Franco Bifo Berardi é um dos autores que fornece alimento para parte de minhas reflexões dos últimos anos, inclusive em um dos capítulos do Capitalismo 4.0 (CEFA Editorial, 2025). Na Folha de S. Paulo (04/08/2025), o colunista Ronaldo Lemos vê o pensador italiano como integrando a tradição de Cioran, que ele identifica com o pessimismo. Quem lê o meu livro pode ter uma impressão bem diferente de Berardi, como ele foi lido por Lemos. Então, o que ocorre?
O último livro de Berardi publicado no Brasil é o Pensar após Gaza (N-1, 2025). O livro citado por Lemos é Quit Everything! (Repeater Books, 2024), versão anglo-americana do italiano Disertare. Apesar da ênfase de Berardi em sair da história, e isso em ambos os livros, tomo a liberdade de pensar que Lemos acabou sendo seduzido demais pelo título em inglês. Ele traduziu “Quit Everything!” por “Desistir de tudo!”, o que é correto, eu penso. Mas, isso não é bem o “disertare”. Berardi não usa “renunciare”, mas “disertare”. E o tradutor para o português, em Pensar após Gaza, preferiu “desertar” para a tradução de “disertare”. Nesse caso, pegou o espírito da expressão de Berardi. A ideia não é a de desistir de tudo, mas tem mais a ver com o campo militar, e também com o campo da política. Trata-se de desertar de qualquer exército, de interromper a militância por qualquer partido e até mesmo por qualquer ideia que se vincule à continuidade. Isso não quer dizer desistir de tudo. Como eu o leio, Berardi não está falando de desistência em geral. Berardi pode me desmentir amanhã, indo ao suicídio. Por enquanto, eu o entendo como quem está ainda firme no âmbito de um ramo da filosofia, o da investigação (o outro ramo é o da ética). Ele quer entender o que vivemos.
Aliás, há um profundo paradoxo no pensamento atual de Berardi. Ele diz que para desertar é preciso entender. Ora, para entender é necessário – ele sabe disso, mas procurar não dizer – algum engajamento. Para não ter filhos, como ele acha correto, é preciso entender que não devemos ter filhos. Quem não quer mais participar da história, mas adentrar um mundo fora da história, precisa se engajar na história para entender como sair dela. Berardi evita citar os paradoxos. Ele os dá como já compreendidos. Muito provavelmente ele pressupõe que outros, que tiveram a participação que ele teve até hoje em militância de esquerda, possam saber que ele está com alguma razão. O O significado da palavra democracia, a eficácia da política e a universalidade da razão – tudo isso são crenças de quem não entendeu nada, segundo ele. Até aí, podemos acompanhá-lo, ao menos em princípio, se seguimos o seu raciocínio. Mas, quanto a um item, ele erra: ele acredita que a barbárie impera, que a violência é regra, e a linguagem perdeu completamente seu espaço.
Berardi imagina que a violência e a linguagem, que a barbárie e a comunicabilidade, são excludentes. Mas isso é uma confusão de quem dá pouca atenção ao modo como batemos nos outros e o modo como falamos. Ninguém bate em alguém em silêncio completo. A violência física não é o oposto da linguagem. O tapa na cara sem a expressão “tome isso!” não é eficaz. Por isso mesmo, em geral os israelenses escrevem recados em suas bombas, como já havia sido feito nos apetrechos direcionados a Hiroshima e Nagazaki. É aqui que o projeto de autodestruição, que faz Berardi se desesperançar, tem seu furo. Por quê?
A linguagem parece que veio para ficar. Mesmo a violência extrema, parece requisitar a linguagem. Então, tudo depende da comunicação não se estabelecer completamente pela máquina. Tudo depende, para que haja reação não violenta à violência, que as onomatopeias produzidas pelos processos comunicacionais maquinais não consigam substituir a manifestação vocal de dor humana. Caso possamos ter um espaço para a linguagem humana, então, abrimos uma clareira em que emoções de solidariedade se restabeleçam. Somos seres que constroem a linguagem a partir do nascimento de nossa psiquê, que se dá intrauterinamente, e os sons que nos perpassam são os sons da mãe. Não inventamos algo melhor que o útero. Então, todos nós temos essa vinculação com a mãe, com sua voz, com sua mensagem de boa nova, sua evangelização. Por mais que possarmos ser brutos após nascermos, algo de nossa psiquê se construiu na ressonância (como diz Peter Sloterdijk) entre feto e placenta, ou seja, no interior de uma díade. A todo momento podemos lançar mão dessa situação que prepara a possibilidade da linguagem. Enquanto formos animais que possuem mães, estaremos sempre com a possibilidade de lançarmos mão da linguagem humana que recupera os sons e sinestesias uterinas, e isso sempre será um lugar de tropeço para a violência.
Os algozes podem ouvir gritos de dores. Suportam. Talvez até gostem. Mas quando a vítima lança mão de uma conversação em sua língua, o algoz titubeia. Nessa hora, a linguagem faz efeito. Nessa hora, há algo que faz eco no seu interior. A barbárie é desafiada exatamente nesse momento. A violência tem dificuldades de continuar exatamente nessa hora. É possível falar junto de atos de violência, mas quem fala e ao mesmo tempo golpeia pode em determinando momento se descuidar e escutar. Ao escutar, pode ouvir alguém tentando conversar, e pode esta tentando fazer isso na lingua materna daquele que exerce a violência. O pior algoz treme nessa hora. Fala nas profundezas de sua alma as vibrações intrauterinas que se materializaram na ressonância interna da díade feto-placenta, bebê-mãe. Algumas pessoas violentas sabem disso. Elas evitam qualquer ligação de sua língua materna e a fala da vítima escolhida. Mas nem todo algoz toma essa precaução. Temos de nos valer desses algozes descuidados, pois eles são os que podem titubear no momento em que nos violentam.
Há uma cena em O albergue (Hostel, Estados Unidos, 2005, direção de Eli Roth e co-produzido por Quentin Tarantino) em que ocorre algo que pode ser usado como exemplo do que estou tentando explicar. Um algoz tem sua presa amarrada. A satisfação sádica do algoz é a de poder serrar a vítima ainda viva. Algoz e vítima não se conhecem. Só são postos um diante do outro na hora do processo em que a serragem irá se iniciar. Eis que por um descuido do algoz, a vítima descobre sua origem e passa a falar sua língua. Então, o algoz se desespera, para o processo e foge apavorado. A vítima é salva pela linguagem, pelo que pode ter se passado na alma do algoz que, em termos gerais, poderíamos chamar de identificação. Talvez, resquícios de uma identificação que se produziu antes mesmo de qualquer grande diferenciação. Talvez um pré-história da identificação tenha sido o que emergiu, fazendo o algoz perceber no outro um efetivamente outro, o que remeteu ao seu eu. Afinal, todo e qualquer eu só se faz pela identificação com o outro.
Somente nos dias em que pudermos inventar o humano sem termos mães, poderemos evitar isso. Só nesse dia o algoz estará imune diante de nossa maneira de pegá-lo no contrapé.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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