[ARTIGO DRAFT]
Quando o Homem Aranha se tornou um herói popular das histórias em quadrinhos, nos anos sessenta, Peter Parker apresentava-se como um estudante que ganhava alguns trocados como fotógrafo. Ele vendia fotos para um jornal cujo editor considerava o Homem Aranha um perigoso fora-da-lei. Parker sempre tinha as melhores fotos do Homem Aranha em ação. Claro! Ele era o próprio Aranha. Antes de entrar em ação contra supervilões, ele pendurava sua câmera automática em lugar estratégico! Ninguém poderia conseguir tão bom ângulo para as fotos. Nenhum profissional da imagem poderia estar ali, no meio dos acontecimentos quentes, obtendo as melhores fotos inéditas. Antes mesmo que a polícia anunciasse o ocorrido, as fotos já estavam na mesa da redação de O Clarin Diário.
Caso as coisas se passassem hoje, Peter Parker teria dificuldades de exercer seu protagonismo. Os profissionais da imprensa ou os amadores, hoje em dia, gravam os acontecimentos e os transmitem digitalmente, ou até os lançam na infosfera “ao vivo”. A maior parte da população carrega uma câmera de celular conectada à internet. Em nossos dias, dificilmente Aranha seria o mais rápido e sabido fotógrafo. Além disso, com drones munidos de GPS, qualquer pessoa poderia localizar o Aranha no seu preparo para se engalfinhar com algum supervilão. Atualmente, seria possível destronar não só Parker, mas também o Aranha. Terceiros chegariam antes à cena de batalha do Aranha, e seriam capazes de interferir na luta. Os próprios drones fariam isso. Ser um super-heroi nos nossos dias exige mais esperteza, know how, mil apetrechos e, assim mesmo, talvez não funcione.
Mas, enfim, em um mundo como o nosso, para que Aranha iria querer fotos? Não poderia vendê-las. Jornais impressos desapareceram, e com eles as bancas. E os jornais eletrônicos nem são mais jornais, são os próprios acontecimentos se desenrolando a partir de uma profusão de imagens que emergem direto de eventos os mais díspares possíveis: reuniões entre ricos, guerras, genocídios, casamentos importantes e episódios cotidianos engraçados, descobertas científicas, bate-boca entre movimentos de minorias, bundas que pedem o fim da celulite e, enfim, políticos gritando em igrejas ou fazendo sexo com animais, etc. Tudo é imagem. Tudo segue o falso slogan que, quando se referia aos cartuns, tinha lá sua verdade: uma imagem vale mais que mil palavras. Todavia, a mudança é que tudo ocorre em imagens em “tempo real”. Homem-Aranha, hoje, teria que ser um influencer. Mas ninguém levaria a sério um super-herói que fosse influencer, pois o influencer só influencia a si mesmo, ninguém dá bola para influencer. Eles têm seguidores, mas seus seguidores não lhes garante engajamento e muito menos vão se lembrar deles no próximo verão. Além disso, podem ter seguidores comprados. As famosas “fazendinhas de cliques” na China e na Índia ainda conseguem enganar publicitários que se acham espertos. Há quem ache que influencer vende alguma coisa, algo que, na verdade, é o promotor do influencer junto ao público consumidor.
Talvez por tudo isso, à medida que o capitalismo de plataforma (1) se desenvolveu e a infosfera se tornou não a nossa second life, mas a única e verdadeira vida, então as histórias mais recentes do Homem Aranha se transformaram em um show de bizarrices – com Peter Parker morto e de pois revivendo etc – que afastou o público. O público só voltou a ter apreço pelo super-herói quando a Marvel foi para o cinema. Nesse caso, ao menos nos primeiros filmes, o Aranha tentou sobreviver, recuperar seu prestígio perante algum público, e para tal foi necessário recriar as passagens mais originais dos quadrinhos dos anos sessenta. No ritmo da profusão de imagens e das regras da infosfera, que fazem tudo ser uma avalanche de dados, em que a informação acaba por desinformar e, mais que tudo, impedir a reflexão e o conhecimento, todo e qualquer super-herói se tornou obsoleto. Um super herói é, ainda e sempre, um herói, e portanto precisa de algum enredo para desempenhar o seu papel de humano enquanto o superheroísmo não chama. Sem um drama humano que se ponha em forma narrativa, não há história, há apenas a explosão das onomatopeias. O bom enredo é o que garante uma história, uma narrativa, o que se liga ao conhecimento. A onomatopeia é da ordem dos dados, da computabilidade dos socos e golpes. Como bem lembra Byung-Chul Han, o dataísmo é o abandono de Eros, sendo que “pensar é mais erótico do que fazer contas”, e “o dataísmo torna a produção do saber pornográfica”. (2) Tenho minhas dúvidas que se possa falar em saber quando se está lidando com dados.
