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PROIBIDA DE MORRER

Já faz um certo tempo que ocorreu o episódio que vou narrar. Foi no condomínio em que eu morava, na cidade de São Paulo. Era um condomínio com muitos idosos. No trânsito entre a guarita de entrada e meu apartamento, sempre havia alguém que chamava para conversar. Claro, não raro os assuntos era m filhos, cachorros e… doenças! As reclamações jorravam. Eu escutava, apenas escutava. Até que um dia, eu mesmo me peguei reclamando.

Reclamava da perda do Pitoko, meu filho de quatro patas e cheio de pelos. Tentava fazer o luto. Estava triste. Então, uma senhora passou e escutou aquela conversa toda. Entrou na roda para dizer que eu era uma pessoa de sorte. Não entendi bem. Fiz cara de pergunta. Ela completou: “eu gostaria muito de morrer só depois do meu filho”. Estávamos num grupo de três, e com a senhora falante ficamos em quatro pessoas. Todos nós ficamos em silêncio, mas, de fato, só eu não havia entendido.

A senhora percebeu que eu havia ficado no ar. Refrescou a minha memória: “você não conhece o meu filho?” Não sei como ficou meu rosto. Mas devo ter engolido seco três vezes. Lembrei do homem com quem ela todos os dias passeava. Um senhor com um grau de deficiência mental bem acentuado. Então, compreendi tudo. Para amenizar a situação, ela voltou a falar: “tenho pensado muito em uma solução, mas não tenho muitas alternativas, se eu me for, quem vai cuidar dele? Quem cuidaria do meu filho?” Ninguém ousou dar uma sugestão. O que se poderia falar? Um senhor com olhos bondosos, já na casa dos noventa e pouco, tentou nos dar a todos um conforto: “Fique tranquila, Deus não vai deixar o pior acontecer. Veja, eu mesmo já perdi um filho. Ele inverteu a ordem natural, e foi antes de mim. Isso não é raro. E Deus vai acomodar tudo”.

Depois desse dia comecei a pensar nas “mães que não podem morrer”. Mas também nos filhos que não possuem condição de cuidar dos pais na velhice, porque às vezes é a velhice deles também. A crueldade que se instaura em situações assim atinge todos. Claro que os mais pobres recebem esse tipo de destino de modo mais terrível. Todavia, o que me deixou bem pensativo foi que, em muitas situações, a crueldade começa antes. Quando alguém sabe que não pode morrer, tudo se complica. Isso é o efetivamente cruel.

Quando alguém, de antemão, precisa que Zeus conceda o que concedeu ao amante da deusa Eos, então vemos que o impasse é grande. Eos é a deusa do aurora (1). Ela arrumou um namorado que lhe dava todo o sexo que a juventude da deusa requisitava. Mas ele não era um deus, e sim um mortal. Apaixonada, e sempre exalando o frescor das manhãs, ela pediu a Zeus que desse imortalidade a seu amante. Assim foi feito. Mas, Eos se esqueceu que, diferente dos deuses, os mortais estão no tempo, e que continuam a envelhecer. Assim ocorreu com o seu namorado. Depois de muitos anos, ela o guardou numa caixinha, no momento em que ele, velhinho e encurvado, virou uma cigarra. Todas as noites Eos fazia amor com amantes mais jovens. A cigarra estava ali do lado, na caixinha, e escutava tudo. Mas não ligava mais, ela havia perdido a noção de quem era Eos.

Paga-se um preço alto pela imortalidade. Por isso, é melhor que possamos organizar a sociedade para que políticas públicas façam o que não podemos fazer individualmente.

Paulo Ghiraldelli, professor, filósofo, escritor e jornalista.

(1) Esse mito me foi lembrado pela leitura do Terceiro inconsciente, de Franco Berardi.


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