Somos seres curiosos. Queremos saber sobre o mundo e sobre nós mesmos. Os filósofos começaram investigando o mundo, elegendo a physis como aquilo que merecia ser observado. Com certo cuidado podemos entender a physis com sendo a natureza. Esse tipo de investigação, a dos cosmólogos, deu o empurrão inicial para a filosofia. Diferentemente, Sócrates não fez investigações sobre a ordem natural. Sócrates promoveu a primeira virada na história da filosofia quando deixou de lado essas questões e enveredou por perguntas a respeito da atividade dos homens. Ele se disse seguidor de uma das inscrições do templo do santuário de Delfos, o célebre “conhece-te a ti mesmo”.
Em um passeio junto com Fedro, o jovem lhe perguntou se ele acreditava nas lendas populares. Sócrates respondeu dizendo que não investigava a esse respeito, pois ele ainda nem mesmo havia dado conta de encontrar respostas para a inscrição délfica. Trabalho no exame de mim mesmo, disse ele, procurando saber se “sou um bicho mais complicado e mais nebuloso que Tífon”, ou se sou “um animal mais manso e simples, por natureza partilhando de não sei que divino e desanuviado destino”. Como sempre, a ironia socrática não deixa de aparecer. Não investiga os mitos, no entanto, tem em Tífon, um ser mítico, parâmetros na busca de sua índole.
A questão de Sócrates fez eco na história da filosofia: qual o nosso destino? Somos do campo dos monstros, mais complexos que Tífon? Ou somos meros animais sem qualquer fúria, cujo traçado tem algo de divino e pouco nublado? Nietzsche sentiu esse eco socrático ao escrever “torna-te o que tu és”. Entre Tífon e algo mais simples, devo me tornar o que sou. De certo modo, em algum momento de meu trajeto, tenho de saber quem sou para fazer cumprir meu desiderato.
Que não se leia nessas histórias alguma coisa do âmbito de um determinismo banal. É preciso saber que os gregos – e Friedrich Nietzsche era fã deles, ao menos dos anteriores a Sócrates – não conheciam a palavra vontade. Eles conheciam o deliberar. O homem cristão e moderno é que se move no conceito de vontade, portanto, pode dirigir-se para o que não está posto. Ele inventa um destino. O homem grego escolhe o que já está posto, ele delibera. Faz uso não da inventividade, mas da prudência. Não à toa Aristóteles fez a apologia da phrónesis, a prudência grega como própria da arte de bem deliberar, ao passo que Agostinho, diferentemente, teve de se ver com a vontade, com a noção de liberdade que lhe é inerente. Viver fora da pecado não é uma questão de deliberação, mas de criatividade.
Nos tempos contemporâneos a liberdade que é própria da vontade adquiriu outros contornos. Todos são convocados a assumir aquilo que Peter Sloterdijk viu como próprio de nossos tempos: o fenômeno do inacabamento. Ninguém se diz pronto. Talvez a grande diferença entre a modernidade e a contemporaneidade seja exatamente isso: os modernos fizeram do conceito de indivíduo algo natural mas, ao mesmo tempo, um ponto de chegada para cada pessoa, enquanto que os contemporâneos estão sempre convocados para se tornarem indivíduos, sem que se tenha um ponto de chegada. Como tais, devem estar abertos a novas experiências, ou mais corretamente, novos experimentos. Sabemos o quanto somos incentivados a experimentar o que é novo.
Nesse contexto, certas máximas de Jean Paul Sartre e Richard Rorty foram apropriadas de modo ideológico. O primeiro dizia que “o importante é fazermos alguma coisa com o que fizeram de nós”. O segundo entendia que poderíamos trabalhar no sentido de “criar versões melhores de nós mesmos”. Essa filosofias implicavam em um traço para além de Sócrates. Algo do âmbito do trânsito do moderno para o contemporâneo. Traziam a possibilidade da criatividade sobre si mesmo. Essa condição, segundo esses pensadores, demandava um alto grau de comprometimento consigo mesmo e com os outros. Todavia, a banalização se apropriou dessas frases. A força ideológica de nosso tempo estragou bem esses motes, tornando-os motes de coaches. O neoliberalismo fez o serviço sujo.
O neoliberalismo promoveu manuais de auto-ajuda em comum acordo com teses contrárias, de pessimismo, que visam reforçar a própria necessidade de auto-ajuda. O resultado dessa operação foi o imperativo ético “seja o empresário de si mesmo”. Os tempos contemporâneos têm insistido que todos devem se “reinventar”. Os mais dispostos à verborragia chegam a falar em “reprogramação neuro-linguística”. O mundo desaparece diante do eu que pode arcar com seus fracassos e driblar crises. Já que ninguém está pronto, então sempre há espaço para o eu deixar brotar do seu interior uma força inaudita, até então desconhecida. Viva a crise! Vende-se a ideia de que tempos difíceis são tudo o que precisamos, pois sem eles não nos recriaríamos! O resultado disso é um conjunto grande de fracassados e ressentidos.