O Homem Aranha, hoje, serve apenas para a Marvel fazer filmes que não são propriamente filmes, são animações de computador que, enfim, apenas preparam as vendas dos jogos eletrônicos. A vida do Homem-Aranha, seus dramas pessoais, não importam mais. Eles importavam aos jovens dos anos sessenta, e os criadores do Homem Aranha apostaram nisso, exatamente por isso fizeram um herói que era um estudante, que tinha questões existenciais. A geração Z, que começa agora a ficar adulta, não tem nenhum drama interior. A vida imagética levada ao extremo por meio da substituição da transmissão analógica pela transmissão digital, fez da geração Z pessoas exclusivamente informativas e, de certo modo, até super informadas. Pessoas que se pautam pela informação não são aquelas que possuem um baú de fotos impressas, que contam histórias. São pessoas que tiraram muitas fotos, fizeram muitos selfies, mas que não puderam guardar nada disso. Ficaram sem memória. Com isso, aboliram a experiência que, enfim, já havia se tornado uma experiência pobre.
Para construir um interior de alma é necessário um certo romantismo, exatamente aquele modo de ser que gerou o indivíduo moderno. Nesse aspecto, o indivíduo moderno é mais representado por Rousseau que por Descartes. Nesse sentido, nasceu com o século XVIII, não com o XVII. O indivíduo moderno se configurou como aquele cujas meditações não diziam respeito a garantir um ponto de partida no pensamento puro, na evidência intelectual, mas aquele que se pautava pela evidência do “coração sincero”, o exame de consciência, a perspectiva da consciência moral. Rousseau inaugurou esse homem. Todavia, o indivíduo moderno ficou no passado, e o homem contemporâneo é realmente outra coisa. A vida imagética ao extremo fez da geração Z o conjunto de pessoas que frequentam igrejas, mas que não possuem nenhum inchaço subjetivo próprio do cristianismo. A ida de Jesus ao deserto para ser tentado pelo demônio, que nada mais é que a viagem aos exames de consciência e dramas interiores do protohomem moderno, são impossíveis de serem entendidos pela geração Z, tanto a de classe média quanto a de periferia. O indivíduo contemporâneo é uma negação do indivíduo moderno de tipo rousseauísta.
Dos anos sessenta aos anos oitenta tivemos a época áurea da TV. Também a fotografia teve seu espaço de brilho. Não à toa Parker era um rapaz que se mantinha financeiramente com venda de fotos. Nas versões atuais do Homem Aranha, a ideia de vender fotos para jornais tornou-se obsoleta. Todo mundo tira fotos o tempo todo. As câmeras de celulares se tornaram não só populares, mas de porte obrigatório. E a internet nos colocou a todos como pessoas que não conhecem mais o tempo espacializado, herdeiro do industrialismo. O relógio como peça útil desapareceu. O tempo é contínuo, e quem lhe dá ordens ao tempo não é o seccionamento espacial, mas própria continuidade ininterrupta do modo de funcionamento da infosfera, o que se transmite pela internet em abolição da diferença entre dia e noite. Não há mais o descanso separado da hora de trabalho. O fluxo de aparecimento e desaparecimento de imagens segue esse ritmo e ao mesmo tempo impõe esse ritmo. O fluxo de aparecimento e desaparecimento de imagens se confunde com o que é a vida. A vida é alterada e ganha uma outra definição. Estar vivo é estar recebendo dados, informações, repassando imagens, dando like e, enfim, se mantendo conectado. Uma boa parte da geração Z faz filhos sem largar o celular. A maior parte dos filhos da geração Z serão filhos de descuidos da computabilidade de imagens.
Mas há algo do velho Homem Aranha que, parece, veio para ficar, e está entre nós. As histórias em quadrinhos anunciavam o hiper-real como ficção. Nós adotamos a estética dos quadrinhos, e a fizemos se tornar nossa realidade. Ou estamos virtual e efetivamente no âmbito do hiperrreal, ou nós mesmos não nos sentimos como pertencendo a alguma realidade.
