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O médico e o filósofo

Para Mariangela, com amor

Para o médico o que é problema não é o normal, claro, mas o patológico. Para o filósofo o problema sempre está no normal. A medicina se esforça pela conquista do normal. A filosofia é uma investigação do normal. Onde a medicina termina, começa a filosofia. A medicina luta pela instauração da banalidade do cotidiano. Ela quer que as pessoas possam se perder no corriqueiro. Viver sem dor é viver de modo leve, quase que sem ver passar as horas e os dias. A filosofia é a paralização do banal. Quer que o cotidiano não sequestre as pessoas. A vida não deve ser vivida sem ser examinada.

O exame da medicina é da ordem da atenção do médico e das máquinas. O exame da filosofia é, antes de tudo, um autoexame. A medicina tem um apreço especial pela empiria. Mesmo quando faz a apologia da empiria, a filosofia cria uma teoria, um “ismo”, como no caso do empirismo.

O normal e o patológico estão nas fronteiras entre filosofia e medicina.

Na geometria o normal é o que se põe ereto. A reta normal faz ângulo de noventa graus com o plano horizontal. Desse modo, o normal é o enfrentamento da gravidade. A medicina quer sempre restituir o normal e, assim, é colaboradora da posição ereta. Os médicos querem “por em pé” o doente. A filosofia vê como não suficiente o “ficar ereto”, ela quer mais. Trabalha contra a gravidade no sentido de impor um voo: sobe ao abstrato, rompendo o peso do concreto para, enfim, voltar ao concreto de um maneira nova.

Filosofia e medicina, no que pesem suas diferenças, são práticas utópicas. A utopia da saúde individual e coletiva guia o médico. A utopia da saúde social guia o filósofo. Pode-se notar, nesse caso, que o coletivo e o social diferem. O coletivo é uma reunião de indivíduos. O social depende de forças que transpassam os indivíduos. Utopia é, por definição e por etimologia, o que não está em lugar algum. De médico e louco todo mundo tem um pouco, dizem. E filósofo como sinônimo de maluco não estranha ninguém. É que o médico e o filósofo, trabalhando com um horizonte que se põe como fora de qualquer lugar, não podem ser facilmente compreendidos por aqueles que só trabalham por aquilo que já aparece materializado nas mãos de outros. Além do mais, as pessoas ficam indignadas que exista gente que estude! O filósofo e o médico têm essa mania de estudar.

A ideia básica da medicina é que se há algo a combater, são os agentes patológicos. Ainda que eles estejam em vários lugares do mundo, o lugar que eles, em princípio, não podem estar, é no corpo das pessoas. A ideia básica da filosofia é que se há algo a combater, são os agentes ideológicos. Eles estão em todos os lugares, e antes mesmo que se alojem em algum corpo de pessoa, eles se alojam no corpo social. Os agentes patológicos causam febre, a maior parte. Então, os médicos sempre possuem algum sinal de que as coisas não vão bem, e que ele tem que intervir. Os agentes ideológicos não dão febre alguma, muito pelo contrário, eles são sorrateiros e só são percebidos quando infectaram toda a sociedade, tornando-a sadia demais, calma demais – a um passo da injustiça social completamente aceita, a um passo do servilismo.

Tanto a filosofia quanto a medicina nasceram não de indivíduos, mas de confrarias. A prática médica nasceu de uma confraria alicerçada por graus de parentesco. A prática filosófica nasceu de uma confraria sem necessariamente graus de parentesco. Quando a medicina deixou de ter em sua confraria os parentes, e passou a admitir em seu interior estudantes vindos de outras terras, criou-se um juramento. O juramento de Hipócrates foi instituído exatamente para que outros, os estranhos, pudessem se comprometer com os ideais da confraria. A prática filosófica, por sua vez, sempre teve por elo “o amor ao saber”. Não se pensou em juramento. Não havia um juramento formal, nesse caso, e talvez por isso mesmo as cobranças de filiação entre mestres e discípulos tenham se tornado até mais rigorosas que as das relações entre médicos e aprendizes jovens.

Essas marcas dessas duas práticas, no Ocidente, diferentemente de várias outras práticas, possuem uma espécie de estranha e invejável perenidade.

Paulo Ghiraldelli


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4 comentários em “O médico e o filósofo”

  1. Boa crônica professor. Há alguns anos escrevi uma crônica de um momento vivido com Cristina, que chamei – O sol. Mas, fazendo um providencial um trocadilho…
    A ENFERMEIRA E O GAFANHOTO
    Por Klauss
    Quando casei com Cristina, morávamos no Rio, mais precisamente na Tijuca. Recém-formada, ela fazia residência em enfermagem oncológica no Inca. Certa feita, no período em que residia na enfermaria de hematologia, um paciente de uns 10 anos, que naquele instante estava sem o acompanhante, pediu: – Tia, posso tomar um pouco de sol na varanda?
    Apesar de ele estar muito fraco, ela julgou não haver nenhum impedimento maior em atender ao pedido e com a ajuda da equipe, ela colocou o menino na cadeira de rodas, junto com todo o aparato, e seguiram para a varanda, que era próxima ao quarto.
    Com o sol iluminando todo o seu corpinho, de olhos fechados e com os cotovelos junto ao corpo, ele abriu os braços como que procurando absorver ao máximo de energia que o sol podia lhe doar, numa cena comovente de se ver…
    Naquela mesma noite, o pequeno desencarnou. Pareceu a ela, que ele precisa de energia para desatar os sutis laços fluídicos que unem o espírito ao corpo.

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