Ninguém daria aval para um médico que não diagnosticasse um bandido trazido ao hospital. Um médico assim, descumpriria o juramento de Hipócrates. Além do mais, seria responsabilizado criminalmente pelo não atendimento. O médico trairia a medicina se adotasse um diagnóstico alheio, com o intuito de prejudicar o bandido. Essa norma vale igual para o filósofo. Seria uma traição para com a filosofia se, diante do ocorrido com o Bolsonaro e seu entorno após perder as eleições, eu não quisesse fazer um diagnóstico do acontecimento, ou, pior ainda, fizesse veicular um diagnóstico no qual não acredito, só para poder prejudicar o Bolsonaro. A medicina e a filosofia nasceram muito próximas, e seja lá o que podem entender por verdade, são atividades teórico-práticas que buscam a verdade. Sabem que perderiam tudo se seguissem outro caminho.
O diagnóstico que faço do Bolsonaro, no ocorrido a partir da perda das eleições, é simples. No entanto, não é simplório. Ele se sustenta pelas informações que possuo, e pelo que é informado pela imprensa. Muitas vezes a imprensa cria um tipo de jornal pelas manchetes, e outro jornal, bem diferente, pelo interior da reportagem. Há aqueles que preferem só as manchetes. E há jornalistas que se informam, também, para serem colunistas, só das manchetes.
Bolsonaro é um falastrão. Já era assim antes de Carlos, seu filho, ter recriado sua imagem, para consumo maior que aquele que Bolsonaro precisava para se eleger deputado. Ele virou “o mito”. Bolsonaro vestiu esse uniforme e, no desprestígio da direita tradicional, ocupou todo o espaço conservador. No começo era apenas uma brincadeira, uma candidatura à presidência para ajudar a eleger os filhos. Mas, quando a coisa toda começou a andar, ele adorou ter se transformado no mito. E passou a desempenhar a performance necessária. Elegeu-se Presidente. Ficou mais falante ainda! Conclamou-se “imorrível”, “imbroxável” etc. Dizia-se enviado por Deus. Contava que era a fina flor do Exército, herdeiro de 1964, e que só Deus o tiraria do Palácio do Planalto. A fala era necessária para arregimentar o seu seguidor mais fanático. Como qualquer outro político populista, Bolsonaro logo percebeu que quem não o abandonaria seria o fanático, no sentido daquele que quer ver o seu líder falando bravatas. Para o fanático mais vale o verbo que a ação.
O problema de Bolsonaro começou, realmente, quando esses fanáticos, e em especial os idiotas de seu entorno, após ele perder as eleições, passaram a pedir que ele cumprisse suas promessas: se é o filho de Deus, liberte a nós e liberte-se a si mesmo. Salve-nos do Lula. Essa foi a ordem da própria esposa. Os correligionários mais próximos disseram: “não deixe Lula subir a rampa, vamos perder nosso país para o comunismo”. “Não deixe o comunismo ser implantado e acabar com a família brasileira”. Essas pessoas engoliram a retórica ultrapassada de Bolsonaro e, então, fizeram a desgraça do líder. Essas pessoas se tornaram uma pedra no sapato de Bolsonaro. Ele não tinha empresários ou banqueiros para organizar um golpe. Ele não tinha as Forças Armadas alinhavadas por políticos que, por sua vez, estariam conversando com as elites econômicas. Ele não tinha um adversário radical, que realmente metesse medo nas elites e, por fim, o clima mundial não o favorecia para um aventura política com violência. Bolsonaro sempre soube que o Brasil não é a Bolívia. Mesmo parte da esquerda insistindo que o Brasil era uma Bolívia, para repisar a tese de que Bolsonaro preparava um golpe e que isto era possível, ele próprio, Bolsonaro, não se entusiasmou. Desde o tempo que fez o que fez de errado no Exército, e praticamente foi expulso, Bolsonaro entendeu bem a que levam as ousadias impensadas e solitárias. O “Day After”, como ele mesmo tem afirmado, não lhe seria favorável. Afinal, as elites econômicas haviam ganho o Congresso e os mandatos dos governadores. Não estavam nem um pouco descontentes. Os acampados nas ruas, em frente a quarteis, todo mundo sabe, era um bando de Tonhos da Lua. Dar um golpe em favor dos “patriotários”? Bolsonaro não tinha e não tem cabeça e energia para tal. Vocação para mártir, menos ainda.