As mulheres passaram a usar roupas colantes, como as heroínas dos quadrinhos. As botas são mesmas! Os homens foram para a academia para se tornarem “atrativos” (a outros homens) como os heróis da Marvel, aliás, sempre mais musculosos que os heróis típicos dos anos quarenta e cinquenta. Os anabolizantes dados ao Capitão América se democratizaram. As modificações genéticas do próprio Homem Aranha viraram objetos de desejos de muitos e, enfim, elementos de negociação médica. Pica-se as pessoas em clínicas sem fusões com aranhas radioativas, mas com drogas menos fantasiosas e muito mais fantasistas e fantasmagóricas. Há clínicas que proporcionam qualquer tipo de transformação. Lembram do filme Guattaca? Pois é, trata-se de um filme de 1997. Estamos a 26 anos dele, e tudo que está ali em termos de modificação genética para filhos, ali posto, já ocorreu.
Também no âmbito da visão urbana da histórias em quadrinhos, as do Homem Aranha criaram prognósticos certeiros. As bombas destruindo grandes cidades estão longe de serem ficção. Quando Stan Lee, o produtor do Homem Aranha, viu o atentado às Torres Gêmeas, em 11 de Setembro de 2001, ele não conseguiu não comentar: “nós preparamos o mundo americano para isso”. Todas as histórias da Marvel eram de cenas urbanas com prédios destruídos por ataques diretos, golpes de mão de algum supervilão. Bin Laden comandando o ataque, deixando Bush atônito, parecia uma grande ficção das histórias em quadrinhos. Víamos o episódio pela TV e não conseguíamos tomar como algo que já não tivéssemos visto. Havíamos todos, na infância, consumido o que Stan Lee e Jack Kirby produziram. Estávamos visualmente preparados!
Em uma época em que tudo é fotografado ou filmado e posto a público em “tempo real”, nada é mantido gravado por muito tempo. As imagens se tornaram também incapazes de se mostrarem como elementos testemunhais. Uma foto de um massacre de uma guerra em algum lugar do mundo pode ser usada para ilustrar ou mesmo enganar os que procuram informação a respeito de uma guerra do dia de hoje. As imagens são intercambiáveis, diferentemente dos textos. Talvez por isso mesmo vale muito o tipo de foto atual, o chamado selfie. Você se fotografa e coloca na sua rede social a imagem. Você se põe como personagem do evento. Não raro, celebridades um pouco descabeçadas se apresentam desfilando algum vestido novo em meio a um cenário de uma guerra real ou um cataclisma qualquer. Pessoas viciadas em fotos e selfies acabam por filmar suas próprias agruras em trombadas de carro. Filmar e postar ou mesmo transmitir em tempo real a própria morte se tornou relativamente comum.
Recentemente, agora em novembro de 2023, uma moça morreu em um show da cantora multimilionária Taylor Swift. Calor, falta de água e outros problemas de organização causaram a morte da moça. Eis que o mundo imagético resolve tudo. Está na imprensa a foto da cantora posando com a família da moça. Todos aparecem com camisetas com a estampa do rosto da morta, e a cantora no meio. Exceto o pai, os familiares aparecem sorrindo. A morte da moça os lançou protagonistas na pose publicitária da cantora. A cantora não se fez de rogada. Não chegou a abrir um sorrisão, mas criou o post em forma de selfie coletivo. Nunca vi nenhuma família ser levada à banalização da morte de um membro seu de tal maneira tão rápida, tão sórdida. O mundo imagético exigiu isso.
Vender fotos se tornou algo obsoleto. Mas a foto mesma, ganhou outra dimensão em nossas vidas. Pois agora estamos vivendo sob o nome que, em meados do século XX, batizamos a modernidade. Tornamo-nos as pessoas da “Era das Imagens de Mundo”, para usar aqui a expressão de Heidegger, que é título de um de seus mais significativos e brilhantes ensaios, que é exatamente um exame a respeito dos tempos modernos. Susan Sontag, nos anos sessenta, escreveu que “hoje tudo existe para terminar numa foto”. (3) Em certo sentido, ela ainda tem razão. Mas, hoje, acrescentaríamos. Não raro, tudo existe única e exclusivamente na foto. E não raro muita coisa existe porque começou com uma foto. O real e o virtual, distintos no início da popularização da internet, se esvaiu. Nesse sentido, é bem útil a observação de Byung-Chul Han sobre a foto digital e seu acoplamento ao Snapshat, que faz tudo aparecer e, depois de segundos, desaparecer. Ele diz: “seu ‘Story’ não é uma história no verdadeiro sentido da palavra. Não é uma narrativa, mas um aditivo”. (4) Por isso mesmo, em certo sentido, invertemos a frase de Sontag: tudo que existe começou com uma foto.