Por volta de 1500 a história do herói Fortunatus se tornou popular. Era um moço que conseguiu um bolsa mágica, a cada quarenta moedas que ele gastava, quando abria a bolsa novamente lá haviam quarenta moedas. As pessoas gostaram de ver um herói movido a juros. O liberalismo prometeu essa bolsa, mas não para todos. O neoliberalismo prometeu a todos. Deu no que deu: populações inteiras raivosas por não serem os Fortunatos prometidos.
Todavia, entre a promessa da ser como Fortunatus e entre o fracasso, surgiram muitas dicas. Nós bem conhecemos as frases: “Deus ajuda quem cedo madruga” ou “não fale em crise, trabalhe”.
Não é para se ter dúvida: tanto na novela Vale Tudo do passado quanto no remake, a lição dada é simples: comece a vender coxinha na praia e em pouco tempo surgirá do interior do seu corpo um grande empresário. Antes, isso era martelado na cabeça do branco pobre, hoje o negro é o preferido. Não à toa, na primeira versão a vendedora de coxinha era branca, na segunda, era negra. Para o branco, lição agora é outra: largue a escola, ou não dê bola para ela, e procure aprender a fazer investimentos, isto é, aplicações financeiras! Recentemente um CEO famoso disse que sentia inveja da geração atual que larga a escola! Aliás, não falta quem promova curso de “educação financeira”. Nenhum desses cursos é serio. Quem ministra esses cursos é gente que, se tivesse o segredo da coisa, teria ficado rica com esse segredo, não com cursos sobre o segredo. E quem dá esses cursos e é rico, acredite, nasceu rico, teve herança etc.
Jurandir Freire Costa foi quem melhor captou essas mudanças, tendo como referência o campo das patologias psíquicas. Antes o louco se dizia Napoleão, agora diz que Napoleão se parece com ele. Há um tipo de narcisismo nisso, claro! Todavia, é um narcisismo sem Narciso. A condição de sujeito é esvaziada, embora a alusão ao que ele deveria ser é mantida. Olha-se para o próprio umbigo, mas é um umbigo solto no mundo, sem corpo. Um umbigo tão mágico quanto o eu a quem ele deveria prestar contas.
No percurso do “conhece-te a ti mesmo”, dos antigos aos modernos e contemporâneos, saímos de uma relação de investigação e cultivo de si para uma relação de autoconfiança até chegarmos na ideia de que temos poderes mágicos. Paradoxalmente, o “desencantamento do mundo”, com o qual às vezes lemos toda a história da cultura, fica arranhado. O que vemos em nossos dias é um reencantamento que atinge profundamente a descrição que fazemos de nós mesmos. O eu que pode tudo, ou que deve poder tudo, só pode ser um eu mágico! Muitos falam que isso tem a ver com um extremo individualismo que, enfim, nos tiraria da condição de ver as relações em que estamos inseridos socialmente. Mas, aqui, temos de desconfiar da palavra indivíduo. Ela ainda tem validade? Gilles Deleuze nos alertou para o surgimento do divíduo, encoberto pela imagem que às vezes fazemos de nós mesmos, que é a do indivíduo.
O indivíduo, o nome já diz, não se divide. O divíduo é o homem atual picotado e, então, devolvido a si mesmo como imagem que tenta se apresentar como indivíduo. O processo pelo qual isso ocorre vem do conjunto da vida social de nossa época. Tenho uma expressão para esse conjunto, em termos comunicacionais: infosfera. Trata-se de um mundo que abraça toda a nossa vida, abarrotada pelas informações. Realiza-se na infosfera e pela infosfera aquilo que Guy Debord anunciou no final dos anos 1960: a dicotomia ter-ser está superada pelo desiderato do aparecer.
