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TRUMP É O FATOR ESPASMÓDICO NECESSÁRIO

Theodor Adorno costuma contar que os nazistas nem sempre censuravam as notícias vindas do front. Não raro, eles próprios divulgavam algumas batalhas desastrosamente perdidas. Assim, criavam um choque na população. Adorno dizia isso para, com um humor não convencional, salientar os comentários de alguns chefões nazistas: “podem dizer tudo de nós no futuro, menos que fomos entediantes”.

O comentário de Adorno sobre isso era que uma sociedade sufocada e reificada talvez só pudesse continuar produzindo por meio desses choques. Parece que é assim os Estados Unidos de hoje. Trump faz questão de criar novidades diárias, e em geral anunciando rumos aparentemente disparatados. Ele atinge todos os setores sociais. Quando os trabalhadores levantam de manhã, uma boa parte deles não sabe se vai ser despedida ou agarrada pela polícia para cair na prisão ou para ser deportada. As crianças logo escutam histórias de que o coleguinha foi separado dos pais e posto em algum depósito da imigração. Os estudantes estão acuados, pois muitas universidades que se diziam recantos da liberdade de expressão, estão cancelando matrículas e expulsando alunos que participaram de algum protesto em favor da Palestina. Mulheres, trans e gays já estão sabendo que as regras do jogo mudaram em diversos empregos e no Exército.

Os ricos e a classe média também se preocupam. Não sabem se a taxação irá encarecer ou não seus produtos de revenda. Os trabalhadores brancos da velha indústria, eleitores de Trump, temem a inflação. Os produtores e acionistas, que sempre ficam relativamente acima da sociedade, quando de regras de governos conservadores, agora também se preocupam. Contrariando o liberalismo americano, Trump anda pondo o estado para intervir na economia de maneira inusitada. O estado compra ações de companhias, assume o controle de outras. Não há crise ou guerra para justificar isso. Há apenas uma retórica estranha sobre segurança nacional. Estão surgindo filas de setores diversos da economia, cada um por si, pedindo favores para Trump. Solicitam que ele explique o que está fazendo, querem que ele amenize as medidas. Mas tudo isso é feito de maneira setorial e isolado. Trump adora ver essa fila de pedintes. Poucos parecem pode acionar a justiça contra Trump, os reacionários de sua ala do Partido Republicano mudaram rapidamente o perfil de setores inteiros do mundo legal.

A sociedade americana não está sufocada como a Alemanha nazista. Mas vive uma característica do capitalismo 4.0 bastante peculiar. Nesse tipo de capitalismo há uma simbiose entre a lógica da financeirização com a lógica da infosfera sob comando das IAs das Big Techs. A subjetividade produzida nesse registro é a subjetividade maquínica, em que a regra é o oferecimento de mais do mesmo. Claro que é um regime de histeria, em que todos visam aparecer no trabalho de ficcionar a si mesmos. É um regime midiático, do qual o próprio Trump é oriundo. Ebulição por cima, tédio por baixo, e cansaço da repetição por todos os lados. Todo investimento é feito por máquinas, todo rosto e comportamento é reproduzido por filtros, na logaritmização completa da vida. Wall Street está maquinizada faz tempo. Os habitantes estão repartidos em senhas e distribuídos em tipos de identidade já faz uma década. Uma sociedade assim talvez precise, como a Alemanha nazi, de choques para criar espasmos. Sem estes, o tédio do narcisismo sem Narciso consumiria toda a população. O rendimento pedido e a performance institucionalizada poderia ficar abalada. Trump não tem uma guerra lá fora para criar espasmos, choques, então ele próprio se torna o agressor de modo a fazer todos ficarem menos zumbis do que estão prestes a se tornar.

Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro


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1 comentário em “TRUMP É O FATOR ESPASMÓDICO NECESSÁRIO”

  1. Professor, como uma teoria (subjetividade maquínica) criada por dois filósofos (Guattarri e Deleuze) que falaceram há mais de 30 anos (quando a internet ainda não foi expandida e IA não existia) explica o fenômeno moderno das redes sociais e IAs?

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