Nos anos sessenta, Sontag escreveu: “a necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados”. (5) Sim, mas, mais que vício, o que se tem hoje é, em certo sentido, próprio existir enquanto sucessão de imagens. O vício é existir! Mas existir é existir como imagem. Ela, Sontag, morreu em 2004, não chegou a ver todas as transformações que, agora, começamos a entender. São as transformações que só agora se completam. Elas se iniciaram de um modo que hoje, ao estarem imperativas e hegemônicas, nos fazem lembrar dos primórdios, os anos sessenta. Não à toa, hoje em dia, não é raro retornarmos a Guy Debord. Em 1967, em A sociedade do espetáculo, ele escreveu que a dicotomia filosófica “ter versus ser” havia perdido o sentido diante do novo imperativo, o de “aparecer”. (6) Esse aparecer, que explicita o mundo em que o virtual e vida efetiva se fundem, é um mundo em que a maldade da foto se perpetua como sendo o corriqueiro. Não se trata da banalidade do mal, mas da efetiva normalidade do mal. Pois, como Sontag enfatiza, a fotografia é sempre um modo de tapeação de nós mesmos, sempre forja a impressão de que conhecemos o mundo, e nada é senão uma maldade, o bisbilhotar, o se intrometer, o rompimento da privacidade. Há o devassar e o autodevassar na prática da foto. “Tirar fotos”, escreveu Sontag, “estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos”. (7)
Sontag escreveu em uma época que discutia-se a “perda da experiência”, com ecos dos estudos vindos de Walter Benjamin. O industrialismo e a sociedade de consumo, vigentes no modo de viver segundo a produção capitalista regrada por Keynes e Ford, após a Segunda Guerra Mundial, se transformaram em um campo propício para os temas benjaminianos. O amortecimento das pessoas e a alienação subjetiva pareciam bem descrever a aceitação, por parte dos trabalhadores ocidentais, do American Way of Life. Para Sontag, tirar fotos era “um modo de atestar a experiência” e, concomitantemente, “também uma forma de recusá-la”. Essa recusa ficava claro, dizia ela, quando a foto era a “limitação da experiência a uma busca do fotogênico”. Tratava-se de “converter a experiência em uma imagem, um suvernir”. (8) Dizendo isso, Sontag registrou o que havia irrompido nas cenas características dos anos após a Segunda Guerra Mundial e, depois, nos anos setenta: turistas, em especial alemães, americanos e japoneses, uma vez “inseguros de suas próprias reações”, pareciam se safar dessa situação por meio de praticarem a arte de tirar fotos. Essa prática dava “forma à experiência”: “pare, tire uma foto e vá em frente”. Esse método, ela dizia, pegava os povos mais submetidos à crueldade do trabalho industrial. Havia uma voz na consciência dessas pessoas que dizia: podem tirar fotos e, então, mostrar que estão “de férias”.(9) Era o aproveitamento do “tempo livre”, que então realmente havia chegado às classes trabalhadoras como um direito. Todavia, um direito já contaminado pelo imperativo do trabalho.
Hoje, sabemos bem, tirar uma foto não significa um “pare”. Ninguém estanca para se assumir fotógrafo e, então, tentar dar conta do coração em sobressalto. Isso acabou. Esconder-se atrás de uma enorme câmera que vinha pendurada no pescoço é algo do passado. Tirar fotos perdeu essa função, e hoje significa apenas dar conta do que é necessário, que é se mostrar e mostrar o que está ao redor: nos dois casos já se está trabalhando. Que a foto selfie seja aquilo que tem de ser: um testemunho de que estou vivo! Existo! Que a foto selfie mostre, junto do meu rosto, que o trabalho da empresa que me terceirizou, está pronto. Em um tempo em que há a eliminação do relógio, pois o tempo da internet é contínuo, desaparece a distinção entre a hora de trabalho e a hora de lazer. Cai por terra a ideia de que foto amadora e a do trabalho se separam.