Ainda que tudo fosse favorável a um golpe, assim mesmo, Bolsonaro não se arriscaria. Isso porque Bolsonaro é incapaz de liderar uma trama desse tipo. Uma arquitetura do golpe jamais seria elaborada por ele, e ele nunca endossaria algo feito por outros que não estivesse ele adiante de tudo e com a certeza de vitória final.. Não teria como pensar em golpe, mesmo que o mundo não tivesse rede de TV e internet, prontas para não deixá-lo falar sozinho. Bolsonaro se viu aliviado ao perceber que podia contar às pessoas do seu entorno que estava sozinho na tarefa do golpe. Mas seu alívio durou pouco. Ele voltou a ficar preocupado quando lhe avisaram que os acampados na frente de quarteis iriam fazer a “festa da Selma”, uma ida ao Palácio do Planalto em um domingo. Um golpe de domingo! Uma arruaça dessas levaria Lula e o STF a acusá-lo de chefiar um golpe, e ele seria preso. Bolsonaro, então, fugiu para os Estados Unidos. Foi às pressas, sem dinheiro, e por isso mesmo tentou surrupiar as joias.
Bolsonaro foi cometendo pequenos crimes e falando demais para poder escapar da arruaça que o prenderia por golpe. Na verdade ele se apavorou, e acabou levando de uma vez as joias. Seu objetivo era o de ficar distante de tudo, ficar livre de acusações. Enquanto alguns que vivem em realidade paralela diziam “esperem 72 horas”, o próprio Bolsonaro foi para a internet e disse que ele não tinha nada a ver com a Festa da Selma. Tudo ficou desencontrado: Eduardo Bolsonaro dava declarações de que seu pai era líder, mas não havia liderado o 8 de Janeiro. Ou seja, o entorno de Bolsonaro não sabia que discurso fazer, afinal, o mito era mito ou só mitologia?
O problema do líder é sempre o mesmo: quando se diz o que os liderados devem acreditar deve-se tomar cuidado com o nível da capacidade de acreditar. Bolsonaro não mediu as consequências do que falava. Deu no que deu.
Essa minha narrativa não ajuda Bolsonaro. Contar a verdade nunca ajuda alguém como Bolsonaro. O que ajuda Bolsonaro é que o relatório da Polícia Federal é um amontoado de dados sem pé nem cabeça, e estão amarrados com nós frouxos, errados, tornando tudo uma peça de fiçção fácil de desmentir. Qualquer advogado razoável desmonta esse relatório com um pé nas costas. A imprensa inventou o golpe e incentivou a Polícia Federal a entregar para a PGR um texto que não possui dados, mas, sim, um enredo com todo tipo de juízo de valor que, enfim, mostra um intenção pouco nobre da polícia. Os dados são desconexos, informam acontecimentos que não acontecem e, por fim, dá a clara noção de que tudo ocorreu, menos qualquer plano para golpe. A impressão em papel de certos eventos que seriam um golpe, uma vez na imprensa, mostraram apenas uma atividade de debilóides, de gente que vive em um “Brasil paralelo”. Nós, de esquerda, devemos saber o que realmente condena Bolsonaro, e não endossarmos aquilo que parece que o condena quando, na verdade, pela fraqueza, pode salvá-lo.
Bolsonaro infringiu a lei na medida em que fez as pessoas desconfiarem da idoneidade do processo eleitoral. Além disso, levou as pessoas a acreditar que ele tinha mecanismos corretos de não sair do poder. Deixou conversas sobre sua permanência no poder, ilegalmente, proliferarem em seu entorno. Tudo isso é o bastante para condená-lo. Inventar planejamento de golpe para condená-lo, vai salvá-lo. A filosofia não vai fazer essa estupidez, o que implicaria em cometer um crime contra si mesma, ao abandonar a escolha da narrativa mais plausível.
Bolsonaro foi um presidente irresponsável. A CPI da Covid mostrou isso. Como ficou difícil condená-lo pelo que fez, estão tentando condená-lo pelo que não fez. Se a imprensa continuar assim e a PF mantiver esse relatório fajuto, no futuro próximo, serão desmoralizados.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Amante da verdade! kkkk. Quem não te conhece que te compre! Quando vc sabotou o site da Unesp com as fotos da Eunice, vc também era amante da verdade?
Ficou falando por 2 anos que não era golpe. Agora ferrou. As evidências estão todas aí e, então, o Jênio Ghiraldelli tem que escrever um textão pra tentar fazer a verdade particular entrar na realidade. Ridículo.
Ah, por onde ele passou nas universidades dava showzinho. Deveria ter tomado umas cintadas quando criança.
Amante da verdade? Um covarde que mentiu pra escapar do processo da Raquel Sherazade e da Tábata Amaral. Vai tomar no seu cu, Ghiraldelli!!!
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