No mundo comunicacional do passado recente, a teoria sobre a mídia falava sobre o emissor, a mensagem e o receptor. Era uma teoria liberal: um indivíduo que manda uma informação para outro indivíduo. Mas a mídia se hipostasiou e deixou de ser mídia, ou seja, meio. McLuhan chegou a vislumbrar isso, dizendo que o meio é a mensagem. Lauro de Oliveira Lima completou: “o meio é a massagem”. A infosfera é todo, e talvez massageadora, ou melhor, moduladora, para usar um termo de Deleuze. E não há mais indivíduos trocando informações. A infosfera é o campo do fluxo de linguagem, trabalho e dinheiro. A internet é o campo de materialização da infosfera. Frequentamos as plataformas da internet, comandadas pelas Big Techs. É o capitalismo de plataformas. Estamos nisso para receber e pagar, trabalhar e ter lazer, falar e ouvir. A cada momento que andamos por essa mídia deixamos nela um traçado que não é o do indivíduo, mas de uma parte de nós forjada segundo o próprio itinerário realizado por indução das plataformas. Em seguida, o traçado, que é um fragmento de nós, nos é devolvido como sendo o todo. Cada vez que entramos na infosfera o fazemos como usuários, atuamos segundo um perfil que, enfim, é uma cifra, uma senha. Quando queremos saber quem somos, recebemos como resposta o traçado como sendo o todo. Acabamos nos convencendo que o traçado é o todo, e mais, aceitamos que o traçado foi realmente de nossa escolha e que somos, ainda que em parte, aquilo que é mostrado. Isso é tão verdade que tem gerado algumas situações jocosas, muitos dizem, “nossa! como o Google me conhece mais que eu mesmo”. Outros vão além e convocam os chats de IA para lhes servir de terapeuta. Aliás, uma CO dessas plataformas fez a apologia desse serviço: “veja quantas pessoas agora podem ter um terapeuta, que seria algo caro se não fosse pela IA”.
Não percebemos nossa condição de prisioneiros, algo próprio da hipostasia da mídia. A prisão é a mesma da Rainha Má em relação ao seu Espelho. Em nenhum momento a Rainha Má é completamente senhora do Escravo no Espelho, pois ela está presa a um só perfil. Uma usuária de um só perfil. Sua pergunta é sempre a mesma: “há no Reino alguém mais bela do que eu?” Ela está atada ao destino próprio do espelho, devido ao seu culto à juventude. Afinal, não é este o serviço de um espelho? Trata-se de juventude, e não propriamente de beleza. Pois quando Branca de Neve surge como a mais bela, ela não é efetivamente mais bela, é uma adolescente. O que o Espelho conta é sobre a juventude. Afinal, era sobre isso que a Rainha sempre perguntava, ainda que, com o tempo, tivesse se acostumado com a expressão “a mais bela”.
O divíduo cria caricaturas, e estas são servidas como dádiva ao usuário. Divíduo é bem o nome daquele que arca com as várias caricaturas que são apresentadas a todos que, enfim, se acham indivíduos. Estando na infosfera, necessariamente estão no eco do “conhece-te a ti mesmo”, já completamente banalizado, ideologizado.
Quer saber quem é? Pergunte ao Espelho Mágico. O Google percorrerá todos os selfies e lhe dirá o quanto o seu último selfie é igual a todos os outros de todas as outras pessoas. Sim, igual, pois o selfie é construído a partir dos filtros dos apps, que igualam tudo. Só na igualdade máxima com um modelo abstrato é que o usuário sente o poder da máquina de simulacro. Mas, não raro, o tiro sai pela culatra. A todo momento o usuário está sujeito a cair na reação da Rainha, com raiva, pois há alguém na infosfera mais jovem, portanto mais bela, ou mais inteligente, ou mais rica, ou mais alguma outra coisa. A quantificação é a regra de uma sociedade em que tudo é medido por dinheiro, e essa abstração vai dando caminho para outras abstrações. Cada usuário pensa, em um primeiro momento, como a Rainha: há de existir um caçador que possa matar a concorrente (lembram da película de Disney?). No segundo momento, fica com o mais fácil, que é seguir o lema de nossa época: se reinventar. Como? Da maneira mais banal: não custa usar novo filtro dos apps. Aliás, não custava, agora custa e não é barato. A caricatura fornecida para cada pessoa não é, de fato, uma caricatura, mas dezenas, centenas. Não à toa as pessoas têm mais de um ou dois perfis, várias senhas, várias comunidades, mas, enfim, uma imensa pobreza de experiência diante de uma aparente diversidade de pseudovidas. Muitos experimentos que transbordam e se resumem em nenhuma experiência. A IA associada à infosfera potencializa ao infinito esse itinerário. Mas tanto faz ter muitos perfis ou, como a Raínha Má, ser uma usuária conservadora e ter forjado um só perfil.
Para terminar, um lembrete: a IA é o namoro com o infinito. Ela não respira uma lógica própria, mas a lógica do capital. É ele que também busca o infinito. O capital visa a acumulação. Quando o cerceamos de um lado, ele escapa para outro. A IA é uma maquinaria na medida em que o capital por ele mesmo funciona sob a lógica maquinal. Quando não prestamos a atenção nisso, podemos nos perder na história da filosofia como parte de uma história da cultura que tem asas, e não perna e pés.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo, escritor e jornalista. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrado e mais um doutorado na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e a Licenciatura em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e trabalha como escritor. Foi professor em escola rural, em escolas para crianças e jovens no sistema público e particular. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre do
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