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MAIS AUGUSTINE E CHARCOT, MENOS NARCISO E ECO

Quando meu filho era pequeno, creio que antes mesmo dele entrar na escola, notei que ele claudicava. Levei a um médico. O pediatra pediu para que ele saísse da sala e voltasse em seguida. Quando o garoto entrou na sala, meu Deus! Ele mancava como se tivesse com gesso em uma perna quebrada. O médico ficou espantado! Eu voltei à normalidade, percebi logo que era muito exagero e muita perfeição na arte de claudicar. Claro, ele apenas estava respondendo a um chamamento de reconhecimento. Denominei-o de claudicante. Então, ouvindo isso, ele tratou de dar feedback positivo à minha tão interessante qualificação. Afinal, eu havia mostrado grande interesse por ele, enquanto claudicante. Paguei a consulta à toa.

Não só crianças e cachorros fazem isso. Nós, os humanos adultos, também. Se há algo importante para que possamos nos tratar como um eu, esse algo é o reconhecimento do outro em relação ao que ele parece esperar de nós. Podemos responder aos chamamentos de quem esperamos amor. Mas, somos bem mais vira-latas, respondemos também aos chamamentos descuidados, até de estranhos, se isso nos der a chance de reconhecimento. Isso é essencial para a delimitação de nosso eu, a capacitação de podermos olhar no espelho e nos vermos como seres de bando que são aceitos no bando.

Em uma sociedade como a nossa, do capitalismo financeirizado, a mercadoria que impera é a mercadoria dinheiro. Ela é uma abstração realizada. Trata-se de um equivalente universal que, atualmente, sem lastro, torna-se ainda mais capaz de gerar um modelo sem rosto, para que possamos imitá-lo através de mil avatares. Se nossa tendência é imitar o dinheiro, uma vez que, fetichizado, ele representa poder e realmente atua como poder, o melhor modo que temos de imitá-lo é poder atuar segundo diversos avatares. Assim, imitamos o dinheiro à medida que somos velozes, que achamos que temos poder. Ao mesmo tempo podemos – exatamente por conta a abstração – vestir rostos diversos sobre a máscara, então presa à nossa pele, que é o dinheiro. Identificar-se com o abstrato é poder funcionar a partir de avatares. Assim, podemos ser reconhecidos de diversas maneiras. A cada avatar temos um encontro com o outro, satisfazendo-o, e com isso ganhamos bônus de reconhecimento.

Em uma sociedade assim, é fácil perceber que o imperativo de conduta é forjado por uma tendência à autoteatralização. A cada pessoa que encontramos, dependendo do que ela parece desejar de nós, podemos claudicar, ou dançar, ou fazer caretas, ou beijar, ou mostrar a vulva. Talvez roubar! Até matar. Caso sejamos espertos, não vamos roubar e nem matar, mas criar a impressão que temos poder para assim agir. Não devemos decepcionar o olhar alheio.

Enquanto essa sociedade é a do capitalismo financeiro, tudo funciona assim. E a autoteatralização recebe aspectos que podemos chamar de normal. Mas se o capitalismo financeiro exige velocidade nas aplicações do mercado e, então, inventa a internet, as coisas se complicam. A infosfera ampliada pela internet cria a vertigem no trabalho do reconhecimento. As redes sociais exigem mais avatares do que podemos fabricar. Ela própria, por apps e filtros, nos dá a chance de sermos iguais e diferentes aos milhares. E eis que a ideia de reconhecimento começa a exigir um grau de autoteatralização mais rápido e em número incalculável. A autoteatralização se transforma, então, no que ela é: histerismo.

Por isso, podemos até encontrar narcisos e falar em sociedade narcisista. Mas precisamos notar que é o histérico que está na moda. Peter Sloterdijk chamou a atenção disso lembrando que a histeria desapareceu dos consultórios à medida que ela se universalizou e, então, ganhou status de pertencimento à normalidade. E ele não deixa de lado a presença da mídia nisso tudo. Ele diz: “a histeria é a constituição psicopolítica inevitável de populações mediatizadas” (1). “Sugestividade é, agora, a obrigação máxima do cidadão”. “As mesmas disposições que, cem anos atrás, eram consideradas anormalidades clínicas são, hoje, atribuídas à competência midiática”. (2)

Teatralizamos e produzimos um volume enorme de cópias de nós mesmos. Mas, não são efetivamente cópias. São simulacros. Ora, Deleuze nos lembra que “o simulacro não é a cópia degradada”. Ele “encerra uma potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução”. (3) Não se pode dizer de qual “original” vieram, nem se pode dizer que são iguais ao que é o precedente, pois propositalmente são diferentes. Claudicar em casa demanda uma performance. Claudicar diante do médico, a pedidos, demanda uma postura mais realista, um simulacro, um hiper real. O hiper real é a “realidade aumentada” da teatralização do histérico. Se o médico passa a ser o smartphone, então, tudo se acentua e se intensifica. Depois de um certo tempo, já não mais se claudica, mas se gesticula de tal forma que se possa cumprir as funções do app e do filtro gerado pelos algoritmos. O processo de reconhecimento, tornando-se algo do âmbito do bizarro, se torna de fato reconhecimento. Só se torna reconhecimento à medida que o bizarro se torna a regra do aparecimento.

Nossa sociedade capitalista atual, inclusive por conta de se esperar que o neoliberalismo tenha trazido mais individualismo e, nesse contexto, feito todos voltarem para si mesmos, tem sido caracterizada pelo narcisismo. Essa narrativa tem lá sua possibilidade de ser acolhida. Mas, às vezes, tenho a impressão que mais vejo Augustine e o Dr. Chacot saracoteando por aí do que Narciso e Eco. Não me importo muito sobre o quanto Chacot, em 1862, dois anos antes da publicação do primeiro volume de O capital, mais dava espetáculos de indução do que aulas efetivas. O que me faz falar dele e de Augustine é que, pelo modo como a historiografia mais recente cuidou de seus trabalhos, dá-se a entender que sua paciente mais famosa fazia tudo o que fazia, tendo as crises que tinha – reais ou não pouco importa – por conta de poder responder a Charcot o que ele efetivamente queria como resposta. O espetáculo bizarro e a caracterização da histeria como o que estava à mão de Charcot era o que mais importava, para ambos, para o médico e para a paciente. É como se soubessem que se não fizessem o que fizeram, se não fotografassem como fotografaram, iriam deixar apenas O capital comandar o retrato literário do século XIX capaz de forjar o século XX. Era preciso colocar mais tempero no próximo século. Não só a narrativa do dinheiro, mas também a narrativa do histerismo. Só então o século seguinte poderia se considerar herdeiro da modernidade. Talvez Augustine tenha tido mais consciência disso que Charcot. E certamente mais que Freud. Augustine fez valer a proto-história do garoto claudicante e a pré-história da subjetividade maquínica, essa subjetividade do nosso século que é forjada pela maquinaria da infosfera.

  1. [2017] Peter Sloterdijk. Pós-Deus. Petrópolis: Vozes, 2019, p. 279.
  2. Idem, ibidem, p. 280.
  3. [1969] Gilles Deleuze. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974.

Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor.


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Filme: Augutine. França. 2012, da diretora Alice Winocour

1 comentário em “MAIS AUGUSTINE E CHARCOT, MENOS NARCISO E ECO”

  1. Não sabe falar de outra coisa, além de capitalismo financeiro?! Daqui a pouco vai escrever como o caduco do Bauman. Cada vez mais vejo que vc tem ciúmes do pondé, pq ele consegue ter mercado e vc não….

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