Nessa profusão de imagens e na rapidez de popularização, como vivemos hoje, no entanto, ainda vale a ideia de Sontag, de que foto miniaturiza e atomiza a tudo. Sendo assim, isso realmente colabora para uma equiparação de situações. Há uma inflação semiótica em detrimento da semântica, como escrevi em Semiocapitalismo. (10) Isso permite que as imagens sejam mediadoras de imagens e que o brutal seja narcotizado pelo que se classifica como amoroso. Assim, em meio a duas carnificinas vigentes hoje no mundo (em Gaza e na Ucrânia), e em meio a tensões entre China e Estados Unidos, o presidente chinês Xi Jimping anunciou que a “diplomacia dos pandas voltará”. O que isso significa? Ora, todos os pandas do mundo são concessões chinesas a zoológicos ocidentais. Encerrado o tempo de concessão, os pandas retornam para a casa, para comer seus bambus na própria China. Xi Jimping anuncia que irá renovar as concessões, deixando os pandas mais tempo no Ocidente, e fornecendo outros. O prefeito de São Francisco aplaudiu. A população de São Francisco em peso gritou o nome do presidente chinês na sua viagem até aquela cidade, nesses dias de novembro de 2023, após essa declaração. As imagens do pandas rapidamente se tornaram a realidade que colocou as imagens da invasão de Gaza por Israel como algo pouco interessante de se ver. Sem contar a já esquecida Guerra da Ucrânia.
A câmera é uma facilitadora. Sontag lembra que a Yashica Electro-35 vinha com a seguinte publicidade: “É só mirar, focalizar e disparar. O cérebro eletrônico da GT e seu obturador eletrônico farão o resto”. (11) Sete ou oito décadas antes, a primeira propaganda da Kodak, em 1888, dizia algo semelhante: “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”. (12) Os celulares de hoje, bem menos fálicos que as câmeras do passado – uma vez que a geração Z tende à inapetência sexual -, funcionam na ideia de facilitação anunciada por Bill Gates como sendo a função de toda a internet. O filósofo italiano Franco Berardi, em seus livros, lembra sempre essa frase de Gates: a internet é para tornar a vida fácil. (13) Isso está perfeitamente condizente com os ideias modernos, descritos filosoficamente por Peter Sloterdijk na trilogia das Esferas, em especial no terceiro volume, Espumas. Ele lança mão da ideia de que o homem visa subir, vencer a gravidade, e alcançar um “palácio de cristal’ em que patamares de mimos sejam acrescentados. O mimo maior é poder procurar esforços uma vez que a vida já não exige mais os esforços, ao menos não os de ontem. O escravismo das academias de ginástica, a prática de falar de doença, participar de militâncias de cuidados com minorias e animais, estar fingidamente atribulado dando entrevista para si mesmo em um canal de Youtube. (14) Eis grandes afazeres! As fotos em profusão contínua, o mar de imagens que tudo inunda, a ontologia gerada pela fusão entre virtual e real, tudo isso garante que estamos vivos, ainda que sejamos, efetivamente, insensíveis. A insensibilidade se mostra exatamente na igualação da imagens: os pandas voltando, Anitta fazendo tatuagem anal ao vivo, e a invasão de Gaza pondo crianças a tremer de modo irremediável. Tudo precisa ser muito real na foto que, enfim, não é outra coisa senão, não raro, a transmissão “ao vivo”. Nem é mais para se saber o que é foto é o que é transmissão do episódio real. O importante é que aquilo que se apresenta nas imagens seja hiperrreal, pois só assim será real.
Muito antes da internet, também entres os anos sessenta e o final do século XX, Jean Baudrillard fincou as estacas teóricas a respeito do que vivemos hoje: a condição das imagens do hiperreal. A realidade aumentada, o exagero dos detalhes, a capacidade de visualização de câmeras comuns que criam uma imagem mais real que o real – essas são as condições da ontologia de hoje requisita para que algo possa existir.
