. E ela continua: “lembremos quando as calculadoras surgiram. Elas nos deixaram mais burros? Depende. Quem usa para calcular 7 x 8, provavelmente. Se for para dedicar os esforços cognitivos para tarefas mais complexas, eu diria que não”. Assim, ela conclui, que “o cálculo mais importante a ser feito não é técnico, mas existencial: o quanto a conveniência pode nos alienar. Esse cálculo nenhuma máquina pode fazer por nós —a IA não é pensamento artificial”. (Folha, 06/07/2025). [grifo meu]
Assim, à primeira vista, Korich deu solução para o caso. Mas há três elementos que ultrapassam em força essa sua aposta na sorte da frase “o quanto a conveniência pode nos alienar”. Não é uma questão de conveniência em abstrato, mas a história que conta que a conveniência é, não raro, imposta a muitos dos que se acreditam usufruindo de conveniências próprias. Korich se esquece de três personagens da história: crianças, dinheiro e tempo (ou seja, capital, dinheiro de novo).
Quando falamos em crianças, podemos incluir jovens, e inclusive adultos jovens. Quando se gasta vinte anos para uma formação feita junto de máquinas, ao final, pode-se não ter aprendido o que fazer com suas próprias potencialidades. Uma língua não se aprende por máquina. A língua materna não é chamada materna à toa. Ela é aprendida com as mães, só estas podem entonar o idioma com o grau de afeto que palavras e sentenças devem possuir para que semântica não seja um simulacro de semântica. Uma tela com mãe gravada não é uma mãe. De certo modo, o mesmo se dá com a convivência com professores. As pessoas não podem substituir a convivência, a dialética ao vivo, pelo discurso da tela, e nem mesmo por sala de chat. A escola é antes de tudo um ambiente, e a maior parte de nosso aprendizado é comportamental, é corporal. Isso é verdade para o estudante de medicina e para o estudante de filosofia. Não à toa essas duas grandes áreas foram geradas em confrarias, em grupos de pessoas que viviam juntas. Qualquer aprendizado fora disso é um aprendizado menos rico. Não raro, medíocre.
Quando tocamos na questão do dinheiro, temos de lembrar que os países ricos podem usar de supercomputadores para suas pesquisas de ponta, deixando outros de fora. Além disso, os mais ricos, em cada sociedade, uma vez adultos bem formados, podem pagar IAs mais sofisticadas, que respondem a comandos mais inteligentes, e não se resumem ao que fazem as máquinas convencionais gratuitas. Isso já é uma realidade em nossa vida cotidiana. A mensalidade de uma boa IA é impagável para o brasileiro médio.
Por fim, temos de lembrar que a maquinaria não funciona ao nosso gosto, segundo a nossa velocidade “de conveniência”. A velocidade de uma sociedade é dada pela velocidade exigida pelo capital. Este, por sua vez, busca o tempo de produção-circulação-distribuição como sendo o tempo zero. O capitalism financeiro, que é a cereja do bolo desse processo, colabora com essa tendência. Não à toa o capital inventou a internet e a IA a ela acoplada. As empresas que produzem e entregam mercadorias colocam o tempo do capital como o tempo válido. Os operadores da bolsa de valores e da venda de papeis, ou seja, da venda de dinheiro, nem pensam mais em tempo, eles vivem segundo operações que são as próprias máquinas que realizam. Ninguém ganha dinheiro nesses meios se não tiver máquinas que sejam mais potentes que as máquinas de ontem.
Podemos tentar proteger a infância. Mas não os adultos jovens. Podemos tentar colocar salvaguardas para os humanos na sociedade capitalista, mas não se o produto-mercadoria é intangível ou se é o próprio dinheiro. Nesse sentido, não teremos conveniência nossa, teremos a conveniência dos próprios algoritmos, que estarão em função de seu criador indireto, o capital. É por isso que a IA é um problema. Ela é um problema por ter sido criada por aquilo que já era um problema, a saber, a nossa passagem do capitalismo de produtos físicos para o capitalismo de produtos intangíveis, a passagem do regime fordista para tudo que está implicado na era pós-fordista em conjunto com a infosfera gerada pela internet. Nosso problema é estarmos no capitalismo 4.0, e não podemos reduzir o nosso problema ao fato de nos depararmos com esse capitalismo por vermos somente a cara de algoritmos.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Artigo esclarecedor.
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