Em nota de rodapé do livro Subjetividade Maquínica, deixei observações sobre a história da imagem feita por Baudrillard. Essa história se aproxima da história da filosofia resumida ao máximo por Nietzsche, no aforismo “história de uma fábula”. Baudrillard diz que a imagem começa como “reflexo de uma realidade profunda”, depois, é tomada como o que “mascara e deforma uma realidade profunda”. Em seguida, ela “mascara a ausência de uma realidade profunda”. Por fim, ela “não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro”. Se pensarmos na nossa situação de vida em que as imagens mais reais são hiperreais, e que isso significa tornar todas as imagens sujeitas às modificações feitas por algoritmos que estão em apps – tornando o simulacro o obrigatório – iremos certamente ter de concordar que Baudrillard anunciou os nossos tempos. (15)
Fingir e mentir são práticas diferentes do ficcionar. No entanto, o simulacro é diferente de tudo isso. Ele é a construção de uma ficção que se põe para substituir o real, ainda que com os elementos não reais que se anunciam descarada ou sutilmente como não reais. Trata-se de assaltar uma loja com uma arma de brinquedo que, enfim, apesar de ser bem feita, não é uma arma que não se possa perceber que é de brinquedo. Cria-se o simulacro de assalto. Mas o assalto, enfim, ocorre, pois o dinheiro é levado embora. A Inteligência Artificial que dirige hoje a criação e a profusão de imagens na infosfera é exatamente a rainha da hiperrealidade e a melhor e mais rápida produtora de simulacros. Sob uma ordem em forma de texto ela produz uma imagem que se põe claramente como padronizada, e isso é perceptível exatamente por que a imagem contém o exagero, e é justamente esse exagero que lhe garante o caráter de realidade perante os nossos olhos. É que nossos olhos não esperam mais a imagem de fotos analógicas, e sim a foto esteriotipada do meio digital. O meio digital é, nas palavras de Byung Chul Han, uma não-coisa. Ele mesmo diz: só agora a foto realmente perdeu a aura, como dizia Walter Benjamin diante da foto que, agora, pensando bem, ainda possuía alguma aura. (16)
Estamos em uma época neoliberal em que todos devem competir de modo a ver o outro cair primeiro. Trata-se de um tempo em que o mercado financeiro colocou para todos o ritmo computacional que requisita o ritmo da infosfera. Essa é a velocidade que faz o mercado funcionar, e que se tornou a regra do tempo-sem-relógio para todos. Não há outra alternativa senão participar efetivamente dessa realidade, ou seja, produzir o simulacro ou fazer parte do simulacro. Desse modo, o comportamento histérico (17), muito mais que o simples narcisismo, torna-se regra. Cada um tira a foto que mais pode realizar o simulacro no busca de teatralizar-se, ou seja, de ser histérico. Cada um teatraliza a si mesmo na foto, de modo que ninguém se engane que se trata de teatro, exagero, absurdo e paródia. Cada pessoa coloca seu corpo, completamente descorporizado e insensível, no âmbito da tela que, enfim, deve ser compartilhada para que a existência se manifeste, que ela seja garantida por autorreferência. A geração Z ou foge do mundo ou se integra nele por meio da autorreferência que é o simulacro puro.
A procura no Google pelo “Homem Aranha” revela muito de toda essa situação. O buscador da empresa Google nos dá, antes das história em quadrinhos e até mesmo do filmes da Marvel, a referência aos jogos eletrônicos em que o Aranha saracoteia. O mundo do simulacro é, também e ou mais que tudo, a eletronização da ludicidade enquanto a ludicidade é trabalho, em geral não pago. A teia do Aranha envolvia o inimigo. Hoje, tudo que é nosso inimigo aparece como amigo e joga sobre nós a teia do simulacro. Passamos a desejar o simulacro e o elegemos como princípio de liberdade, como direito.
Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista
- Srnicek, Nick. Plataform capitalism. Malden MA: Polity, 2017.
- Han, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais. Petrópolis: Vozes, 2022, pp. 134-136.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 35
- Han, Byung-Chul. Não-coisas. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 68.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 34.
- Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, tópico 17.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 21.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 20.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p 20.
- Ver: Ghiraldelli, Paulo. Semiocapitalismo. São Paulo/Ibitinga: CEFA Editorial, 2022.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 24.
- Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 67.
- Berardi, Franco. Asfixia. Sao Paulo: Editora UBU, 2020.
- Ver: Ghiraldelli, Paulo. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: ViaVeritas, 2017.
- Ver: Ghiraldelli, Paulo. Subjetividade maquínica. São Paulo/Ibitinga: CEFA Editorial, 2023.
- Han, Byung-Chul. Não-coisas. Petrópolis: Vozes, 2022,
- Ver: Ghiraldelli, Paulo. Subjetividade maquínica. São Paulo/Ibitinga: CEFA Editorial, 2023.
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https://thenextrecession.wordpress.com/2023/11/28/power-and-progress/
Este é o post de um filósofo marxista que eu sigo.
Recomendo os posts anteriores no blog que acho muito interessantes.
Att,
Roberto Cruz de Oliveira Junior
Existe outra opção para se viver nesse capitalismo? Ou todos como o senhor mesmo vive apesar de identificar o abismo parrce estar também no precipício? Ou o senhor está se sacrificando para nos salvar? Ou está apenas a permitir ser narciso moderno?
Não é possível comentar.